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Beirado Campo
Opinião

Impedimento semiautomático na Copa não pode ser sorteio

A CBF já colocou o impedimento semiautomático no Brasileirão, mas a Copa do Brasil ainda depende da estrutura de cada fase. Neide Ferreira cobra uma regra simples: tecnologia não pode depender do endereço do jogo.

Neide FerreiraNeide Ferreira6 min de leitura
Impedimento semiautomático na Copa não pode ser sorteio
Câmeras do impedimento semiautomático instaladas na Neo Química Arena — Foto: Reprodução / CBF

O impedimento semiautomático chegou ao Brasileirão como se chega a uma sala de reunião atrasada: todo mundo aplaude porque finalmente apareceu, mas ninguém pergunta por que demorou tanto nem o que vai acontecer na próxima porta. Desde a 20ª rodada, a Série A tem o recurso. A Copa do Brasil, que é a competição em que cada centímetro costuma virar três semanas de gritaria, ainda vive de uma frase perigosíssima: “será avaliado a cada fase”.

Eu detesto essa frase. Ela tem cheiro de regulamento escrito a lápis.

A CBF confirmou em julho que o sistema operado pela Genius Sports seria usado no Brasileirão e na Copa do Brasil nas temporadas de 2026 e 2027. Para a Série A, o caminho foi organizado: estádios vistoriados, câmeras instaladas, equipes treinadas e estreia marcada. Na Copa, a conversa mudou porque todos os mandos de uma fase precisariam ter a infraestrutura pronta. Nas oitavas, a própria entidade descartou o uso. Para as quartas, a possibilidade segue condicionada aos palcos dos classificados.

Tecnologia não pode ser prêmio de estádio. Ou a regra vale para todos os jogos da fase, ou não vale para nenhum.

O problema não é a câmera; é o critério

Não estou pedindo milagre. Há uma diferença honesta entre querer instalar 30 câmeras em qualquer campo de um dia para o outro e exigir que uma competição nacional tenha um critério publicado antes de a bola rolar. A CBF fez o investimento, equipou 20 estádios para a Série A e integrou o sistema à central do VAR. Isso é progresso de verdade. Mas progresso pela metade cria uma nova injustiça para discutir no domingo à noite.

Imagine uma semifinal em que um confronto tenha o semiautomático e o outro não. Em um estádio, o atacante é medido por câmeras, dados e uma animação tridimensional; no outro, a definição continua dependente da linha manual e da interpretação humana. Não é uma diferença decorativa. É uma mudança no método que pode anular gol, validar classificação e decidir premiação.

O argumento da logística é real, só não pode virar biombo. Se a estrutura não está disponível para todos os jogos de uma fase, a decisão mais defensável é manter o mesmo protocolo de VAR em todos eles. Menos glamouroso? Claro. Mais justo? Também.

Foi justamente a falta de consequência para decisões difíceis que tornou a arbitragem brasileira um assunto tão cansativo. Quando o árbitro ignorou uma recomendação de vídeo no clássico entre Flamengo e Corinthians, a discussão não era apenas sobre um cartão: era sobre quem responde quando a ferramenta falha ou é desprezada. Aquele episódio deixou uma lição simples: aparato caro não substitui regra clara.

A Copa do Brasil não cabe em dois pesos

A entidade já explicou que o semiautomático depende de uma estrutura específica, com câmeras dedicadas, servidores locais e conexão estável. A explicação técnica é boa. O que falta é a explicação esportiva: qual será o marco para liberar o recurso na Copa? Quais estádios estão aptos? Em que data os clubes serão avisados? E, sobretudo, o que acontece se um classificado mandar seu jogo em arena sem a instalação?

Essas perguntas não deveriam aparecer em coletiva depois de um gol anulado. Deveriam estar respondidas antes do sorteio das quartas.

O ge detalhou a condição imposta para o torneio: para cada fase, todos os estádios dos envolvidos precisam ter o sistema. Ótimo. Então publiquem a lista, validem os mandos e digam, sem rodeio, se a regra será aplicada. Transparência não é postagem bonita de câmera pendurada na arquibancada; é o torcedor saber por qual procedimento seu time será julgado.

Também não aceito a ideia de que a Copa precisa copiar a Série A em tudo. O mata-mata tem geografia própria, clubes de divisões diferentes e estádios que não receberam o mesmo investimento. Isso exige planejamento, não improviso. Se a CBF pretende levar o recurso às quartas, tem de resolver a igualdade de condições antes de celebrar a novidade.

Precisão sem explicação ainda produz desconfiança

O semiautomático diminui o tempo de uma decisão de impedimento e melhora a precisão da marcação. Excelente. Mas ele não decide falta, não mede intenção e não transforma comunicado vago em confiança. A estreia no Brasileiro já mostrou que uma imagem mais precisa não encerra discussão quando o público não entende o processo ou quando a regra parece aplicada aos pedaços.

É por isso que a conversa vai além do traço na tela. Futebol não exige que o torcedor goste do impedimento marcado contra seu time; exige que ele saiba que o rival, na mesma competição, teria sido avaliado pelo mesmo método. Sem essa simetria, a tecnologia deixa de ser ferramenta de justiça e vira uma vantagem de infraestrutura.

A Copa do Brasil já é a casa do imponderável: time menor derrubando gigante, viagem longa, gramado diferente, disputa de pênaltis. Nada disso pede compensação tecnológica. Se o sistema estiver pronto para todos, usem-no e expliquem cada etapa. Se não estiver, assumam o VAR convencional em toda a fase e trabalhem para a seguinte. É bem menos cinematográfico que vender uma revolução, mas é o tipo de decisão que poupa o campeonato de um escândalo anunciado.

Depois de tantas noites em que o VAR virou personagem, o futebol brasileiro merece menos suspense de bastidor e mais regra escrita. A Copa do Brasil não precisa de sorteio para saber quem terá câmera. Precisa de critério para que ninguém descubra a regra quando a bola já estiver na rede.

Fonte: CBF e ge · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.