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Opinião

Calor na Copa do Mundo 2026: o risco que a FIFA finge não ver

A Copa de 2026 pode ter um quarto dos jogos acima do limite de segurança de calor — e cinco partidas em condição perigosa. Neide dispara contra os horários ditados pela TV europeia e cobra da FIFA uma regra clara para adiar jogo antes que alguém caia no gramado.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Calor na Copa do Mundo 2026: o risco que a FIFA finge não ver
Ilustração — sob sol forte de verão, o calor pode ser o adversário mais perigoso da Copa do Mundo 2026

Faltando poucos dias para a bola rolar, eu já sei qual vai ser o adversário mais perigoso da Copa do Mundo 2026 — e não é a França, nem a Argentina. É o termômetro. O calor nos Estados Unidos não é detalhe de bastidor que alguém inventou para encher página: é uma ameaça medida por cientistas, que a FIFA conhece há meses e escolheu tratar com três minutinhos de pausa e um paninho gelado na nuca. Enquanto isso, os horários dos jogos continuam onde sempre estiveram — no ponto que rende mais na TV europeia, não no ponto que protege quem está em campo.

Calor na Copa do Mundo 2026: os números que a abertura não vai mostrar

Quem acha que estou dramatizando precisa encarar a planilha, e dessa vez a planilha não é da receita. O grupo de pesquisa World Weather Attribution cruzou o histórico climático das sedes com o calendário e chegou a um número que devia constranger a FIFA: cerca de 26 das 104 partidas — um quarto do torneio — devem acontecer acima do limite de segurança recomendado pela FIFPRO, o sindicato mundial dos jogadores. Dessas, aproximadamente cinco entram na faixa em que o próprio protocolo manda considerar o adiamento. O risco é quase o dobro do registrado na Copa de 1994, no mesmo país.

O índice que importa aqui se chama WBGT, uma medida que junta temperatura, umidade, vento e sol. A FIFPRO acende a luz amarela em 26°C e a vermelha em 28°C — o equivalente a uns 38°C de termômetro seco ou 30°C com umidade alta, aquele caldo que gruda na pele. Pois um estudo das sedes mostrou que 14 das 16 cidades devem furar os 28°C num verão típico. A final, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, está marcada para as 15h locais: há cerca de 30% de chance de ela cruzar a linha de perigo num verão comum — e 55% se o verão vier mais quente. Decidir o maior título do futebol assim é jogar par ou ímpar com a saúde de 22 jogadores.

Não é frescura de quem vê o jogo do sofá

Antes que apareça o torcedor durão dizendo que "no meu tempo se jogava no sol do meio-dia e ninguém reclamava", deixa eu lembrar de uma coisa que aconteceu ano passado, no mesmo país. A Copa do Mundo de Clubes de 2025 foi o ensaio geral, e o resultado assustou. O técnico do Borussia Dortmund disse que viu os jogadores "suando como se tivessem saído de uma sauna". Enzo Fernández, do Chelsea, classificou as condições como "muito perigosas". E dez jogadores da Juventus pediram substituição numa única partida contra o Real Madrid, em Miami, com 30°C e 70% de umidade. Dez.

A conta do calor não chega em forma de cãibra bonita para a câmera. Ela chega em menos sprints, menos distância percorrida, mais erro, mais lesão e, no fim, em jogo decidido por quem aguentou — não por quem jogou melhor. Já escrevi aqui que essa é a Copa mais inchada e mais cara da história; seria de um cinismo difícil de engolir que, com tanto dinheiro em caixa, a saúde de quem faz o espetáculo continuasse sendo a última linha do orçamento.

A FIFA fez a lição? Fez metade dela

Sou justa: a FIFA não cruzou os braços. Há pausas de três minutos para hidratação em cada tempo, estrutura de resfriamento para jogadores e torcedores, ajuste dos ciclos de treino e descanso, reforço da preparação médica e, sim, o deslocamento de alguns jogos nas cidades mais quentes para fora do horário mais cruel. Para quem nunca tinha adiado nada, é um avanço. Mas avanço pela metade, em pleno 2026, não merece salva de palmas.

Um grupo de cientistas mandou carta aberta pedindo o óbvio: dobrar as pausas de resfriamento para seis minutos, baixar o limite de intervenção — que hoje está num WBGT de 32°C, alto demais para fazer sentido — e, principalmente, escrever uma regra clara para adiar ou remarcar partida em condição perigosa. Porque a verdade incômoda é esta: a FIFA nunca adiou um jogo por calor extremo. E não adianta a entidade exibir os estádios cobertos de Dallas e Houston como troféu. O ar refrigerado protege os 22 dentro das quatro linhas; as dezenas de milhares de torcedores que enfrentam fila, deslocamento e comemoração do lado de fora seguem expostos ao mesmo sol.

Mudar uns jogos para a noite ajuda, mas não resolve — até porque alguns dos confrontos de maior risco, em Miami e Kansas City, foram empurrados para as 17h ou 18h e ainda assim têm mais de 30% de chance de estourar o limite. O torcedor que quer organizar a maratona de jogos já viu no guia de onde assistir à Copa que vai ter futebol em horário de almoço americano. O que pouca gente comentou é o preço físico desse cardápio.

Eu não quero uma Copa cancelada, nem estou torcendo pelo caos. Quero uma Copa em que a regra de parar um jogo exista no papel antes de alguém desmaiar no gramado, e não depois. A FIFA encheu o caixa com 48 seleções e 104 partidas. Que use uma fração ínfima disso para garantir que o título de 2026 seja decidido por futebol — e não por quem desidratou menos. O resto é deixar a saúde de quem joga, e a festa de quem paga o ingresso, na mão da sorte e do horário nobre europeu. Seis dias para a estreia, e o adversário que ninguém escala já está aquecido.

Perguntas frequentes

A Copa do Mundo 2026 pode ter jogos adiados por causa do calor?
A FIFPRO recomenda adiar partidas quando o índice WBGT passa de 28°C, e um estudo aponta cerca de cinco jogos em condição de risco. Mas a FIFA nunca adiou uma partida por calor extremo e não tem regra fechada para isso.
Quais cidades-sede da Copa 2026 são as mais quentes?
Dallas, Houston, Miami, Kansas City e Filadélfia são as mais críticas. Estudo aponta que 14 das 16 sedes devem ultrapassar o limite de 28°C de WBGT em um verão típico.
O que a FIFA fez para reduzir o risco de calor na Copa?
Pausas de três minutos para hidratação em cada tempo, estrutura de resfriamento nos estádios, ajuste dos horários nas cidades mais quentes e reforço médico em campo.

Fonte: World Weather Attribution, CNN Brasil, The Conversation, FIFPRO | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.