STJD suspende Abel por 8 jogos: o Palmeiras que não passa do zero
O STJD usou leitura labial, chamou Abel de 'Abel Braga' e negou o efeito suspensivo. O Palmeiras jogou contra 9 e terminou 0x0. Neide não tem dó.


O STJD utilizou leitura labial para reunir evidências contra Abel Ferreira. Errou o nome do treinador no documento oficial — chamou-o de "Abel Braga", técnico de outra geração, sem relação com o Palmeiras. Negou o efeito suspensivo. Manteve a punição de 8 jogos. E o Palmeiras, sem o seu técnico, jogou o Derby contra um Corinthians que terminou com 9 jogadores em campo.
Placar final: 0 a 0.
Onze contra nove, liderança consolidada do Brasileirão, narrativa pronta de time que joga pelo técnico ausente — e zero. Não dá para dizer que o STJD foi competente, mas também não dá para dizer que o Palmeiras correspondeu.
O que o STJD fez (e o que errou, mas pode ter acertado)
A suspensão de Abel Ferreira por 8 jogos veio com base no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva — ofensas a membros da equipe de arbitragem. O método usado foi incomum: um árbitro aplicou leitura labial para registrar o conteúdo dos palavrões proferidos pelo técnico português. Isso é pioneiro. Se é prova legalmente válida no CBJD, o Palmeiras vai precisar discutir nos tribunais — não na imprensa.
O que envergonha o STJD não é a punição, mas a execução. No documento oficial, Abel Ferreira aparece descrito como "Abel Braga". Abel Braga é um nome respeitável no futebol brasileiro, mas não tem nada a ver com o Palmeiras nem com o português que conquistou dois Brasileirões e duas Libertadores pelo clube. Confundir os dois num processo de suspensão de 8 jogos não é deslize administrativo — é incompetência catalogada. O Palmeiras pediu efeito suspensivo. Foi negado. Abel ficou fora do Derby.
Que fique claro: um órgão pode ser inepto e ainda assim ter razão no mérito. As duas coisas existem juntas. O STJD confundiu nomes, usou leitura labial como prova e ainda assim pode estar dentro das regras ao punir um treinador que passou anos exibindo comportamento explosivo na beira do campo — como já documentado em súmula anterior e controversa de 2026. O Palmeiras prefere não discutir esse ponto.
11 contra 9 — e o silêncio do placar
O Derby da 11ª rodada reunia todos os ingredientes para uma vitória confortável do Verdão. O Corinthians chegou ao clássico em crise: sete rodadas sem vencer no Brasileirão, 16ª posição na tabela, ambiente interno degradado. O Palmeiras, líder isolado com mais de vinte pontos, entrou no Neo Química Arena com moral e um a mais desde antes mesmo das expulsões.
No decorrer da partida, o Corinthians foi reduzido a 9 jogadores. André Ramalho foi expulso por gesto obsceno em direção a Andreas Pereira. Matheuzinho levou vermelho via VAR após acertar um soco no rosto de Flaco López — o tipo de lance que, sem câmera, seria apenas boato de vestiário. O tumulto extrapolou o gramado: houve confusão no corredor de acesso ao controle de doping, com seguranças do Corinthians e jogadores do Palmeiras envolvidos numa discussão que o árbitro registrou na súmula sem ter presenciado diretamente.
O Palmeiras reclamou de um pênalti não marcado. Pode ter havido. Mas há uma diferença entre um árbitro que perdeu um lance e um time que jogou contra nove adversários e não transformou a vantagem numérica em gols. Nenhum clube vence um Derby só com protocolo de injustiça.
A narrativa tem limite
O Palmeiras é o melhor time do Brasil em 2026. Isso não está em discussão. Abel Ferreira é, provavelmente, o melhor técnico que pisou no futebol brasileiro na última meia década. O legado que ele construiu no clube — com garra, método e uma identidade que a torcida do Verdão esperou décadas para ver — merece reconhecimento. Ele recebe o meu.
Mas grandes técnicos também respondem pelos próprios atos. Se a leitura labial captou palavrões, foi porque palavrões existiram. O documento do STJD pode chamar Abel de Braga e ainda assim conter uma punição legítima no fundo. O Palmeiras optou por reagir com nota de clube ofendido — "rigor desproporcional", "tratamento desigual" — sem considerar que, talvez, o tratamento desproporcional comece na beira do gramado.
O time que venceu duas Libertadores não precisa de mártir. O STJD confundiu nomes e usou leitura labial. Essas duas coisas são verdadeiras. E o Palmeiras terminou 0x0 contra 9 adversários. Essa também é.
Até segunda que vem.
Neide Ferreira
Fonte: Sportbuzz, ESPN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


