Ba-Vi precisa ser mais que um destaque da rodada
Vitória e Bahia se enfrentam no Barradão pela 24ª rodada depois do 1 a 1 no primeiro turno. O clássico não resolve o campeonato, mas exige urgência de quem anda jogando sem ela.
Neide Ferreira5 min de leitura
O Ba-Vi pela 24ª rodada do Brasileirão não decide título, não encerra campeonato e nem vem embalado pela promessa de uma taça. Ainda assim, Vitória x Bahia, domingo, às 16h, no Barradão, é o jogo que deveria obrigar os dois lados a parar de administrar a temporada como quem deixa louça para a segunda-feira. Clássico não aceita boleto parcelado: ou se entra para disputar a cidade, ou se sai explicando por que faltou coragem.
A CBF colocou o encontro entre os destaques do fim de semana e lembrou que o primeiro turno terminou em 1 a 1 na Fonte Nova. Ótimo: ninguém chega com a desculpa confortável de já ter resolvido a questão. O placar anterior deixou a conta aberta. Agora ela reaparece no Barradão, com arquibancada, rivalidade e a obrigação de fazer um jogo que tenha mais personalidade do que aquela coleção de empates que o campeonato brasileiro adora vender como equilíbrio.
O Ba-Vi não precisa inventar drama. Ele já traz o suficiente no nome e em uma rivalidade que até virou final de Campeonato Baiano. Precisa apenas escapar da tentação de tratar um clássico como compromisso de agenda, igual reunião que todo mundo entra com a câmera desligada e sai dizendo que foi produtiva.
Ba-Vi não cabe na prateleira dos jogos comuns
A programação oficial confirma a rodada espalhada entre sábado, domingo e segunda. Há dez partidas e cada torcedor terá razões próprias para olhar a tabela. Mas o clássico de Salvador tem uma diferença simples: ele muda o humor de uma cidade inteira sem pedir licença à matemática.
É por isso que a conversa não pode ficar restrita a “pontuar fora”, “manter a consistência” ou qualquer uma dessas frases que técnico usa quando quer passar dez minutos sem informar nada. Vitória e Bahia têm direito a estratégia; não têm direito à covardia. Um time pode marcar menos, baixar linhas, escolher transição. Só não pode fazer disso uma profissão de fé e transformar o segundo tempo em fila de banco.
O primeiro Ba-Vi do Brasileiro acabou sem vencedor. A repetição do placar não seria automaticamente uma tragédia, porque empate também pode carregar jogo grande. O problema é outro: o 1 a 1 só se sustenta se vier depois de disputa, ajuste, resposta e risco. Empate sem pulso é a versão futebolística de dizer “vamos marcar outra conversa”.
O returno cobra atitude, não discurso
O Brasileirão entrou na quinta rodada do returno, segundo a CBF. A essa altura, ninguém pode alegar que ainda está apenas conhecendo o elenco ou ajustando o termostato do vestiário. Há pontos em jogo, claro, mas há também uma mensagem para a sequência: quem se comporta como protagonista quando o adversário é aquele que mais incomoda?
Na nossa coluna sobre o início do segundo turno, a crítica era justamente a falta de vontade de aproveitar tropeços alheios. O Ba-Vi oferece uma chance mais direta. Não exige telescópio para enxergar o tamanho do jogo. O rival está do outro lado do campo, a pressão vem de todos os cantos e a rodada não permite esconder a cara atrás de uma estatística simpática.
Também vale olhar para o que o calendário faz com os clubes. A CBF distribui os jogos em três dias, e o clássico ocupa o domingo à tarde, horário que ainda conserva alguma dignidade no futebol brasileiro. Não há motivo para ambos aceitarem que a partida seja lembrada apenas pela fumaça, pelos mosaicos e por uma entrevista protocolar no apito final. O campo precisa acompanhar a arquibancada.
Quem jogar para não perder já começa perdendo
Não estou pedindo onze atacantes e uma lateral virando ponta aos oito minutos. Futebol não é concurso de imprudência. Estou pedindo que o plano de jogo tenha uma pergunta ofensiva: onde o rival sofre, quem vai atacar aquele espaço e o que acontece se o primeiro desenho não funcionar?
O Bahia não pode entrar em Salvador como se o Barradão fosse uma aduana hostil onde basta carimbar o passaporte e voltar para casa. O Vitória, por sua vez, não pode transformar mando de campo em justificativa para fazer pressão emocional sem construir uma chegada limpa. O torcedor aceita derrota depois de ver entrega; o que ele não perdoa é assistir a 90 minutos de cautela e depois ouvir que “o importante era não se expor”.
Há uma diferença entre maturidade e medo. Maturidade é saber sofrer sem abandonar a ideia. Medo é chamar qualquer passe para trás de controle. No domingo, os dois clubes terão a oportunidade de mostrar de que lado estão.
A cidade merece um clássico que deixe marca
O resultado do Ba-Vi vai mexer na tabela, mas não se limite a ela. O clássico também serve para medir ambição antes de uma reta de campeonato que costuma punir quem empurra decisões para depois. A rodada seguinte chega rápido, a memória do torcedor demora a passar e o rival nunca esquece quando encontra o outro de joelhos.
Se houver intensidade, leitura e coragem, até o empate pode ser um capítulo de verdade. Se vier um jogo burocrático, alguém vai tentar explicar que o calendário era difícil, que o gramado pesou, que o campeonato é longo. Pode até ser. Mas clássico não compra explicação em atacado.
Domingo tem Ba-Vi. Que seja mais que um item destacado na tabela da rodada. E, por favor, deixem o futebol aparecer antes das desculpas.
Fonte: CBF e ge · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


