Copa 2026: o festival de empates que travou a estreia
Quatro jogos, quatro empates. A segunda-feira da Copa 2026 terminou sem um único vencedor, e Neide Ferreira não engole a desculpa de 'jogo estudado'. O novo formato de 48 seleções premia quem se tranca atrás — e o Brasil de Ancelotti empatou junto.


Vou ser direta, como sempre sou: a Copa do Mundo de 48 seleções prometeu festa e, por enquanto, está entregando bocejo. A Copa 2026 teve uma segunda-feira inteira de jogos e terminou sem um único vencedor. Quatro partidas, quatro empates. Nenhuma vitória, nenhum vencido, nenhuma emoção daquelas que fazem a gente levantar do sofá. E não me venham com a história de "jogo estudado", porque o que eu vi em campo foi outra coisa: medo. Seleção pequena se trancando lá atrás e seleção grande sem coragem — ou sem repertório — para furar o bloqueio.
Eu defendo o futebol ofensivo desde que me entendo por torcedora. Por isso digo sem culpa: a primeira rodada desta Copa está parecendo um congresso de cautela. E desconfio que parte da culpa não é dos jogadores. É do formato.
Uma segunda-feira inteira sem vencedor
Vamos aos fatos, porque eu não trabalho com achismo. No dia 15 de junho, a Copa entregou quatro jogos e quatro placares iguais. A Espanha empatou em 0 a 0 com a estreante Cabo Verde, a Bélgica de De Bruyne ficou no 1 a 1 com o Egito de Salah, a Arábia Saudita segurou o Uruguai de Bielsa por 1 a 1 e até o jogo mais movimentado do dia, Irã 2 a 2 com a Nova Zelândia, terminou dividido. Quatro em quatro.
Sabe o que mais me incomoda? Que nenhum desses resultados foi surpresa de verdade. A gente já sentava para assistir desconfiando de que ia dar empate, e dava. Quando o torcedor consegue prever a apatia antes do apito inicial, alguma coisa está errada com o espetáculo que estão vendendo.
O formato premia quem se tranca
Aqui mora o problema que ninguém quer dizer em voz alta. São 48 seleções, divididas em 12 grupos de quatro, e avançam os dois primeiros de cada chave mais os oito melhores terceiros colocados. Faça a conta comigo: 32 das 48 seleções passam de fase. Dois terços do torneio sobrevivem à primeira etapa.
Pois é exatamente esse colchão de segurança que está estragando a festa. Quando uma seleção limitada sabe que pode terminar em terceiro lugar e mesmo assim sonhar com a classificação, qual é o incentivo para ela se lançar ao ataque na estreia? Nenhum. O recado que o regulamento manda é cristalino: não precisa ganhar, basta não perder feio. E time que entra em campo para não perder dá no que deu — quatro zeros à esquerda na coluna das vitórias.
Já tínhamos avisado por aqui que a Copa ia chegar com regras novas e um VAR turbinado para tentar deixar o jogo mais limpo. O que não combinaram com a FIFA é que limpeza demais, somada a um chaveamento que perdoa quase todo mundo, vira sonífero.
Antes que me xinguem: nem tudo é veneno
Sou opinativa, mas não sou injusta. Tem coisa bonita nessa Copa inchada, e eu seria desonesta se não reconhecesse. Cabo Verde, um arquipélago com meio milhão de habitantes, pisou pela primeira vez num Mundial e segurou a Espanha campeã do mundo. O goleiro Vozinha virou muralha e fez o país inteiro chorar de orgulho. Isso só existe porque a porta ficou mais larga. Para o mapa do futebol, é lindo.
E nem todo empate é covardia. O 2 a 2 entre Irã e Nova Zelândia teve quatro gols, viradas e emoção até o fim — empate de jogo aberto eu aplaudo de pé. O problema não é o placar igual em si; é o placar igual nascido do medo, do retranca contra retranca, do "deixa o adversário vir que a gente se vira no terceiro lugar".
Também é verdade que o formato deixa todos os grupos vivos até a última rodada, e isso tende a dar drama lá na frente. Eu só queria que o drama começasse agora, e não daqui a duas semanas.
E o Brasil empatou junto
Não adianta apontar o dedo só para os outros. O nosso Brasil entrou nessa dança de empates de cabeça. Como eu já escrevi sobre a estreia contra o Marrocos, foi preciso um golaço de Vini Jr para arrancar um 1 a 1 que o jogo nem mereceu. A seleção de Ancelotti também caiu na armadilha do "tudo bem, ainda dá pra se classificar".
E é aí que o tal colchão de segurança fica perigoso. Quando até o favorito sente que pode tropeçar e seguir vivo, a urgência some. Eu não quero um Brasil calculista somando pontinhos para terminar entre os melhores terceiros. Quero um Brasil que entre para ganhar, porque foi assim que a gente colecionou cinco estrelas — e não economizando coragem.
Que a partir desta terça-feira, com França, Senegal e a Argentina de Messi entrando em campo, alguém tenha a decência de lembrar que Copa do Mundo é para ousar, não para empatar. A festa dos 48 começou. Agora alguém precisa ligar o som.
Perguntas frequentes
- Quantos jogos empataram na Copa 2026 na segunda-feira?
- Os quatro jogos de 15 de junho terminaram empatados: Espanha 0 a 0 Cabo Verde, Bélgica 1 a 1 Egito, Arábia Saudita 1 a 1 Uruguai e Irã 2 a 2 Nova Zelândia.
- Como funciona o formato da Copa do Mundo 2026?
- São 48 seleções divididas em 12 grupos de quatro. Cada equipe joga três partidas na primeira fase, todas contra adversários do mesmo grupo.
- Quantos times se classificam de cada grupo na Copa 2026?
- Avançam os dois primeiros de cada grupo mais os oito melhores terceiros colocados, totalizando 32 seleções no mata-mata.
Fonte: CNN Brasil, Trivela, Olympics.com | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


