O melhor do futebol brasileiro, todos os dias
Beira do Campo
BEIRADO CAMPO
Opinião

Cristiano Ronaldo é peso para Portugal na Copa 2026?

Aos 41 anos, Cristiano Ronaldo perdeu chances claras no apático 1 a 1 de Portugal com a RD Congo. Para Neide Ferreira, a geração de João Neves e dos Conceição merece mais do que carregar um monumento — e Roberto Martínez precisa de coragem na Copa 2026.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Cristiano Ronaldo é peso para Portugal na Copa 2026?
Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, vive a sua sexta e provável última Copa do Mundo com Portugal — Foto: Reprodução / Wikipedia

Vou começar pela parte que ninguém em Portugal tem coragem de dizer em voz alta: aquela seleção tem uma das melhores gerações da sua história e está refém da homenagem. Cristiano Ronaldo continua sendo tratado como monumento intocável aos 41 anos, e o empate apático por 1 a 1 com a estreante RD Congo foi o alarme tocando bem alto. Quando o camisa 7 erra dois gols feitos e o time só funciona quando a bola passa longe dele, está na hora de alguém fazer a pergunta incômoda — a começar pelo técnico Roberto Martínez.

A estreia que ligou o alerta

Não é achismo, é o que rolou em campo no dia 17 de junho, no NRG Stadium, em Houston. Portugal saiu na frente cedo, com João Neves marcando aos 6 minutos, e parecia que ia ser um passeio contra uma seleção que disputa a primeira Copa do Mundo da história. Só que a RD Congo não leu o roteiro: Yoane Wissa empatou nos acréscimos do primeiro tempo e segurou o 1 a 1 que valeu o primeiro ponto do país em Mundiais.

No segundo tempo, Portugal pressionou, teve um gol anulado e criou as chances para virar. Quem desperdiçou foi justamente o homem que deveria resolver. Aos 22 minutos, Francisco Conceição cruzou rasteiro e Cristiano chutou no chão, para fora. Aos 28, quase no mesmo lugar, a história se repetiu. Foram dois gols comidos por um atacante que construiu a carreira inteira fazendo exatamente o oposto. Não à toa, as listas de força publicadas depois da rodada derrubaram Portugal — colocaram a seleção no mesmo balaio de favoritos que tropeçaram na largada, ao lado de uma Espanha que também empatou no festival de zeros da estreia.

Cristiano Ronaldo virou o problema, não a solução

Aqui é onde eu bato o pé. O perigo daquele Portugal não veio das botas do capitão — veio da molecada. O gol foi de João Neves, 21 anos. As chances mais claras nasceram dos pés de Francisco Conceição, que driblou, cruzou e fez o trabalho que antigamente era do camisa 7. Vitinha controlou o meio, Bernardo Silva apareceu por todos os lados. Tem um time inteiro pedindo para jogar solto, e ele insiste em orbitar ao redor de um centroavante que não acompanha mais o ritmo.

Eu sei que é duro escrever isso sobre um dos maiores de todos os tempos. Mas Copa do Mundo não é cerimônia de despedida. A própria narrativa romântica da última dança de Cristiano Ronaldo em Portugal virou uma armadilha: o craque entra em campo carregando estátua nas costas, e o time entra junto com ele. Quando o atacante de 41 anos vira o centro de gravidade de uma seleção que sonha com a taça, o problema deixou de ser sentimental e passou a ser tático.

O outro lado — porque ele também existe

Não sou injusta a ponto de fingir que o contra-argumento não tem força. Cristiano é o capitão, o cara que puxa a fila no hino, o sujeito que fez gol em eliminatória atrás de eliminatória para botar Portugal nesta Copa. Tirar o maior artilheiro da história das seleções do time titular, na Copa de despedida dele, é uma bomba política que poucos treinadores teriam estômago de detonar. Martínez montou o grupo em torno da liderança do camisa 7, e existe um valor real nisso que planilha nenhuma mede.

E tem o detalhe óbvio: foi um jogo só. Uma estreia ruim não condena ninguém, ainda mais num grupo em que Portugal segue dependendo apenas de si para se classificar. Pode ser que contra o Uzbequistão, na segunda rodada, o velho lobo apareça e cale a minha boca. Eu adoraria ser desmentida.

A coragem que falta a Roberto Martínez

Mas o meu posicionamento é firme, e não muda: o sucesso de Portugal na Copa 2026 passa por Martínez ter a coragem de tratar Cristiano Ronaldo como arma, e não como monumento. Trinta minutos de um Cristiano descansado, entrando para decidir, valem muito mais do que noventa minutos de um Cristiano travando a transição da equipe. Construa o time na velocidade da Conceição, na qualidade de Vitinha, na fome de João Neves — e use o camisa 7 como o trunfo de luxo que ele ainda pode ser.

Se o treinador continuar refém da reverência, o destino já tem ensaio. A gente acabou de ver gigante europeu pagar o preço da soberba, com a Itália de fora da Copa 2026 virando rotina vexatória. Portugal tem talento de sobra para não terminar nessa lista. Só precisa de um detalhe que anda em falta: alguém disposto a colocar o time acima da homenagem. A pergunta que fica não é se Cristiano merece respeito — merece, e muito. É se Portugal ainda pode se dar ao luxo de jogar para ele.

Perguntas frequentes

Como foi a estreia de Portugal na Copa 2026?
Empate em 1 a 1 com a RD Congo, em 17 de junho, no NRG Stadium, em Houston. João Neves abriu o placar e Yoane Wissa empatou ainda no primeiro tempo.
Quantos anos tem Cristiano Ronaldo na Copa 2026?
Cristiano Ronaldo tem 41 anos. É a sua sexta Copa do Mundo, recorde que ele divide com Lionel Messi.
Quando é o próximo jogo de Portugal na Copa 2026?
Portugal enfrenta o Uzbequistão em 23 de junho, pela segunda rodada do Grupo K.
Quais são os adversários de Portugal no Grupo K da Copa 2026?
Portugal está no Grupo K com Colômbia, Uzbequistão e RD Congo.

Fonte: ESPN, CNN Brasil, FIFA, Bleacher Report | Informações adicionais por Beira do Campo

#cristiano-ronaldo#portugal#copa-2026#opiniao#roberto-martinez
Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.