Abel Ferreira, a súmula e o Palmeiras: o vício que o título não cura
A súmula do jogo contra o Fluminense registrou formalmente um 'ataque de fúria' do técnico português. O Palmeiras lidera o Brasileirão com folga — e mesmo assim a arbitragem é sempre culpada.


Existe um documento público, assinado por árbitro, disponível para qualquer pessoa que queira consultar, que descreve Abel Ferreira em "ataque de fúria", com palavrões, numa partida do Brasileirão 2026. Esse documento se chama súmula oficial. E ele não mente, não torce para ninguém e não tem sócio do Palmeiras entre os seus redatores.
A pergunta que me faço nesta terça-feira é simples: se o Palmeiras lidera o Brasileirão com três vitórias e doze gols em quatro rodadas, para que serve o "ataque de fúria"?
A peça jurídica que entrou para a história
A súmula do duelo Palmeiras x Fluminense, pela 4ª rodada do Brasileirão, registrou formalmente a conduta de Abel Ferreira após uma decisão controversa da assistente Fernanda Antunes em marcação de lateral nos minutos finais. Palavrões, gesticulação exaltada, bordão exaltado na beira do gramado.
Até aí, tudo bem — técnicos de futebol se exaltam. O que chama a atenção não é o gesto isolado. É o padrão.
Abel Ferreira chegou ao Brasil em 2020 com um currículo europeu respeitável e partiu para construir um legado verde. Construiu mesmo: dois Brasileirões, duas Libertadores, uma Copa do Brasil. O homem ganhou de tudo num país que raramente deixa técnico estrangeiro prosperar. Merece o devido respeito — e vai receber o meu.
Só que junto com cada troféu veio uma desculpa. Um árbitro que errou. Uma marcação que perseguiu. Uma federação que conspirou. O Palmeiras de Abel é, ao mesmo tempo, o time mais vitorioso e o que mais reclama da arbitragem no futebol brasileiro. Essa é uma combinação curiosa.
O time que mais vence — e mais precisa de álibi
Doze gols em quatro jogos. Três vitórias. Liderança do Brasileirão 2026. Vitor Roque já com três bolas na rede. Estêvão em ascensão. Uma espinha dorsal que qualquer treinador do país sonharia comandar.
Com esse elenco, com esse orçamento — o Palmeiras segue entre os cinco clubes que mais gastam no futebol mundial —, com essa estrutura e com esse histórico de títulos, o que exatamente Abel teme que a arbitragem lhe roube?
Essa é a contradição que a súmula expõe com mais eficiência do que qualquer coluna de opinião. Um treinador que venceu tudo o que havia para vencer no Brasil, mas que ainda reage a um tiro de lateral como se sua existência dependesse da decisão.
O futebol tem um nome para isso: insegurança disfarçada de garra.
"Mas o árbitro errou, Neide"
Eu ouço isso toda vez que critico o Palmeiras ou o Abel. E sim — os árbitros erram. Erram contra o Palmeiras, contra o Flamengo, contra o Vasco, contra o time da sua cidade que disputa a Série D. A arbitragem brasileira tem problemas sérios e estruturais que merecem debate sério e estruturado.
O problema não é reclamar do erro. O problema é transformar cada lance duvidoso num complô nacional, fazer da beira do campo um palco de berros registrados em súmula e depois aparecer na coletiva com ar de perseguido quando o seu time está na ponta da tabela.
Quando o Flamengo perdeu a Recopa Sul-Americana e Filipe Luís foi demitido em seguida, a crise foi escancarada. Quando o São Paulo demite treinadores a cada dois meses, a impaciência é noticiada. O Palmeiras lidera e o técnico tem "ataque de fúria" — e isso é o quê? Competitividade?
Grandeza não precisa de despacho na beira do campo
Os técnicos que ficaram para a história do futebol mundial — Guardiola, Mourinho no auge, Clough, Zagallo — tinham em comum uma coisa: quando venciam, a vitória falava por si. A irritação de Abel quando está ganhando revela algo que os títulos ainda não conseguiram curar: a necessidade de controlar o incontrolável.
Futebol tem lances que a câmera não pega, decisões que o árbitro erra de boa-fé e laterais que ninguém sabe de quem são. Faz parte. O treinador que consegue aceitar isso com estoicismo — enquanto seu time marca doze gols em quatro rodadas — é o treinador que constrói legados tranquilos.
Abel tem o legado. Falta a tranquilidade.
A súmula ficará arquivada. O "ataque de fúria" será esquecido quando o Palmeiras vencer o próximo jogo. Mas o padrão vai continuar, rodada após rodada, até que alguém no Palmeiras tenha a coragem de dizer ao técnico português que a arbitragem não é o problema.
O problema é que vencer muito também pode virar um vício — e o vício do Abel é precisar sempre de uma narrativa de perseguição para se sentir em paz com a própria grandeza.
Fonte: ESPN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


