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Copa do Mundo de 48 seleções: ganância da FIFA ou sonho?

A Copa de 2026 será a maior e mais rica da história: 48 seleções, 104 jogos e US$ 11 bilhões de receita. Neide dispara contra a ganância da FIFA — mas explica por que defende a expansão mesmo assim, e por que Cabo Verde vale mais do que qualquer planilha.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Copa do Mundo de 48 seleções: ganância da FIFA ou sonho?
Ilustração — a Copa de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México será a primeira com 48 seleções e 104 jogos

Vou dizer agora, antes que a festa comece e ninguém mais tenha estômago para a verdade: a primeira Copa do Mundo de 48 seleções não nasceu de um surto de bondade da FIFA com o futebol. Nasceu de uma planilha. São 104 jogos, US$ 11 bilhões de receita projetada e os ingressos mais caros já vendidos a um torcedor. E mesmo assim — segura essa, porque nem eu esperava me ouvir dizendo isso — eu defendo essa Copa inchada. Não pela FIFA. Por Cabo Verde.

Copa de 48 seleções: a planilha que não aparece na abertura

Quem acha que o futebol cresceu por amor precisa olhar os números frios. A Copa pulou de 32 para 48 seleções e, de quebra, de 64 para 104 partidas. Mais jogo é mais ingresso, mais cota de TV, mais patrocínio. A própria entidade já comemorou: a receita do ciclo bateu US$ 11 bilhões, 56% a mais que no Catar, com os direitos de transmissão sozinhos passando de US$ 4 bilhões.

A premiação subiu junto, claro — US$ 727 milhões no total, US$ 50 milhões só para o campeão —, e isso é ótimo para as federações. Mas adivinha quem paga a conta no fim da fila? O torcedor. A receita de ingressos e hospitalidade pode saltar mais de 200% em relação a 2022, no que já está sendo chamada de Copa mais cara da história. Ninguém adiciona 16 seleções por romantismo. Adiciona por 16 mercados novos. A FIFA não inflou o torneio. Inflou o caixa.

O sonho que justifica a bagunça

Agora vem a parte em que eu engulo o meu próprio sarcasmo. Porque essa expansão gananciosa também produziu a coisa mais bonita que o futebol pode oferecer: gente que nunca tinha chegado lá, chegando.

São cinco estreantes nesta Copa — Cabo Verde, Curaçao, Jordânia, República Democrática do Congo e Uzbequistão. Cabo Verde, um arquipélago de pouco mais de quatro mil quilômetros quadrados, vai ser o menor país a disputar um Mundial. Curaçao, uma ilha caribenha com população de cidade do interior, fez campanha invicta e vai estrear contra a Alemanha. O Uzbequistão, que só existe como país independente desde 1991, parou para chorar quando garantiu a vaga.

Nenhuma planilha de Zurique consegue fabricar essa cena. Esse é o pedaço da expansão que eu não consigo — e nem quero — atacar. Com 32 vagas, esses países seguiriam assistindo à Copa pela TV, como sempre fizeram. Com 48, eles estão lá. Se a ganância da FIFA abriu a porta para o sonho deles, que pelo menos isso fique de pé.

O preço escondido: uma fase de grupos sem nervo

Dito o elogio, volto a ser chata, que é a minha função. A conta da expansão tem um custo que ninguém quer pagar: a primeira fase virou enrolação. Das 48 seleções, 32 avançam — as duas melhores de cada grupo mais os oito melhores terceiros. Faça a matemática comigo: dois terços do torneio passam de fase. Só 16 vão embora depois de três jogos.

No formato antigo, com 16 dos 32 classificados, cada rodada de grupo era uma final. Errou, foi para casa. Agora um time pode tropeçar, jogar mal, ficar em terceiro e ainda assim seguir vivo. A tensão que fazia a primeira fase ser inesquecível foi diluída num caldo morno. A Copa de verdade, a de mata-mata, só vai começar lá pela terceira semana de um torneio que se arrasta por 39 dias, de 11 de junho a 19 de julho.

E aqui mora um aviso para o nosso lado. O Brasil caiu num Grupo C de aparência camarada, com Marrocos, Haiti e Escócia. Num formato em que até terceiro lugar salva, a tentação de jogar de salto alto é enorme — e eu já avisei, quando escrevi que ser o quinto favorito pode até ser bom para a Seleção, que esse time não pode confundir leveza com relaxamento. Grupo fácil em Copa inchada é a melhor armadilha já inventada para um time grande dormir no ponto.

Vou assistir a tudo — e ainda vou reclamar

Então fica registrada a minha posição, sem o meio-termo covarde que os comentaristas de plantão adoram. A Copa do Mundo de 48 seleções ficou maior, ficou mais rica e ficou mais longa. Melhor, só nas beiradas — naquele instante em que Cabo Verde entrar em campo e um país inteiro parar de respirar.

Não vou fingir que a FIFA fez isso por amor à bola, porque não fez. Fez pelos bilhões, como sempre faz, da mesma forma calculista com que empilha amistosos e datas até esvaziar o calendário dos clubes. Mas também não vou ser a velha rabugenta que cospe no prato dos pequenos só para provar que entende de futebol mais que os outros.

Vou assistir aos 104 jogos. Vou xingar a fase de grupos morna, vou me irritar com o preço do ingresso e vou, sim, me emocionar com os estreantes. Dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. A Copa cresceu pelo motivo errado e, contra todas as probabilidades, ainda guardou espaço para o motivo certo. O futebol que se vire para sobreviver à própria fortuna — ele sempre se vira.

Perguntas frequentes

Quantas seleções jogam a Copa do Mundo 2026?
São 48 seleções divididas em 12 grupos de quatro. É a primeira Copa com esse formato, ante as 32 equipes das edições anteriores.
Quantos jogos tem a Copa do Mundo de 2026?
São 104 partidas, contra 64 das Copas anteriores. O torneio vai de 11 de junho a 19 de julho de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México.
Quantas seleções se classificam para o mata-mata?
Trinta e duas: as duas melhores de cada um dos 12 grupos mais os oito melhores terceiros colocados avançam para a fase eliminatória.
Quais são as seleções estreantes na Copa de 2026?
Cinco: Cabo Verde, Curaçao, Jordânia, República Democrática do Congo e Uzbequistão fazem sua primeira aparição em Copas do Mundo.

Fonte: FIFA, Olympics.com, CNN Brasil, Lance, Metrópoles | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.