Arbitragem virou guerra de notas — e o pior é que todos têm razão
Em 48 horas, três clubes publicaram notas oficiais sobre arbitragem, cada um com uma queixa diferente e todas legítimas. O problema não é o VAR nem o STJD: é a ausência de um critério que qualquer torcedor consiga conferir sem precisar de planilha.
Neide Ferreira6 min de leitura
O Brasileirão de 2026 tem líder isolado, artilheiro, Copa do Brasil nas oitavas e um problema que nenhum desses três resolve: a arbitragem virou assunto de assessoria de imprensa. Em 48 horas, três clubes grandes publicaram notas oficiais reclamando de decisões — Palmeiras contra o STJD, Flamengo contra o Palmeiras, Atlético-MG contra a CBF. Li as três com atenção. E cheguei à conclusão mais incômoda possível: nenhum dos três está mentindo. Cada um tem razão dentro da própria queixa. É exatamente por isso que a situação é grave.
O fim de semana em que todo mundo escreveu carta
Comecemos pelos fatos, porque nota oficial é gênero literário e a gente precisa separar o que aconteceu do que foi narrado.
Quarta-feira, 29 de julho, Barradão. Palmeiras goleia o Vitória por 4 a 0 pela 21ª rodada. Aos 25 minutos do primeiro tempo, Mauricio acerta o braço no rosto de Cacá numa disputa de bola alta. O árbitro Alex Gomes Stéfano marca a falta e aplica cartão amarelo. O VAR não chama. Onze minutos depois, aos 36, o mesmo VAR chama o mesmo árbitro para revisar outro lance e Cacá é expulso por falta em Jhon Arias. Luan Cândido reclama com gesto ofensivo e também vai para o chuveiro. O Vitória termina o primeiro tempo com nove.
Sábado, 1º de agosto, a Procuradoria do STJD denuncia Mauricio pelo artigo 254 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva — jogada violenta, pena de uma a seis partidas. Denuncia também Cacá, pelo mesmo artigo, e Luan Cândido pelo 258. Julgamento marcado para terça-feira, dia 4.
O Palmeiras responde no mesmo dia, e responde bem: "para que servem o árbitro de campo e o VAR?" A nota vai além da retórica e crava a tese — "não existe justiça quando infrações iguais recebem tratamentos distintos" —, citando cotoveladas de Pulgar, do Flamengo, e de Raniele, do Corinthians, na mesma rodada, que não geraram denúncia nenhuma.
Horas depois, o Flamengo devolve com planilha. Usando o levantamento do Espião Estatístico, o clube carioca apresenta que, desde a implantação do ranking de VAR em 2020, o Palmeiras lidera decisões alteradas a favor (65), tem o menor número de decisões contrárias entre os grandes (47) e o melhor saldo do país (+18).
E, enquanto São Paulo e Rio trocavam parágrafos, o Atlético-MG empatava em 0 a 0 com o Juventude na Arena MRV, na ida das oitavas da Copa do Brasil, e publicava a terceira nota do fim de semana: pênalti em Natanael aos 35 minutos, ignorado em campo e sequer verificado no VAR.
O que a arbitragem perde quando a súmula vira rascunho
Aqui está o ponto que me irrita, e ele não tem cor de camisa.
O cartão amarelo do Alex Gomes Stéfano foi uma decisão técnica. Ele viu o lance, interpretou como imprudência e puniu como imprudência. O VAR olhou e concordou. Três dias depois, um procurador olhou o mesmo vídeo e concluiu outra coisa. Pode? Pode, o regulamento permite. Mas quando isso vira rotina, o apito deixa de ser decisão e passa a ser sugestão. O árbitro trabalha noventa minutos sob pressão para produzir um documento que a semana seguinte pode reescrever no ar-condicionado.
Pior: ninguém sabe quando a reescrita acontece. Foi o próprio Palmeiras quem fez a pergunta certa. Se cotovelada A vira processo e cotoveladas B e C não viram, qual é o critério? Não vi resposta. Não vi nota da Procuradoria explicando por que aquele lance específico exigia intervenção e os outros não. E, sem essa explicação publicada, cada torcedor preenche a lacuna com a teoria que já tinha antes.
O outro lado existe, e é forte
Agora a parte que a torcida alviverde não vai querer ler.
A tese de perseguição não se sustenta neste caso concreto. No mesmo jogo, pelo mesmo artigo, o STJD denunciou Cacá, do Vitória. E Luan Cândido. E a súmula não pode virar dogma: se o campo errar feio, alguém precisa ter poder de corrigir, senão o tribunal desportivo não serve para nada. O Palmeiras, aliás, não está pedindo o fim da revisão — está pedindo isonomia. São coisas diferentes, e a nota mistura as duas.
Do lado carioca, a planilha impressiona, mas planilha de VAR mede o quê, exatamente? Decisão alterada a favor inclui gol legítimo validado e pênalti correto marcado. Um time que ataca mais, chega mais na área e fica mais tempo no campo adversário tende a aparecer mais nesse ranking por motivos que não têm nada de conspiratório. O Flamengo sabe disso. Escolheu o número que servia ao argumento, como todo mundo faz.
E o Atlético-MG reclama do oposto: queria mais intervenção, não menos. Três clubes, três queixas, e as duas primeiras são contraditórias entre si. É o retrato de um sistema em que cada um só enxerga o próprio prejuízo.
O que resolveria isso amanhã de manhã
Não é reforma constitucional. São duas medidas.
Primeira: áudio do VAR de todos os lances polêmicos, divulgado no dia seguinte, sem curadoria, sem programa de TV escolhendo qual soltar. A regra de transparência já existe em outros campeonatos e ninguém morreu. Como escrevi sobre o gramado da Neo Química Arena, o Brasil tem a mania de criar regra boa e aplicar quando dá.
Segunda: a Procuradoria do STJD passar a publicar, junto com cada denúncia, por que denunciou aquele lance e não os outros da mesma rodada. Uma página. Meia página. Qualquer coisa que substitua o silêncio.
Enquanto isso não vier, seguiremos assim: o campeonato decidido em campo e narrado no departamento de comunicação. Cada clube com sua tabela de vítimas, cada torcida com sua estatística de estimação, e a arbitragem brasileira gastando credibilidade que já não tinha de sobra. Na terça, o STJD julga Mauricio. Seja qual for o resultado, metade do país vai achar que foi combinado — e a culpa disso não é da metade que reclamar. É de quem nunca se deu ao trabalho de explicar a régua.
Fontes: Lance, Gazeta Esportiva e CNN Brasil.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Por que Mauricio, do Palmeiras, foi denunciado no STJD?
- Pelo artigo 254 do CBJD, que trata de jogada violenta e prevê de uma a seis partidas de suspensão. O lance ocorreu aos 25 minutos do primeiro tempo contra o Vitória.
- Quando é o julgamento de Mauricio no STJD?
- O julgamento em primeira instância está marcado para terça-feira, 4 de agosto de 2026.
- O que o Flamengo respondeu ao Palmeiras sobre arbitragem?
- O clube publicou uma nota com dados do Espião Estatístico apontando que o Palmeiras acumula 65 decisões alteradas a seu favor pelo VAR desde 2020, contra 47 desfavoráveis.
- Do que o Atlético-MG reclamou na Copa do Brasil?
- De um pênalti não marcado em Natanael aos 35 minutos do primeiro tempo, no empate por 0 a 0 com o Juventude na Arena MRV, lance que o VAR não chegou a revisar.
Fonte: Lance, Gazeta Esportiva, CNN Brasil, Goal, Rádio Itatiaia · informações adicionais por Beira do Campo
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