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Beirado Campo
Opinião

América do Sul sumiu da Copa 2026: sobrou só a Argentina

Brasil, Colômbia, Paraguai, Uruguai e Equador já arrumaram as malas. Enquanto a Europa lota as quartas da Copa 2026 com seis seleções, a Conmebol se agarra à Argentina de Messi, que hoje encara a Suíça pela última vaga na semi. E se ela cair também?

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
América do Sul sumiu da Copa 2026: sobrou só a Argentina
Ilustração — arquibancadas vazias e a América do Sul reduzida a um só representante nas quartas da Copa 2026

A América do Sul entrou na Copa 2026 com seis seleções e um discurso de sempre: aqui é o continente do futebol, o berço, a alma da coisa. Pois olhe o mapa das quartas de final e me diga onde foi parar essa alma. Sobrou a Argentina. Um time. Uma bandeira azul e branca segurando sozinha o peso de um continente inteiro que, entre uma desculpa e outra, foi eliminado antes da hora. E se a Argentina cair para a Suíça neste sábado, às 22h em Kansas City, a Copa 2026 vira, pela primeira vez em décadas, uma festa sem convidado sul-americano no salão principal.

Não é drama de colunista. É conta. A América do Sul tem sua menor presença nas quartas de uma Copa desde 2002 — quando o Brasil chegou sozinho e, ao menos naquela vez, teve a decência de voltar com a taça. Vinte e quatro anos depois, repetimos a solidão sem nenhuma garantia do final feliz.

A América do Sul se despediu em fila indiana

Vamos aos corpos, um por um, porque a memória do torcedor é curta e conveniente. O Equador caiu para o México ainda nos 16 avos, um 2 a 0 sem história. O Uruguai, aquele que promete raça em toda entrevista, não passou perto. E aí veio o domingo mais cruel: o Brasil foi eliminado pela Noruega de Haaland, um 2 a 1 que já estava escrito nas atuações medíocres da fase de grupos.

Na sequência, o Paraguai bateu na trave contra a França e perdeu por 1 a 0. E a Colômbia foi eliminada pela Suíça nos pênaltis, um 0 a 0 morno decidido na loteria. Cinco seleções sul-americanas empacotadas em poucos dias, cada uma com sua narrativa de azar, arbitragem e "faltou pouco". Some tudo: não faltou pouco. Faltou muito.

Enquanto isso, a Europa colocou seis seleções nas quartas. Seis. A África, uma. A Conmebol, uma. O continente que se acha dono da bola está empatado com a África na contagem — e olha que a África vem crescendo com muito mais honestidade do que a nossa vaidade admite.

O discurso da superioridade envelheceu mal

Aqui mora a parte que ninguém do lado de cá quer ouvir. A América do Sul continua exportando talento a rodo e importando fracasso coletivo. Nossos meninos brilham no Bayern, no Real, no PSG — e depois vestem a camisa da seleção e viram um amontoado de individualidades sem ideia de jogo. A Europa, que "só tem robô e sistema", ganhou o direito de rir. Espanha e França já estão na semi. A Espanha bateu a Bélgica e encara a França num duelo que decide meia final antes da hora. Do outro lado, sobra a vaga que a Argentina tenta arrancar hoje.

Dá para argumentar em nossa defesa? Dá. O novo formato de 48 seleções esticou o mata-mata, criou uma rodada a mais e transformou cada tropeço num precipício. A logística nos Estados Unidos, Canadá e México foi punitiva: viagens longas, fusos, calor de rachar. E, sejamos justos, Brasil e Colômbia esbarraram em Noruega e Suíça em dias específicos de inspiração alheia. Futebol de mata-mata é isso — um chute na trave, um pênalti defendido, e adeus.

Mas contra-argumento não paga fatura. A verdade dura é que nenhuma dessas seleções construiu um projeto sólido de quatro anos. A CBF trocou de comando, prometeu o novo ciclo com Ancelotti e entregou uma queda nas oitavas. A Colômbia dependeu de lampejos. O Uruguai vive de nostalgia. Quando o jogo aperta e o talento individual não resolve sozinho, a conta chega — e ela é sua, torcedor, que financia esse circo com sua paixão.

A Argentina carrega o continente (e talvez a nossa vergonha)

Sobra a Argentina, e aqui a ironia é deliciosa para quem gosta de futebol e veneno na mesma dose. O time que mais nos irrita é o único que honra a camisa continental. Messi, aos 39 anos, segue mandando na bola como o maior artilheiro em Copas, e a seleção de Scaloni faz o que ninguém mais soube fazer por aqui: sofre, apanha, mas avança. Contra o Egito, saiu perdendo por 2 a 0 e virou para 3 a 2. Isso tem nome, e o nome é projeto — algo que o resto do continente esqueceu como se escreve.

Neste sábado, no Arrowhead Stadium, a Argentina encara a Suíça que voltou às quartas depois de 72 anos. É o último posto avançado da América do Sul numa Copa que já entregou o andar de cima para a Europa. Se a Argentina passar, ao menos teremos um representante brigando pelo título e uma desculpa a menos para o velório continental. Se cair, guarde esta coluna: será a primeira vez em muito tempo que a Copa do Mundo terá uma semifinal sem nenhum sul-americano — e ninguém do nosso lado terá o direito de reclamar do juiz.

Torça pela Argentina hoje. Doa o que doer no seu bairrismo, é o que sobrou de nós.

Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

01
Quantas seleções sul-americanas ainda estão na Copa do Mundo 2026?
Apenas a Argentina. Brasil, Colômbia e Paraguai caíram nas oitavas, e Equador e Uruguai antes disso. É o único time da Conmebol vivo nas quartas.
02
Quando é Argentina x Suíça pelas quartas da Copa 2026?
Sábado, 11 de julho de 2026, às 22h de Brasília, no Arrowhead Stadium, em Kansas City, valendo a última vaga na semifinal.
03
Qual foi a última vez que a América do Sul teve só um time nas quartas da Copa?
Em 2002, quando apenas o Brasil chegou às quartas e terminou campeão. Em 2026, a Conmebol repete a marca com a Argentina.

Fonte: Lance, Conmebol, DCI · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.