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Opinião

Pausa para hidratação na Copa 2026: saúde ou negócio?

Duas paradas de três minutos em todos os 104 jogos, mesmo a 23°C e com ar-condicionado ligado. A FIFA diz que é pela saúde dos jogadores. Neide olha para os US$ 8 milhões de publicidade por intervalo e pergunta: desde quando bondade rende tanto?

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Pausa para hidratação na Copa 2026: saúde ou negócio?
Espanha e Cabo Verde no empate sem gols da Copa 2026, jogo de pausas para hidratação e vaias da torcida — Foto: AFP / Gazeta Esportiva

A FIFA inventou uma regra nova para a Copa do Mundo de 2026 e vendeu como remédio. Toda partida, sem exceção, tem agora duas pausas para hidratação de três minutos — uma em cada tempo, por volta dos 22 minutos, acionadas pelo árbitro. O nome é bonito. A justificativa é nobre: proteger o jogador do calor. Só que tem um detalhe que estraga a bula. A regra vale até quando não faz calor nenhum.

Na abertura, no Azteca, o termômetro da Cidade do México marcava agradáveis 23°C. Pausa assim mesmo. Em Seattle, estádio de teto fechado e clima de primavera: pausa. No empate sem gols entre Espanha e Cabo Verde, em arena climatizada e com ar-condicionado ligado, teve pausa — e a torcida vaiou. Se a medida fosse mesmo sobre a temperatura, ela seguiria o termômetro. Mas ela segue outra coisa.

Pausa para hidratação ou pausa para o comercial?

Vamos à conta que ninguém na FIFA quer fazer em voz alta. São 104 jogos. Duas pausas por jogo. Dá 208 paradas ao longo do torneio. E cada uma dessas janelas de três minutos, segundo o que circula no mercado publicitário, pode valer entre US$ 7 milhões e US$ 9 milhões para os detentores dos direitos de transmissão.

Multiplique. Pegue a calculadora, respire e multiplique de novo, porque o número assusta. O jornalista inglês Henry Winter resumiu sem dó: este é "o ano em que o jogo de dois tempos virou um jogo de quatro tempos". E não foi pela ciência. Foi, nas palavras dele, "por causa de um punhado de dólares".

Eu não tenho problema nenhum com a FIFA ganhar dinheiro. Ela existe para isso, todo mundo sabe, e a Copa é a galinha dos ovos de ouro do esporte mundial. O que me irrita é o disfarce. Não chame de saúde aquilo que é grade de patrocínio. Tenha a coragem de dizer "criamos mais um intervalo comercial" em vez de me empurrar uma toalha gelada como se fosse caridade.

Os jogadores não são bobos

A parte mais reveladora é que nem dentro do campo a história colou. Mauricio Pochettino, técnico dos próprios Estados Unidos, país-sede, foi direto: "Não gosto disso. Só acho válido quando as condições são extremas. Quando as condições são boas, é desnecessário." Quando o dono da casa reclama da mobília, é porque a mobília está torta.

Virgil van Dijk, capitão da Holanda, classificou as paradas como "um pouco curiosas", disse que "não é algo de que eu goste" e ainda lembrou de quem paga a conta lá de casa: "não é agradável para quem assiste pela televisão". O torcedor que se acomodou no sofá para ver futebol corrido leva, no lugar, um jogo picotado em quatro pedaços. Já houve vaia em Monterrey, no Suécia x Tunísia, e na própria partida da Espanha. O recado do estádio foi mais sincero que o comunicado oficial.

O contra-argumento honesto

Agora eu preciso ser justa — mesmo que estrague meu próprio discurso.

O calor da Copa de 2026 é real e é perigoso. Eu mesma já gritei sobre o risco que a FIFA finge não ver: jogos ao meio-dia em fornos de quase 40°C, horários ditados pela televisão europeia, índice de calor acima do limite que a própria FIFPRO considera seguro. No Mundial de Clubes do ano passado, Enzo Fernández passou mal em campo e Luis Enrique espumou de raiva com uma partida ao meio-dia em Los Angeles. Dezenas de jogadores assinaram uma carta pedindo proteção. Isso não é frescura.

Então deixa eu ser clara: em Dallas, em Kansas City, em Miami, numa tarde escaldante e num estádio aberto, a pausa para hidratação não é luxo — é remédio. Pode ser a diferença entre terminar a partida e sair de ambulância. Nesses jogos, eu defendo a parada de olhos fechados, e quem for contra que vá explicar à família de um atleta o que é uma intermação.

O problema é o atacado, não o varejo

O escândalo, portanto, não é a pausa em si. É a pausa igual para todos. É a FIFA pegar uma medida que faz todo sentido em Houston ao meio-dia e enfiá-la goela abaixo num jogo noturno de 18°C, só para não abrir mão da janela comercial. Quando você aplica o mesmo remédio para o doente e para o saudável, não é medicina — é venda casada.

E tem uma ironia que me tira do sério. Foi a própria FIFA que criou o calor ao espalhar jogos no pico do sol americano para agradar o horário nobre da Europa — a mesma lógica que já tinha transformado a estreia da Copa num festival de empates travados. Primeiro ela fabrica o problema. Depois te vende a solução com publicidade no meio. Dois golpes embrulhados no mesmo pacote, com um lacinho escrito "bem-estar do jogador".

Minha posição é simples e cabe numa linha: pausa onde o termômetro mandar — estádio aberto, sol a pino, índice de calor no vermelho. E nada de pausa onde ela é teatro — teto fechado, 23°C, jogo à noite. O dia em que a FIFA aceitar essa diferença, eu aplaudo de pé. Enquanto ela continuar chamando uma janela de US$ 8 milhões de gesto de bondade, eu continuo aqui, de braços cruzados, achando muito esquisito.

Bom jogo a todos. E bebam água — de preferência, sem comercial no meio.

Perguntas frequentes

Como funciona a pausa para hidratação na Copa 2026?
São duas paradas de três minutos por jogo, uma em cada tempo, acionadas pelo árbitro por volta dos 22 minutos. A regra é obrigatória em todas as 104 partidas, independentemente da temperatura.
Por que a pausa para hidratação virou polêmica?
Porque ela vale até em jogos de clima ameno e estádios fechados com ar-condicionado, e cada intervalo é usado para publicidade avaliada entre US$ 7 milhões e US$ 9 milhões.
Quais técnicos criticaram a pausa para hidratação?
Mauricio Pochettino, dos Estados Unidos, disse só achar a medida válida em condições extremas. Virgil van Dijk classificou as paradas como curiosas e desagradáveis para quem assiste pela TV.

Fonte: Gazeta Esportiva, Lance!, CNN Brasil, ESPN | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.