Gramado da Neo Química Arena: a regra existe, falta aplicar
Em janeiro a CBF publicou um manual com altura de grama medida em milímetros, vistoria e o direito de tirar jogo de mata-mata do estádio. Em julho o campo que era referência no Brasil virou areia e machucou dois jogadores da casa. Coluna da Neide.
Neide Ferreira5 min de leitura
Em janeiro deste ano a CBF publicou um manual dizendo que a grama dos estádios brasileiros precisa ter entre 20 e 25 milímetros de altura, uniforme em todo o campo, sob pena de advertência, sanção administrativa e — em mata-mata — de a partida ser tirada do local. Em julho, o gramado da Neo Química Arena, que por uma década foi citado como o melhor do país, apareceu cheio de areia, tirou dois jogadores do Corinthians de maca e recebeu como punição institucional exatamente isto: nada. Escrever regra é a parte fácil. Alguém precisa aplicar.
O manual que a CBF escreveu em janeiro
Não estou inventando exigência para caber no meu argumento. O manual de competições de 2026 aumentou as exigências sobre gramados e vale para piso natural e sintético. A confederação pode pedir inspeções, diligências técnicas e relatórios ao longo da temporada. Identificada a irregularidade, o clube leva advertência formal. Reincidiu, entram as sanções administrativas. E há o dispositivo que interessa aqui: em competição eliminatória, a CBF pode retirar o jogo do estádio inicialmente designado, obrigando o mandante a indicar outro.
Sete meses depois, temos o caso perfeito para testar o texto. E aposto o que você quiser que ele não será testado.
O gramado da Neo Química Arena não quebrou sozinho
Faço questão do detalhe porque ele desmonta a desculpa fácil. O Corinthians não foi atropelado por um azar meteorológico: o clube aproveitou a pausa da Copa do Mundo — semanas de calendário livre, o sonho de qualquer gestor de estádio — para mexer no campo. O resultado dessa reforma foi o pior gramado da história da Arena, na avaliação do próprio treinador da casa.
Na quinta-feira, no 0x0 com o Athletico-PR pela 21ª rodada, Zakaria Labyad torceu o joelho e Yuri Alberto sentiu a coxa, os dois em lances sem disputa, os dois saindo de maca. Fernando Diniz apontou o campo, disse que cinco jogadores terminaram a partida com os joelhos ralados e cravou que aquele era o pior gramado desde a inauguração, em 2014. O tamanho do estrago já foi contado aqui: o Corinthians perdeu Yuri Alberto e Labyad para as oitavas sem levar um gol de diferença.
Nesta sexta o clube reagiu do jeito que clube brasileiro reage: com promessa. Marcelo Paz, executivo de futebol, foi ao estádio, reuniu-se com a World Sports — empresa responsável pela manutenção — e anunciou uma força-tarefa até o jogo com o Internacional. Ao Lance, Paz admitiu que "a grama é um ser vivo, a evolução que se esperava não teve".
Honesto? É. Suficiente? Não é. Porque a frase serve para explicar o problema e, com a mesma facilidade, para encerrá-lo. Grama é ser vivo, ninguém tem culpa, próxima pauta.
Do outro lado, o plástico agradece
Aqui está a ironia que ninguém em Itaquera vai querer comentar. Há meses os clubes que mandam jogos em grama artificial repetem um argumento único: o sintético de última geração entrega mais qualidade do que boa parte dos gramados naturais mal cuidados do país. É o eixo da nota conjunta que eles assinaram em dezembro, e é o que eu já disse quando a Série A recomeçou no sintético — a briga sempre foi sobre manutenção, não sobre material.
Pois foi um gramado natural, no estádio mais moderno do futebol paulista, contra um adversário que joga em piso artificial em casa, que produziu duas lesões e cinco pares de joelhos ralados em noventa minutos. Não existe defensor do plástico que pague por publicidade tão eficiente.
O contra-argumento que eu aceito (em parte)
Vou ser justa, porque o outro lado tem razão em pelo menos dois pontos.
Primeiro: o Corinthians não sabotou o próprio campo. Investiu, mexeu na hora certa do calendário e deu errado — grama de fato é organismo vivo e reage a clima, drenagem e uso. Segundo: retirar o mando de campo pune o torcedor que já comprou ingresso, não o gestor que errou a intervenção. Tirar Corinthians x Internacional de Itaquera resolveria zero problema de agronomia.
Só que o regulamento tem uma escada, e o primeiro degrau dela não machuca ninguém: vistoria e advertência formal. É constrangimento público, é registro, é histórico. Se o clube que se orgulhava de ter o melhor campo do Brasil recebe uma notificação da CBF e vira assunto por 48 horas, o próximo dirigente pensa duas vezes antes de aprovar reforma sem margem de segurança. A punição aqui é reputacional, e reputação é a única moeda que dirigente brasileiro respeita.
Dia 6 de agosto é o teste
Na quinta que vem, dia 6, o Corinthians recebe o Internacional pela volta das oitavas da Copa do Brasil — no mesmo gramado, em mata-mata, exatamente o cenário que o manual descreve quando autoriza a CBF a mudar o jogo de lugar. Ninguém precisa mudar coisa alguma. Basta mandar um inspetor, medir a altura da grama, escrever o relatório e assinar embaixo.
Se em seis dias a força-tarefa entregar um campo decente, ótimo: o clube resolveu e a regra nem precisou aparecer. Se não entregar e a bola rolar do mesmo jeito, com os mesmos joelhos ralados e o mesmo silêncio, aí ficou provado o que eu venho dizendo desde abril. O problema do gramado no Brasil nunca foi natural contra sintético. É que a gente escreve manual em janeiro e finge que ele não existe em agosto.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- O que aconteceu com o gramado da Neo Química Arena?
- O campo foi reformado durante a pausa da Copa do Mundo e não se recuperou a tempo. No jogo contra o Athletico-PR apareceu com excesso de areia e irregularidades na superfície.
- A CBF pode punir clube por gramado ruim em 2026?
- Sim. O manual de competições prevê inspeções, advertência formal e sanções administrativas em caso de reincidência. Em competições eliminatórias, a partida pode ser retirada do estádio designado.
- Qual a altura de grama exigida pela CBF?
- Entre 20 e 25 milímetros, com a mesma altura em toda a extensão do campo. A exigência vale tanto para gramado natural quanto para sintético.
- Quando o Corinthians volta a jogar na Neo Química Arena?
- Em 6 de agosto, contra o Internacional, pela volta das oitavas de final da Copa do Brasil. A ida é no domingo, dia 2, no Beira-Rio.
Fonte: Lance, CNN Brasil, Metrópoles, O Tempo, Diário de Pernambuco · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


