Árbitro ignorou o VAR no Fla-Tim e a CBF ainda não tem resposta
Rodrigo Pereira ouviu o VAR dizer 'amarelo' e expulsou Evertton Araújo assim mesmo. A CBF convocou uma reunião. E não disse nada. Neide Ferreira não tem paciência para esse teatro.


Deixa eu contar uma história rápida. No domingo passado, a Neo Química Arena recebeu Corinthians e Flamengo pela oitava rodada do Brasileirão. Um clássico real, com tensão de verdade. O árbitro Rodrigo José Pereira de Lima ouviu o VAR dizer claramente: "Pé com pé lateral. Vou recomendar a revisão para cartão amarelo, e não cartão vermelho." Rodrigo ouviu tudo. Processou tudo. E expulsou Evertton Araújo assim mesmo.
Isso não é achismo meu. A CBF divulgou o áudio. Você pode ouvir Wagner Reway, o operador do VAR, sendo ignorado na linha. Rodrigo argumentou que o contato "travava a chuteira" — uma leitura que nenhuma câmera no estádio conseguiu confirmar e que o próprio VAR descartou. Mas o vermelho ficou. O Flamengo ficou com dez. O jogo ficou travado.
Três dias depois, a CBF convocou uma reunião com os clubes da Série A.
E até agora, zero.
O áudio que envergonhou o Brasileirão
Quando a CBF decidiu divulgar o áudio da comunicação entre VAR e árbitro, fez isso sem emitir opinião. Postou o arquivo, saiu de fininho. É como admitir que algo deu errado sem ter coragem de chamar de errado.
O problema não é só a decisão em si — árbitros erram, sempre erraram, sempre vão errar. O problema é o precedente. Se o VAR pode recomendar uma mudança de decisão e o árbitro pode simplesmente dizer "não, vou manter", o que estamos fazendo aqui? Para que serve a tecnologia, afinal?
José Boto, do Flamengo, foi direto: "Mais uma vez não jogamos 11 contra 11 contra o Corinthians." É uma acusação grave, claro. Mas olhando o áudio, fica difícil de rebater.
O mais surreal veio do técnico Dorival Júnior, do próprio Corinthians. O homem disse que preferia que a expulsão não tivesse acontecido, porque travou o jogo inteiro. "Não temos 60 minutos de bola rolando em nenhum jogo do Brasileirão." Ou seja: até quem teoricamente se beneficiou da expulsão não queria assim. O árbitro foi contra todos.
A reunião como protocolo de aparências
A CBF tem o hábito nobre de convocar reuniões. Convoca quando a polêmica é grande demais para ignorar, senta com os clubes, todos falam, ninguém decide nada formalmente, e a vida segue. Isso não é julgamento: é o histórico.
Já vimos isso acontecer quando Abel Ferreira foi às vias de fato com a arbitragem no Brasileirão. Já vimos no escândalo de arbitragem no clássico paulista. E vai acontecer de novo na próxima polêmica, porque o sistema não muda — só o caso muda.
Marcelo Paz, do Corinthians, pediu publicamente que Rodrigo Pereira não apite mais jogos do Timão. Isso é um dirigente de clube fazendo o que a entidade máxima do futebol nacional deveria fazer: exigir consequências. A CBF, enquanto isso, aguarda.
O Brasileirão merece árbitro que responda pelo que faz
Não me venham com papo de que é difícil ser árbitro. É difícil mesmo — e por isso exige responsabilidade proporcional. Um profissional que recebe recomendação técnica expressa do VAR e a ignora sem qualquer justificativa convincente precisa responder por isso institucionalmente. Não necessariamente com suspensão imediata — mas com transparência, com relatório, com critério.
O que temos hoje é um sistema em que o árbitro tem poder absoluto de ignorar a tecnologia que custou caro para o futebol brasileiro implementar. O VAR virou conselho não vinculante. E a CBF, que deveria ditar as regras dessa relação, continua em silêncio confortável.
O pré-jogo do Fla-Tim prometia um clássico que definiria posições na tabela. O que ficou não foi o 1x1 — foi a sensação de que o jogo foi decidido por um homem que não precisava ouvir ninguém.
Quando árbitro ignorar o VAR virar regra sem consequência, a tecnologia perde sentido. E o Brasileirão perde credibilidade junto.
A CBF sabe disso. Só não quer dizer em voz alta.
Fonte: CNN Brasil, Terra, ESPN Brasil, Coluna do Fla | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


