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Brasil eliminado na Copa 2026: a queda que já estava escrita

O Brasil caiu para a Noruega de Haaland nas oitavas e deu adeus à Copa 2026. Neide Ferreira não aceita conversa de zebra: essa eliminação vinha sendo construída havia meses, e agora a conta chegou.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Brasil eliminado na Copa 2026: a queda que já estava escrita
Ilustração — O adeus do Brasil na Copa 2026 diante da Noruega, no MetLife Stadium, em Nova Jersey

Não me venham com "zebra". Zebra é quando ninguém viu chegar. E eu, você e metade do Brasil que assistiu a essa seleção nos últimos meses estávamos vendo isso chegar desde março. O Brasil está eliminado na Copa 2026, caiu nas oitavas de final para a Noruega por 2 a 1, e a única surpresa é a data do enterro — não o enterro em si.

Foi domingo, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Erling Haaland fez os dois gols noruegueses na reta final do segundo tempo. Neymar descontou de pênalti já nos acréscimos, quando o jogo estava decidido e o consolo já era inútil. Antes disso, ainda no primeiro tempo, Bruno Guimarães tinha desperdiçado um pênalti que teria mudado tudo. Perdeu. E o Brasil perdeu junto.

A conta que estava aberta desde março

Deixa eu te lembrar de uma coisa. Em março, eu escrevi aqui que o Brasil tinha perdido para a França jogando com um homem a mais e que aquilo não era detalhe — era sintoma. Ninguém me deu ouvidos. "Neide, é amistoso." "Neide, faltam titulares." "Neide, Ancelotti vai encaixar."

Pois encaixou o quê? Na fase de grupos, o Brasil já preocupava e classificava sofrendo, empilhando atuações mornas que a gente fingia não ver porque no fim vinha o resultado. Resultado esconde muita coisa — até a hora em que não esconde mais. E a hora chegou contra a Noruega, uma seleção que nunca ganhou nada, que tem um time inteiro girando em torno de um jogador só e que, mesmo assim, foi mais time do que o Brasil dentro de campo.

Quem quiser os frios, os números do tabu Brasil x Noruega estão aqui no portal. Mas número não explica postura. E o que faltou domingo não foi estatística. Foi vontade de jogar como se aquela fosse a partida mais importante da vida — que era.

Haaland fez o que os nossos deveriam fazer

Vou ser justa com quem mereceu. Haaland foi monstruoso. Chegou aos sete gols na Copa, empatou com Messi na artilharia e fez os dois num intervalo de poucos minutos, quando o jogo pedia um líder. Ele já vinha carregando a Noruega desde a fase de grupos, e no mata-mata subiu de novo o nível. Isso se chama craque decidindo. Isso se chama jogador grande aparecendo na hora grande.

Agora me diga: quem apareceu pelo Brasil? Neymar, aos 34 anos e longe de qualquer forma física decente, cobrou um pênalti nos acréscimos para maquiar o placar. Vinícius, Raphinha, Rodrygo — a tal "geração ofensiva histórica" que nos venderam por dois anos — não decidiram nada. Bruno Guimarães, que poderia ter aberto o caminho, mandou a cobrança para o goleiro. A diferença entre a Noruega e o Brasil foi exatamente essa: um teve um jogador que quis vencer, o outro teve onze que esperavam vencer.

Não foi azar. Foi projeto errado

Vem aí a parte que ninguém em Brasília do futebol vai gostar de ouvir. Essa eliminação não é do Ancelotti sozinho, e não é do Neymar sozinho. É de um país que trata a seleção como marca, como catálogo de figurinhas, como evento de patrocinador — e depois se espanta quando ela joga como um time sem alma.

A CBF renovou o contrato de Ancelotti até 2030 antes mesmo da Copa começar. Leia de novo. Blindou o técnico antes de ele provar coisa alguma no torneio que importava. E agora, depois da queda mais precoce do Brasil em Copa desde 1990 — 36 anos sem cair tão cedo —, o italiano aparece dizendo que "uma derrota é o começo de uma nova aventura" e que isso é "o início de um novo ciclo". Novo ciclo. A palavra que todo dirigente usa quando quer dizer "não vai mudar nada".

O contra-argumento existe. E não me convence

Sei o que os defensores vão dizer. Que o Brasil pegou uma Noruega num dia inspirado. Que o pênalti perdido no começo mudou o roteiro. Que Haaland é força da natureza e não tem o que fazer. Tudo isso é verdade — em parte.

Mas a Copa do Mundo não premia quem tinha o melhor elenco no papel. Premia quem joga melhor em sete jogos. E o Brasil, nesta Copa, não jogou melhor do que ninguém em nenhum momento. Sofreu contra todos, brilhou contra nenhum, e caiu no primeiro adversário europeu que teve coragem de encarar de igual para igual. É o sexto mata-mata seguido em que a Europa nos elimina. Sexto. Isso não é azar. Isso é padrão. E padrão a gente não quebra com discurso de "novo ciclo" — quebra com autocrítica de verdade, coisa que essa CBF nunca teve.

O Brasil voltou para casa. A Noruega segue viva, agora contra a Inglaterra nas quartas. E nós ficamos aqui, de novo, contando os anos até 2030 e fingindo que dessa vez vai ser diferente.

Vai ser? Com as mesmas pessoas decidindo tudo, eu duvido. Mas eu volto na próxima segunda para continuar duvidando em voz alta.


Neide Ferreira escreve toda segunda-feira no Beira do Campo. Ela não tem paciência para discurso pós-jogo.

Fonte: ESPN Brasil, CNN Brasil, Al Jazeera, Olympics.com | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
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Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.