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Opinião

Regras da Copa 2026: o VAR turbinado já roubou a cena

A FIFA prometeu mais bola rolando na Copa 2026 e entregou uma estreia com três expulsões e o VAR mandando em tudo. Neide Ferreira dispara contra o pacote de regras que transformou o Mundial num laboratório de cronômetros, câmeras e revisões.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Regras da Copa 2026: o VAR turbinado já roubou a cena
A arbitragem foi protagonista na estreia da Copa 2026, com três expulsões — Foto: Reprodução / Goal.com

A FIFA passou meses repetindo que o torcedor quer bola rolando. Pois as regras da Copa 2026 estrearam fazendo o oposto: na abertura, no Azteca, o que rolou de verdade foi cartão vermelho. Foram três num jogo só, recorde para uma estreia de Mundial, e o VAR teve mais tempo de protagonismo que a maioria dos atacantes em campo. Se a meta era modernizar o futebol, a primeira impressão foi de um esporte engasgado por cronômetro, câmera e revisão. Eu avisei que ia dar nisso.

Não me entendam mal. Não sou daquelas que acham que tecnologia é coisa do demônio. O problema não é o VAR existir — é a FIFA enfiar meia dúzia de novidades de uma vez no maior palco do planeta e fingir que vai dar tudo certo. Estreia de Copa não é bancada de testes.

A estreia que virou aula de VAR

México 2 a 0 na África do Sul deveria ser notícia pelo tabu quebrado e pelos gols de Quiñones e Raúl Jiménez. Virou notícia pela arbitragem. Sifile Sithole foi expulso aos 49 minutos por travar uma chance clara de gol — dessas que nem precisava de tela para confirmar. Aos 84, Thimba Zwane levou o segundo vermelho dos sul-africanos por levar a mão ao rosto de Roberto Alvarado, conduta classificada como violenta após o VAR mandar o árbitro rever o lance. E, nos acréscimos, César Montes derrubou um adversário fora da área sem que a cabine interviesse. Três decisões, três temperaturas diferentes, e a sensação de que ninguém sabia direito onde ficava a linha.

No meio dessa salada estava um velho conhecido nosso: o brasileiro Wilton Pereira Sampaio apitou a abertura e saiu de campo como personagem central de um jogo que ele deveria só conduzir. Quem quiser reviver o caos pode conferir como foi a abertura recorde de México x África do Sul. Recorde de expulsões, anote aí, não é o tipo de marca que faz bem para a propaganda da "Copa mais bonita da história".

O pacote de regras que a FIFA empurrou

A lista de novidades é digna de manual de eletrodoméstico. Goleiro tem contagem regressiva para soltar a bola. Reposição de lateral e tiro de meta também ganharam relógio: passou do tempo, o lance vira contra. Substituição agora é corrida contra o cronômetro. Tem pausa técnica de hidratação de três minutos por tempo — útil no calor norte-americano, reconheço, mas que estica ainda mais um jogo já fatiado em interrupções.

O VAR, então, virou onipresente. Além de gol, pênalti e vermelho direto, agora a cabine mete o bedelho em escanteio mal marcado, em segundo amarelo e até em lances anteriores ao gol que o árbitro não viu. Soma-se a isso cartão amarelo zerado duas vezes no torneio, expulsão para quem tampa a boca em bate-boca, câmera no peito do juiz e impedimento semiautomático com alerta sonoro para o bandeirinha. Quem quiser entender como tudo isso se encaixa no novo formato de 48 seleções vai precisar de paciência e de um caderninho.

São muitas mexidas ao mesmo tempo. Cada uma sozinha até se defende. Juntas, criam um jogo em que o atleta hesita antes de respirar, com medo de que algum sensor o entregue.

O que presta nesse novo regulamento

Vou ser justa, porque reclamar de tudo é fácil. Apertar o cerco à cera é uma bênção — todo mundo cansou de ver goleiro deitar no gramado segurando a bola por quinze segundos. A contagem para reposições, se bem aplicada, pode devolver minutos preciosos de futebol. A câmera no árbitro é transparência pura: ouvir o que se passa no campo aproxima o torcedor e tira poder das teorias da conspiração. E hidratar jogador sob 35 graus em Houston é questão de saúde, não de frescura.

O semiautomático de impedimento, quando funciona, encerra discussão de milímetros em segundos. Nesses pontos, a FIFA acertou o diagnóstico. O erro está na dose e no momento.

O recado: futebol não é laboratório

O que me irrita é a arrogância de testar tudo de uma vez na vitrine máxima do esporte. Essas regras deveriam ter rodado meses em ligas menores, em torneios de base, em qualquer lugar que não fosse a abertura de uma Copa do Mundo assistida por meio planeta. Em vez disso, a FIFA escolheu o palco mais caro para aprender no susto — e a conta de eventuais injustiças vai ser paga por seleções eliminadas no detalhe.

Daqui a alguns dias, quando o Brasil entrar em campo e o resto da elite mostrar a que veio, ninguém vai querer ver um jogo grande decidido por um cronômetro de tiro de meta ou por uma tela que reescreve um lance de oito minutos atrás. Futebol é caos organizado, não planilha. A FIFA prometeu mais bola rolando e, na estreia, entregou mais cartolina rolando. Se essa for a tônica do Mundial, preparem o coração: a Copa de 2026 corre o risco de ser lembrada não pelos craques, mas pelas revisões. E aí, sinto muito, a culpa não é do VAR. É de quem apertou todos os botões ao mesmo tempo.

Perguntas frequentes

Quantas expulsões teve a abertura da Copa 2026?
A partida México 2x0 África do Sul teve três cartões vermelhos, recorde para um jogo de estreia de Copa do Mundo.
Quem apitou a abertura da Copa do Mundo 2026?
O brasileiro Wilton Pereira Sampaio foi o árbitro de México x África do Sul, no Estádio Azteca.
O que muda nas regras da Copa do Mundo 2026?
Há contagem de tempo para reposições, pausa de hidratação de três minutos por tempo, VAR para escanteios e segundo amarelo, câmeras no árbitro e impedimento semiautomático aprimorado.

Fonte: Goal.com, Trivela, O Tempo | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.