Vitória denuncia, CBF arquiva: a roleta da arbitragem 2026
O Vitória entregou a segunda representação consecutiva contra a arbitragem, dessa vez por causa da derrota para o Athletico-PR. A CBF vai engavetar, o VAR vai continuar fingindo, e o filme repete na próxima rodada.


A coluna desta quinta tem um ingrediente que não falta no nosso futebol: a CBF tratada como confessionário, em que clube médio chega de joelho, recita pecado dos outros, e sai com a mesma penitência de sempre — silêncio. O Vitória acaba de protocolar a segunda representação seguida contra a arbitragem do Brasileirão 2026, dessa vez por causa do 3x1 sofrido para o Athletico-PR, no domingo, na Arena da Baixada. E eu vou dizer, com a delicadeza de sempre: o problema não é o jogo. O problema é a roleta.
Quem viu o jogo, viu. Quem não viu, leia o documento — está tudo lá, com hora, minuto e personagem. Aos 7 do primeiro tempo, Luiz Gustavo, do Athletico, acertou um chute em Zé Vitor caído. Cartão amarelo. Aos 30, pênalti marcado para o Furacão num lance em que Cacá nem encosta no atacante. No segundo tempo, o mesmo Luiz Gustavo simulou e segurou a bola com a mão — sem segundo amarelo. E aos 22, Arthur Dias entrou em "carrinho-tesoura" em Renê, fez o lateral sair de maca, e seguiu com o uniforme limpo. Quatro lances, um árbitro principal — Bruno Arleu de Araújo — e um VAR que, segundo o Vitória, não recomendou a revisão de campo em nenhum deles.
A primeira polêmica não foi essa
Não é o primeiro processo da casa. O Vitória já havia entregado outra representação na CBF poucas rodadas antes, igualmente formalizada, igualmente engolida. Quando um clube faz o trabalho sujo de catalogar os lances, anexar o link do áudio do VAR e pedir transparência ao órgão que organiza o campeonato, ou ele está paranoico, ou está cansado. O Leão da Barra, hoje 13º colocado com 15 pontos em 12 jogos, já foi vítima daquela conta clássica do brasileiro: dois pontos perdidos por aqui, três por ali, e quando a tabela vira do avesso, é a diretoria que cai.
Antes que o leitor torcedor de time grande revire os olhos: não é só o Vitória. Em março, o Palmeiras de Abel Ferreira virou notícia por uma briga com a súmula que eu já comentei aqui — e o STJD respondeu com 8 jogos de suspensão pro técnico, comentei depois também. A diferença é que, quando o clube poderoso reclama, vira manchete; quando o clube médio reclama, vira nota de rodapé num site bairrista. Mas a essência da queixa é a mesma: o brasileiro suporta erro humano, suporta até mau futebol — o que ele não suporta é a sensação de que a regra é elástica conforme o nome no peito.
O VAR pra quê?
Eu admito: fui daquelas que torceu a favor da chegada do VAR. Tinha esperança que a tecnologia, aquela coisa fria e antipática, pelo menos diminuísse a lambança. Sete anos depois, a gente está num cenário em que clube formaliza pedido para que a CBF "divulgue integralmente os áudios de comunicação" entre árbitro e cabine. Quer dizer: se o áudio fosse divulgado de ofício, em todas as rodadas, ninguém precisaria pedir. Se a revisão de campo fosse acionada nos lances de força excessiva, ninguém precisaria denunciar. O VAR foi vendido como vacina. Está virando placebo.
A reação previsível dos defensores do sistema é a mesma de sempre: "se for pra revisar tudo, o jogo não anda". OK. Mas a regra é clara: VAR existe para quatro situações — gol, pênalti, expulsão direta e identidade de jogador. As reclamações do Vitória batem em três das quatro hipóteses. A não revisão não é zelo pelo ritmo do jogo; é decisão (ou indecisão) técnica que a CBF se recusa a explicar. E todo silêncio institucional, no nosso futebol, custa caro a quem está em 13º.
A lista cresce
A irritação não é regional. Esta semana, no Brasileirão Série A 2026 já passou da metade da primeira fase, e o número de clubes que já levaram suas queixas formais às comissões da CBF — Bahia, Santos, Cruzeiro, agora Vitória pela segunda vez — daria uma rodada inteira. Cada nota oficial é redigida com aquele tom monocórdico de "respeitamos a entidade, mas". É o "mas" que importa. É o "mas" que junta presidentes inimigos numa mesma frase: a confiança no produto está corroída.
O contra-argumento honesto: nenhum árbitro acorda querendo prejudicar ninguém, e o futebol vive de erros narrados depois. Eu compro essa parte. O que eu não compro é o tratamento da CBF, que recebe representação como quem recebe carta sem destinatário. Investiga? Pune? Suspende? Treina? Demite? Nada. Anota, arquiva, escala o mesmo árbitro duas rodadas depois para outro jogo de quatro pontos. É essa repetição, esse loop sem consequência, que vira o gatilho do desabafo coletivo de torcedor médio na rede social — e da suspeita estrutural que mancha o produto.
O preço da indiferença
A representação do Vitória vai para a mesma gaveta de sempre. O torcedor do Athletico-PR vai dizer, com razão, que o Furacão fez 22 pontos em 13 rodadas porque venceu jogos no campo — e eu não sou de tirar mérito de quem ganha como o Athletico de Renê Faustin tem feito. O ponto não é esse. O ponto é que o Brasileirão 2026 está chegando a um estágio em que a credibilidade do campeonato passa a depender, nas próximas rodadas, menos do gol bonito e mais da clareza institucional sobre como punir mau trabalho de arbitragem.
Eu quero ver, semana que vem, a CBF responder o Vitória — e não com nota protocolar de duas linhas. Quero ver os áudios divulgados. Quero ver o Bruno Arleu de Araújo fora da escala da próxima rodada se houver erro reconhecido. E quero ver a comissão de arbitragem assumindo, pela primeira vez em muito tempo, que o problema não é só o lance. O problema é o sistema que produz o lance e finge surpresa quando ele aparece.
Se isso não acontecer, vai acontecer o que sempre acontece: a próxima representação. A roleta segue. E essa coluna, infelizmente, terá assunto outra vez na quinta que vem.
Perguntas frequentes
- O que o Vitória denunciou na CBF?
- O clube formalizou em 27 de abril uma representação contra a arbitragem do 3x1 sofrido para o Athletico-PR, citando quatro lances específicos do árbitro Bruno Arleu de Araújo e da equipe de VAR coordenada por Rodrigo Nunes de Sá.
- Quais foram os lances polêmicos no jogo Athletico-PR x Vitória?
- Aos 7 do primeiro tempo, chute de Luiz Gustavo em Zé Vitor sem expulsão; aos 30, pênalti marcado em Cacá considerado inexistente pelo clube; no segundo tempo, simulação de Luiz Gustavo sem segundo amarelo e carrinho com tesoura de Arthur Dias em Renê sem cartão vermelho.
- É a primeira vez que o Vitória denuncia a arbitragem?
- Não. Esta foi a segunda representação consecutiva entregue pelo clube na temporada 2026 — sinal de que a diretoria considera o problema sistêmico, não pontual.
Fonte: Bahia Notícias, A Tarde, ESPN, Lance!, NE45 | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


