Ingressos da Copa 2026: a mais cara da história expulsou o torcedor
A FIFA transformou a Copa do Mundo 2026 na mais cara de todos os tempos: ingressos de até US$ 6.370, preço dinâmico e receita recorde. Neide Ferreira não engole o discurso de Infantino e explica quem realmente foi deixado de fora da festa.


Quarta-feira a bola rola. Quinta o Brasil estreia. E eu deveria começar esta coluna falando de futebol — mas não dá, porque antes de qualquer chute eu preciso te contar quanto custa, hoje, sentar numa cadeira para ver esse futebol. Os ingressos da Copa 2026 transformaram o torneio na competição mais cara da história, e eu não estou falando de luxo. Estou falando de exclusão.
Deixa eu ser direta: a festa que vai começar nos Estados Unidos, no México e no Canadá não foi feita para o torcedor comum. Foi feita para quem tem cartão de crédito sem limite. E a FIFA, que adora se vender como guardiã do "esporte do povo", sabe disso melhor do que ninguém.
Os ingressos da Copa 2026 em números
Vamos aos fatos, porque eu não trabalho com achismo. O ingresso mais barato da Copa saiu por US$ 100 — uns R$ 540 na cotação de hoje. Parece muito? Segura aí. O teto da tabela oficial chegou a US$ 6.370, algo como R$ 34,5 mil por uma cadeira. E na fase de venda de última hora, ingressos para a final foram parar em US$ 10.990. Por um lugar. Para assistir a um jogo.
A conta da FIFA fecha lindamente: a entidade projeta receita de US$ 10,9 bilhões com esta Copa, contra US$ 7 bilhões no Catar em 2022. É um salto de 56% em quatro anos. Ninguém fica 56% mais rico assim sem que alguém pague a diferença. E quem paga, spoiler, é você.
Isso conversa direto com aquilo que já escrevi sobre a ganância da FIFA por trás do formato de 48 seleções. Mais jogos, mais sedes, mais cidades, mais ingressos para vender. O sonho de levar o futebol ao mundo todo virou planilha de Excel.
O preço dinâmico é o golpe mais elegante do futebol
A grande novidade desta edição não é o estádio nem o gramado. É o preço dinâmico — o mesmo truque que companhia aérea usa quando você pesquisa uma passagem três vezes e ela "misteriosamente" sobe. A FIFA aplicou isso na Copa do Mundo.
Funciona assim: o ingresso não tem preço fixo. Ele sobe conforme a demanda, em ondas, a cada fase de venda. Em alguns casos, o reajuste passou de 150% sobre o valor anunciado lá no comecinho. Tem caso documentado de jogo da fase de grupos — Espanha contra Uruguai — cujo ingresso saiu a US$ 120 em setembro e estava custando US$ 315 em abril. O torcedor que esperou para juntar dinheiro foi punido por esperar.
E não para no portão do estádio. O trem que leva ao MetLife Stadium, em Nova Jersey, custa US$ 12,90 num dia normal. Em dia de jogo, US$ 98. Até o transporte entrou no esquema. É a Copa que cobra pedágio até para você chegar perto dela.
Não fui só eu que enxerguei o tamanho da sacanagem. A Football Supporters Europe, que representa torcedores do continente, pediu oficialmente que a FIFA suspendesse a venda, chamando os valores de "extorsivos". Nos Estados Unidos, os procuradores-gerais de Nova York e de Nova Jersey abriram investigação, e uma deputada quer Gianni Infantino explicando tudo no Congresso. Quando o futebol vira caso de procurador-geral, alguma coisa apodreceu.
"Preço de mercado", diz Infantino — e aí mora o cinismo
A resposta da FIFA veio pela boca do próprio Infantino: é "preço de mercado", porque nos Estados Unidos a revenda de ingressos é permitida. Traduzindo do economês para o português que a gente fala na arquibancada: "se o rico paga, por que cobrar barato?".
Eu até entendo o argumento. O problema é a hipocrisia que vem junto. É a mesma FIFA que empurra jogadores para o calor extremo do meio-dia americano para agradar à TV europeia. É a mesma entidade que enche a boca para falar de "legado" e "acesso". Acesso para quem, Gianni? Para o pai que queria levar o filho ao primeiro jogo de Copa e descobriu que a entrada custa o salário de dois meses?
Existe um contra-argumento honesto, e eu faço questão de colocá-lo: estádio é finito, demanda é gigante, e o preço sempre vai filtrar alguém. Verdade. Mercado é mercado. Mas há uma diferença entre cobrar caro e cobrar de forma que ninguém saiba quanto vai pagar até a hora de clicar em "comprar". Preço dinâmico não é mercado — é roleta. E a banca, como sempre, é a FIFA.
Sobra a TV, sobra o bar, sobra a paixão
Sabe o que mais me incomoda? Que no fim a Copa vai ser linda. Os gols vão sair, o Brasil vai jogar, e a gente vai vibrar de qualquer jeito — do sofá, do bar da esquina, do streaming que a gente já mapeou para você. A paixão não tem preço dinâmico. Essa a FIFA não conseguiu tarifar. Ainda.
Mas que fique registrado: enquanto a bola rola lá nos Estados Unidos, o estádio estará cheio de turista corporativo e vazio de torcedor de arquibancada. A Copa do povo virou a Copa de quem pode. E o povo, esse, vai continuar fazendo o que sempre fez de melhor — amar esse esporte de graça, mesmo quando ele insiste em cobrar caro pelo amor.
Eu vou assistir. Do meu sofá. Como milhões de brasileiros que pagaram essa conta sem nunca pisar no estádio.
Neide Ferreira escreve toda segunda-feira no Beira do Campo. Ela não tem paciência para discurso de cartola.
Fonte: Metrópoles, Seu Dinheiro, Economic News Brasil, Football Supporters Europe | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.

