Brasil na Copa 2026: classificar sofrendo não é festa
O Brasil está nas oitavas da Copa 2026, sim. Mas empatou com o Marrocos, apanhou no primeiro tempo contra um Japão desfalcado e só virou nos acréscimos com Martinelli. Agora vem a Noruega do Haaland — e o país insiste em confundir sobrevivência com futebol.


Vou dizer o que a torcida está evitando falar em voz alta desde segunda-feira: o Brasil entrou nas oitavas da Copa 2026 pela porta dos fundos, no susto, e mesmo assim tem gente organizando o desfile do hexa. Classificou, ótimo. Mas alguém precisa lembrar que classificar não é a mesma coisa que jogar bem — e a Seleção do Carlo Ancelotti vem fazendo questão de embaralhar as duas coisas.
Ganhar do Japão por 2 a 1 virou motivo de alívio nacional. Alívio. Não festa, não orgulho: alívio. E quando uma seleção pentacampeã trata escapar de um Japão desfalcado como conquista, o problema não é o adversário. É o espelho.
Um primeiro tempo para esconder dos netos
Vamos aos fatos, porque opinião sem fato é boato. No duelo dos 16-avos, em Houston, o Brasil foi inoperante na primeira etapa. Pior: saiu atrás. Kaishu Sano abriu o placar para o Japão depois de um erro do Danilo — desses que, no vestiário, ninguém tem coragem de repetir no telão. Por 45 minutos, a Seleção pareceu um time que ainda estava lendo o manual de instruções.
A virada só veio no sufoco: Casemiro empatou de cabeça e Gabriel Martinelli decretou o 2 a 1 nos acréscimos, aos 90+4, como mostra o resumo oficial da partida. Salvou a pátria, salvou o técnico, salvou o feriado de muita gente. Mas gol no fim tapa o placar, não tapa a atuação. E a atuação foi de dar aflição em quem viu.
O detalhe que ninguém quer sublinhar: esse Japão chegou capado. Sem Mitoma, sem Endo, sem Minamino, com Kubo lesionado na estreia. Era, no papel, o presente que a Seleção pediu quando fugiu do lado pesado da chave. Presente que quase explodiu na mão. Já tinha alertado sobre isso quando escrevi que o Brasil tirou a sorte grande contra o Japão — e que sorte, nesta Seleção, costuma virar armadilha. Pois virou quase-armadilha.
A fase de grupos já vinha entregando os sinais
Não dá para fingir que o tropeço contra o Japão foi um ponto fora da curva. O Brasil terminou o Grupo C em primeiro, com 7 pontos, e nem por isso empolgou. Estreou empatando por 1 a 1 com o Marrocos — o mesmo Marrocos que depois passou por cima do Haiti por 4 a 2 e mostrou que era gente grande no grupo. Depois vieram as vitórias sobre Haiti (3 a 0) e Escócia, com Vinícius Jr. dando as cartas.
Sete pontos e liderança são resultado bom, ninguém discute. Mas futebol não se mede só no boletim. Contra quem tinha estrutura para incomodar, o Brasil oscilou. Contra quem era claramente inferior, resolveu. E o mata-mata, senhoras e senhores, não costuma escalar times inferiores no seu caminho até o final.
Agora vem a Noruega — e ela tem o Haaland
Aqui a conversa fica séria. Nas oitavas de final, no domingo, em Nova Jersey, o Brasil pega a Noruega. E a Noruega não é o Japão desfalcado: é uma seleção que chega embalada e com Erling Haaland como argumento de sobra. O mesmo Haaland que vive de bola nas costas da zaga, de erro de saída, de vacilo de bola parada. Exatamente o cardápio que a defesa brasileira andou servindo de graça.
Se o Danilo — ou quem estiver na direita — der o mesmo presente que deu ao Sano, não vai ter Martinelli nos acréscimos para consertar. Haaland não perdoa. Ele transforma um erro em gol antes de a torcida terminar de xingar.
E é por isso que eu me recuso a entrar no clima de carnaval antecipado. Classificar sofrendo contra um adversário limitado não é passaporte para nada. É aviso. A Seleção teve a chance de dar um recado de força nos 16-avos e, em vez disso, deu um recado de fragilidade embrulhado em vitória.
O Brasil que eu quero ver (e ainda não vi)
Não sou pessimista de ofício — sou realista com a camisa amarela. Quero o hexa tanto quanto qualquer um. Mas quero um Brasil que ganhe convencendo, não um Brasil que sobreviva torcendo pelo próprio milagre nos acréscimos. Ancelotti tem currículo para arrumar isso: é obrigação dele fazer a Seleção jogar 90 minutos, e não só os cinco finais do desespero.
Contra a Noruega, o discurso do "importante é passar" já não serve. Passar por cima é o mínimo que uma seleção com esse elenco deveria mirar. Se entrar de novo com um tempo de sono e outro de susto, o Haaland acorda o Brasil na marra — e o desfile que estão ensaiando vira velório.
Torço para estar errada. Mas, por enquanto, o que a Copa 2026 me mostrou foi um Brasil que ganha no talento individual e sofre no coletivo. E, no mata-mata, coletivo frouxo é bilhete de volta para casa. Fica o alerta — de preferência antes de domingo, não depois.
Perguntas frequentes
- Quando é Brasil x Noruega na Copa 2026?
- As oitavas de final estão marcadas para domingo, 5 de julho, em Nova Jersey.
- Como foi Brasil x Japão pela Copa 2026?
- O Brasil venceu por 2 a 1 de virada nos 16-avos, em Houston, no dia 29 de junho, depois de sair atrás no placar.
- Quem marcou os gols do Brasil contra o Japão?
- Casemiro empatou de cabeça e Gabriel Martinelli marcou o gol da virada nos acréscimos, aos 90+4.
- Como o Brasil terminou a fase de grupos da Copa 2026?
- Em primeiro no Grupo C, com 7 pontos: empate por 1 a 1 com o Marrocos e vitórias sobre Haiti e Escócia.
Fonte: FIFA, CNN Brasil, Olympics.com, ge | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


