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Opinião

Arbitragem da Copa 2026: FIFA cede a Trump e esquece a África

A FIFA suspendeu a suspensão de Balogun depois de um empurrão de Donald Trump, enquanto Senegal e Gana engolem pênalti não marcado e VAR mudo. A arbitragem da Copa 2026 tem dois pesos, duas medidas — e a Neide não vai deixar barato.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Arbitragem da Copa 2026: FIFA cede a Trump e esquece a África
Ilustração — cartão vermelho e VAR no centro das polêmicas de arbitragem da Copa do Mundo 2026

A arbitragem da Copa 2026 encontrou um jeito novo de ser vergonhosa: agora ela atende pedido de presidente. Folarin Balogun levou vermelho direto, foi julgado, condenado, multado — e mesmo assim entrou em campo contra a Bélgica porque Donald Trump abriu a boca. Se você achava que o VAR já tinha estragado o futebol, senta que a FIFA arrumou um jeito de piorar. E o pior: fez isso na cara de quem mais apanha do apito neste Mundial, as seleções africanas.

Vou repetir devagar para os desavisados. O atacante dos Estados Unidos foi expulso no dia 1º de julho, contra a Bósnia, pelo brasileiro Raphael Claus, depois de revisão no monitor. No dia 5, o Comitê Disciplinar da FIFA manteve o cartão, aplicou um jogo de suspensão e multa de 40 mil dólares (uns R$ 205 mil). Até aí, tudo certo. O problema é a linha seguinte: a FIFA suspendeu a execução da pena com base no artigo 27 do código disciplinar, jogou tudo para "período de prova" de um ano e liberou o rapaz para as oitavas. Traduzindo do juridiquês: culpado, mas pode jogar. Que maravilha.

Quando o dono da casa manda no juiz

Não sou ingênua, e você também não deveria ser. Balogun não foi perdoado por bom comportamento. Ele foi perdoado porque o presidente dos Estados Unidos criticou a punição publicamente e "pediu que a FIFA revisasse o caso". Depois ainda agradeceu à entidade pela mudança, como quem agradece o garçom por trazer a conta errada a seu favor. A UEFA, que não costuma ser exemplo de nada, soltou uma nota dizendo que a FIFA "cruzou uma linha vermelha". Quando até a Europa acha que passou do ponto, é porque passou mesmo.

O recado que a FIFA mandou para o planeta é nojento em sua clareza: neste Mundial de anfitriões poderosos, quem tem poder político não cumpre suspensão. É o velho futebol dos fortes, agora com verniz de tecnologia. A gente já viu esse filme dublado no Brasil, e eu já cansei de escrever sobre ele quando o assunto é o VAR que está matando a emoção do futebol. A diferença é que lá o problema é incompetência. Aqui, virou política externa.

E a África, que engole tudo calada?

Enquanto o dono da casa recebe indulto, tem seleção apanhando e sendo mandada calar a boca. No jogo contra a Noruega, Idrissa Gana Gueye, de Senegal, levou a mão no pescoço dentro da área, e o brasileiro Wilton Pereira Sampaio — o mesmo homem que apitou a abertura da Copa — nem foi ao monitor olhar. Simplesmente decidiu que não valia a pena. Gana, contra a Inglaterra, teve dois lances reclamados, e o técnico Carlos Queiroz soltou a frase da Copa: "O VAR foi tomar um café?". Foi, Queiroz. Foi tomar café e ainda pediu para viagem.

Não é perseguição, é padrão. As seleções africanas — que chegaram a este Mundial em número recorde de dez representantes — acusam a arbitragem de usar régua diferente quando o adversário é potência. E os números do torneio dão razão a elas. Messi acertou a perna de Aïssa Mandi contra a Argélia e não viu nem amarelo; a Argélia reclamou formalmente. No mesmo Mundial, Balogun encostou no tornozelo de um bósnio e tomou vermelho na hora. Mesmo lance, mesma competição, castigos de planetas diferentes. Isso não é subjetividade da arbitragem, é escolha de lado.

O Brasil não pode dar lição de moral, mas tem cicatriz

Antes que apareça torcedor batendo palma achando que é vantagem nossa: não é. O gol do Vinícius Júnior contra a Escócia foi anulado no detalhe, e a CBF mandou carta pedindo "mais uniformidade nos critérios". Deu no que deu, o Brasil caiu para a Noruega e foi para casa sem passar das oitavas. Não estou dizendo que o VAR eliminou o Brasil — quem eliminou o Brasil foi o Brasil, e eu já falei isso com todas as letras. Estou dizendo que uma competição em que o critério muda conforme o passaporte e o padrinho não serve para ninguém, nem para quem ganha por tabela.

A promessa era outra. Lembra do VAR turbinado que iam vender como solução, com chip na bola e semiautomático de impedimento? A tecnologia até funciona: contra Portugal, a bola conectada flagrou um impedimento milimétrico da Croácia e anulou o gol. O problema nunca foi a máquina. O problema é a mão humana que decide quando ligar e quando desligar a máquina — e agora, também, o telefone que toca de Washington.

O que sobra dessa Copa

Contra-argumento existe, e eu ouço: dirão que o Comitê Disciplinar é independente, que o artigo 27 já existia, que Balogun cumpriria a pena se reincidir em um ano. Tudo bem. Mas independência que só aparece depois de pressão de chefe de Estado não é independência, é encenação. E período de prova para quem já foi condenado, no meio de uma Copa do Mundo, é deboche institucional.

Vamos chegar às quartas de final com quatro jogos que prometem ser lindos. Torço para que o apito fique em segundo plano e a bola resolva. Mas se a FIFA quer mesmo salvar a festa, o mínimo é uma régua só: a mesma falta, o mesmo cartão, a mesma suspensão — valendo para Balogun, para Messi, para Gueye e para o zagueiro do interior da Argélia que ninguém decora o nome. Enquanto isso não acontecer, essa Copa vai ter dois campeões: o que levantar a taça e o telefone que discou primeiro.

Fonte: CNN Brasil, Lance!, BBC Sport | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.