Brasil empata com o Marrocos e a estreia acende o alerta
Saibari abriu o placar, Vini Jr respondeu com um golaço e o 1 a 1 com o Marrocos deixou mais perguntas que respostas. Neide Ferreira não engole o discurso de calma: a Copa 2026 começou e o Brasil de Ancelotti ainda não sabe o que quer ser.


Eu odeio dizer "eu avisei". Detesto. Mas deixa eu começar esta segunda-feira sendo honesta com você: eu avisei. Na semana passada já estava escrito aqui que aquela estreia tinha cara de armadilha contra o Marrocos, e foi exatamente o que aconteceu. O Brasil empatou em 1 a 1 com o Marrocos na abertura do Grupo C, no sábado, diante de 80 mil pessoas em Nova Jersey, e quem assistiu sabe que o placar até foi generoso. Não fosse um lampejo de Vini Jr, a gente estaria começando a Copa 2026 falando em derrota.
E o pior não é o ponto perdido. É a sensação, de novo, de que esse Brasil não sabe o que quer ser.
O jogo que me deu razão
O Marrocos entrou em campo jogando o que o Brasil deveria jogar: intensidade, marcação alta, posse com propósito. Saibari abriu o placar ainda no primeiro tempo aproveitando uma falha de saída que o próprio Alisson admitiu depois — ele falou em uma "série de erros" antes do gol, e olha que sinceridade é coisa rara em entrevista de seleção. A Folha resumiu bem: o Marrocos dominou "como se jogasse com vantagem numérica". Doeu ler isso. Doeu mais porque era verdade.
Aí veio o de sempre. Quando o time inteiro está atolado, aparece o craque. Vini Jr pegou a bola depois de um toque de Bruno Guimarães e mandou uma finalização cruzada de fora da área que tirou o Brasil do buraco. Golaço, daqueles. Mas individualidade não é projeto, é socorro. E seleção que depende de socorro na estreia contra o Marrocos não me dá tranquilidade nenhuma para sonhar com hexa.
Ancelotti e as escolhas que não fecham
Carlo Ancelotti montou uma escalação que surpreendeu até quem acompanha de perto. Ibañez e Douglas Santos nas laterais, Igor Thiago de centroavante ao lado de Vini e Raphinha. Se você leu a nossa análise da escalação provável do Brasil, sabe que esse não era o time mais óbvio. E o problema não é ousar — é ousar e o time não responder.
No segundo tempo, com a partida pedindo criatividade, o Brasil simplesmente parou de jogar. Ancelotti mexeu, colocou Danilo, Fabinho, Luiz Henrique e Matheus Cunha, e mesmo assim não criou nada que assustasse o goleiro marroquino. Saiu de campo visivelmente contrariado, com cara de quem também não entendeu o próprio time. Reconheceu o jogo ruim no microfone. Tudo bem reconhecer. Mas eu já ouvi Ancelotti reconhecer jogo ruim desde os amistosos de março — o discurso virou rotina, e rotina de desculpa não ganha Copa.
O que vão te dizer (e por que não cola)
Agora vem a turma do "calma, Neide". Vão dizer que foi só a estreia. Que o importante é não perder. Que o Brasil sempre começa devagar e cresce na competição. Que o calor dos Estados Unidos pesou. Eu conheço o roteiro de cor.
Só que estreia de Copa não é amistoso de fevereiro. É o jogo que define como você entra no torneio, a confiança que você constrói, o respeito que você impõe. O Brasil entrou apático, foi dominado por uma seleção que — com todo o mérito do Marrocos, que é time sério — não tem nem metade do nosso valor de elenco. E quando eu olho para os adversários do Grupo C, vejo um caminho que era para ser tranquilo virar uma fonte de ansiedade já na primeira rodada.
A diferença entre cair nas oitavas e brigar pelo título mora justamente aí: nos jogos em que você é favorito e precisa resolver. Sábado o Brasil não resolveu. Empatou e agradeceu.
Sexta tem Haiti, e não dá pra vacilar
A boa notícia é que o calendário não dá tempo para choro. Na sexta-feira (19), às 21h30 de Brasília, o Brasil encara o Haiti na Filadélfia. No papel, é a chance de golear, recuperar moral e sair da zona de desconfiança. No campo, depende de o Ancelotti achar um time — coisa que, convenhamos, ele ainda não achou. Depois vem a Escócia, no dia 24, e aí já não tem mais margem para experimento.
Eu vou torcer, óbvio. Sempre torço. Mas torcer não me impede de cobrar, e a minha cobrança é simples: chega de depender de talento solto. O Brasil precisa de um time que jogue como time, que pressione, que tenha vergonha de ser dominado por quem tem elenco inferior. O Vini salvou no sábado. Na sexta, e nas que vierem, ele não pode ser sempre o plano A, B e C.
A Copa 2026 começou. E o Brasil, mais uma vez, começou devendo.
Neide Ferreira escreve toda segunda-feira no Beira do Campo. Ela torce de coração, mas cobra de cabeça fria.
Perguntas frequentes
- Qual foi o resultado de Brasil x Marrocos na estreia da Copa 2026?
- O jogo terminou 1 a 1, no sábado (13), no estádio de Nova York/Nova Jersey, pela primeira rodada do Grupo C.
- Quem marcou os gols de Brasil x Marrocos?
- Saibari abriu o placar para o Marrocos no primeiro tempo e Vini Jr empatou para o Brasil ainda na etapa inicial.
- Quando é o próximo jogo do Brasil na Copa 2026?
- O Brasil enfrenta o Haiti na sexta-feira (19), às 21h30 de Brasília, na Filadélfia, e depois pega a Escócia no dia 24.
Fonte: CNN Brasil, Lance, Folha de S.Paulo | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


