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Beirado Campo
Opinião

Memphis ganhando menos no Corinthians não é história de amor

O Corinthians vende a permanência de Memphis como prova de amor à camisa. Mas um craque holandês topando ganhar menos, com prazo até 31 de julho e três transfer bans no caminho, conta uma história bem menos romântica sobre o tamanho do buraco no Parque São Jorge.

Neide FerreiraNeide Ferreira4 min de leitura
Memphis ganhando menos no Corinthians não é história de amor
Memphis Depay — Foto: Reprodução / Wikipedia

Memphis Depay aceitou ganhar menos para continuar no Corinthians, e a torcida já transformou isso em declaração de amor. Perdão pela desmancha-prazeres, mas não é. Um holandês que jogou Barcelona, Atlético de Madri e Manchester United topar cortar o próprio salário para não sair de um clube de graça no fim do mês diz muito mais sobre o tamanho do problema do Corinthians do que sobre a paixão do camisa 10 pela Fiel.

A novela estava travada há meses e destravou depois que o holandês topou a redução salarial, na marra, porque o calendário não perdoa: o contrato de Memphis vence em 31 de julho e, sem assinatura nova, ele vira jogador livre. Foi o jogador, e não o clube, quem cedeu. E quando é o craque que abre mão de dinheiro para ficar, alguma coisa no enredo está fora do lugar.

O que o gesto de Memphis realmente esconde

Vamos aos números, que são chatos mas não mentem. O Corinthians não reduziu o salário de Memphis porque ele implorou para ficar. Reduziu porque não tem como pagar o que pagava. O clube convive com os transfer bans que travam qualquer registro — são três punições ativas da FIFA — e vive a ironia cruel de que, se não formalizar a renovação até o prazo apertado de 31 de julho, nem com contrato novo Memphis poderá ser inscrito.

Some a isso o detalhe que ninguém quer encarar de frente: parte do pacote para viabilizar a permanência não sai do caixa do futebol, e sim de patrocínio. O Corinthians conversa com duas empresas para bancar o novo vínculo, uma delas uma casa de apostas. Traduzindo: o maior astro do elenco só continua se uma marca de aposta topar pagar a conta. Isso não é projeto esportivo, é pires na mão com escudo bordado.

E o técnico? Fernando Diniz já avisou, com todas as letras, que o grande reforço da janela seria manter o elenco de pé. Bonito de ouvir, honesto até. Mas é o tipo de frase que só se diz quando não há dinheiro para reforço nenhum — a mesma toada de um mercado em que os grandes do país ficaram parados enquanto os pequenos se mexiam.

O outro lado — e ele existe

Justiça seja feita: Memphis podia ter feito diferente. Podia ter deixado o relógio correr, saído livre em 1º de agosto e escolhido a dedo o próximo endereço, com luvas gordas e salário cheio em algum lugar da Europa ou do Golfo. Não fez. Sentou, negociou, aceitou receber menos. Num futebol em que a palavra "profissional" virou sinônimo de "vou embora na primeira proposta melhor", um cara de currículo europeu topar apertar o cinto para honrar um ciclo não é pouca coisa.

Também é verdade que Memphis não é mais o moleque de 25 anos cobiçado pela Champions. É um atacante de 32, com histórico de lesões que já rendeu debate por aqui sobre se valia mesmo a pena insistir nele. O mercado que "não bate à porta" talvez não bata por causa da idade e do físico, não por falta de talento. Ou seja: o gesto tem mérito, mas também tem conveniência. As duas coisas cabem na mesma frase.

O aplauso vai para o lado errado

O que me incomoda não é Memphis ficar. É a narrativa. O Corinthians está prestes a comemorar como conquista aquilo que, num clube saudável, seria rotina: renovar com seu melhor jogador antes do contrato virar pó. Transformar sobrevivência em vitória é o esporte predileto de quem administrou mal os últimos anos — e é assim que se acostuma torcedor a bater palma para o mínimo.

Memphis aceitando ganhar menos deveria acender um alerta, não soltar fogos. Significa que o clube chegou ao ponto de depender da boa vontade de um estrangeiro e do dinheiro de uma casa de aposta para segurar o único nome que enche os olhos. Se a renovação sair nos próximos dias, ótimo, o time não fica pelado. Mas ninguém me convence de que isso é final feliz. É remendo bem costurado, e remendo, por mais bonito que fique, é sinal de que a roupa já estava rasgada.

Aplaudam Memphis, se quiserem — ele merece pela postura. Só não confundam o gesto de um jogador com um projeto de clube. O Corinthians precisa de muito mais do que craque de bom coração para sair do buraco. Precisa parar de achar que cada crise contornada no susto é motivo de festa.

Fonte: Placar, O Povo / Jogada10, Olé · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.