Novas regras da CBF: sem critério, é só teatro
A CBF abriu debate para levar ao Brasileiro regras usadas na Copa de 2026. A ideia é boa; o teste real será aplicá-las com o mesmo rigor para todos.
Neide Ferreira5 min de leitura
As novas regras da CBF podem deixar o futebol brasileiro menos refém da cera, da demora e do ritual de reclamar antes de jogar. Podem. A palavra importante é essa. Regra boa não se realiza em comunicado, em reunião com dirigente ou em vídeo bonito da confederação. Ela começa a valer quando o árbitro aplica no minuto 7 contra o mandante e repete no minuto 87 contra o visitante, sem medir o tamanho da torcida, a camisa ou a gritaria do banco.
A CBF abriu em agosto o debate com clubes das Séries A e B para incorporar mudanças aprovadas pela IFAB e já usadas na Copa do Mundo de 2026. A pauta envolve procedimentos desenhados para reduzir o antijogo e aproximar as partidas de um tempo maior de bola rolando. É uma agenda necessária. Mas o futebol brasileiro coleciona ótimas intenções que morreram ao encontrar o primeiro técnico berrando na beira do campo.
Não basta importar a regra. É preciso importar a disposição de sustentá-la.
As novas regras da CBF atacam um problema real
Quem acompanha o Brasileirão não precisa de PowerPoint para reconhecer a doença. Goleiro cai e ganha atendimento longo depois de gastar o relógio. Jogador troca de chuteira com a bola parada. Comissão técnica transforma qualquer lateral em assembleia. A partida acaba, o placar fica registrado e ninguém consegue dizer quantos minutos de futebol foram realmente jogados.
A IFAB vem propondo ajustes para combater justamente esse desperdício. A CBF informou que pretende discutir a adaptação das novidades ao calendário brasileiro, depois de a FIFA já as utilizar no Mundial. É correto fazer a conversa antes de impor um pacote no meio de competições em andamento; regulamento não é toalha de mesa para ser puxada quando convém. Também é correto preparar árbitros e assistentes antes de exigir que eles mudem hábitos diante de estádios lotados.
A fase precisa falar uma língua só
Fase com critério único
todos os mandos usam o mesmo protocolo
Fase com infraestrutura desigual
um confronto muda de método no mata-mata
O exemplo do impedimento semiautomático ajuda a separar ferramenta de solução. A CBF confirmou a tecnologia no Brasileirão a partir da 20ª rodada, com estrutura instalada nos estádios previstos para a Série A. O sistema pode encurtar uma checagem objetiva, mas não escolhe sozinho a intensidade de um contato, não decide se houve simulação e não distribui personalidade para quem apita. Tecnologia melhora a informação; critério é o que melhora a decisão.
O mesmo apito precisa valer para todo mundo
Essa é a parte em que o discurso costuma tropeçar. O futebol brasileiro é especialista em pedir rigor até que o rigor alcance o próprio time. Queremos acréscimo longo quando o rival está caindo; queremos que o relógio vire decoração quando o nosso goleiro demora. Queremos cartão por reclamação no banco adversário; no nosso, chamamos de liderança.
Não existe reforma de arbitragem que sobreviva a essa conveniência. Se a CBF optar por punir a demora do goleiro, precisa fazê-lo desde a primeira rodada, com orientação clara e consequências iguais. Se mudar o procedimento de atendimento médico ou de retomada de jogo, deve explicar o passo a passo antes da bola rolar. O árbitro não pode descobrir a interpretação em uma coletiva de imprensa depois do jogo.
O leitor que acompanhou a estreia do impedimento semiautomático no Brasileirão viu o tamanho da diferença entre uma promessa e uma operação efetiva. A tecnologia não elimina a polêmica, mas reduz uma zona de erro específica. A próxima mudança deve obedecer à mesma lógica: objetivo claro, procedimento conhecido e critério verificável.
O contra-argumento: mudar no meio do campeonato é arriscado
Há uma objeção legítima. Competição em curso pede estabilidade. Uma alteração mal comunicada pode punir quem não teve tempo de se adaptar e transformar uma rodada em laboratório. A pressa, neste caso, não é virtude; é convite para novas controvérsias.
Mas estabilidade não pode significar aceitar que a bola fique parada porque todos se acostumaram com isso. O caminho razoável é anunciar com antecedência, abrir o material de treinamento, fazer uma fase de orientação e divulgar o que será fiscalizado. Se houver adaptação gradual, ela precisa ter prazo e meta, não a eterna desculpa brasileira do “vamos observar”.
A CBF não pode vender espuma outra vez
O torcedor não está pedindo que o futebol vire sala de aula, nem que todo contato seja decidido por algoritmo. Está pedindo algo bem menos extravagante: que os 90 minutos tenham futebol, que a regra seja conhecida antes do apito e que a arbitragem não pareça usar uma régua para cada escudo.
A discussão sobre as novas regras chega depois de uma temporada em que a arbitragem ganhou ferramentas, promessas e holofotes. O próximo salto não depende de mais uma sigla. Depende de coerência. Quem quer coibir cera não pode tolerá-la quando é conveniente. Quem quer transparência não pode esconder o critério até a polêmica explodir. Quem quer respeito ao árbitro precisa dar ao árbitro instrução, respaldo e avaliação séria.
Foi assim que a conversa deveria ser apresentada aos clubes: menos anúncio, mais compromisso. A CBF tem uma chance de fazer o Brasileirão correr mais e reclamar menos. Se aplicar as novidades como adereço, terá criado apenas uma nova regra para o velho teatro.
Para entender por que a clareza de processos importa tanto quanto a decisão em campo, vale revisitar como funcionam as oitavas da Libertadores: regulamento só é justo quando todos sabem qual é a régua antes do primeiro lance.
Fontes: CBF sobre o debate com os clubes, CBF sobre as medidas contra o antijogo e CBF sobre o SAOT no Brasileirão.
Fonte: CBF, IFAB e ge · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


