Fifa desiste de vender parte da Copa do Mundo a investidores
Dois dias depois de apresentar o FIFA Forward Enterprise, a entidade arquivou o projeto que abriria uma fatia de seus torneios ao capital privado. O boicote da UEFA, somado às objeções de Concacaf e AFC, juntou 136 federações contra o plano.
Marcos Vinícius Santos5 min de leitura
Existe uma tradição antiga no futebol de dirigentes que anunciam revoluções em terça-feira e as engavetam na sexta. O que aconteceu em Zurique nesta semana foi mais rápido do que isso. A Fifa apresentou às suas 211 federações filiadas um projeto para vender uma fatia comercial de seus torneios ao mercado, ouviu a Europa inteira responder que não entraria em campo, e desistiu antes que o fim de semana começasse.
O comunicado saiu na sexta-feira, 31 de julho. Nele, Gianni Infantino escreveu a frase que encerra o assunto: esta proposta não avançará.
O projeto que durou dois dias
A FIFA Forward Enterprise — FFE, na sigla que circulou pelos comunicados oficiais — nasceu com a ambição de separar a política do dinheiro. De um lado ficaria a entidade, com seus congressos e suas votações. De outro, uma subsidiária reunindo os ativos comerciais das competições: direitos de transmissão, patrocínio, bilheteria, licenciamento. A Fifa manteria o controle majoritário e abriria uma participação minoritária a investidores privados. O Lance apurou que a fatia negociada seria de 20%.
O argumento era o de sempre, e não era desonesto: dinheiro para a base. O repasse a cada federação filiada saltaria de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões no ciclo 2027-2030 — um aumento de 150%. Para uma associação da Oceania ou do Caribe, essa diferença não é uma linha de planilha. É a existência de um campeonato.
O problema nunca foi a aritmética. Foi o método.
As três confederações que somaram 136 federações
A UEFA respondeu primeiro e respondeu no limite do vocabulário disponível a uma entidade esportiva: nenhuma seleção europeia disputaria qualquer competição da Fifa enquanto a proposta estivesse viva. Foi o que detalhamos na quinta-feira, quando a ameaça de boicote colocou a Copa do Mundo Feminina de 2027, marcada para oito cidades brasileiras, dentro de um impasse que não era nosso.
A Concacaf veio em seguida, e o texto dela mirava o processo antes do mérito: preocupação profunda com a falta de garantias processuais e com prazos artificialmente curtos. A AFC fechou o cerco por outro ângulo, avaliando que a proposta não teria como alcançar consenso amplo.
Somadas, as três confederações representam 136 das 211 federações filiadas. Nenhuma votação precisou acontecer para que a conta ficasse evidente.
A Conmebol atravessou a crise sem escolher lado
Nosso texto de quinta-feira terminava apontando que a Conmebol era a última das seis confederações sem posição pública. Ela se manifestou na sexta, e a manobra mereceu ser lida com atenção.
O comunicado sul-americano se chamou "Primeiro está o futebol". Nele, a entidade afirma que decisões comerciais devem estar sempre a serviço do futebol e nunca acima de sua essência — uma frase que qualquer um dos dois lados poderia ter assinado. Na prática, a Conmebol pediu à Fifa informações adicionais sobre alcance, estrutura, governança e efeitos do projeto, abriu consultas com suas dez associações filiadas e convocou uma reunião de Conselho para avaliar o tema.
Não apoiou. Não rejeitou. Ganhou tempo — e o tempo, naquele momento, era o único ativo que ainda valia alguma coisa. Quando o Conselho fosse se reunir, o projeto já estaria arquivado.
O que a Fifa perde ao desistir de vender a Copa do Mundo
O recuo resolve a crise de curto prazo e devolve a Copa Feminina de 2027 ao calendário sem asterisco. As europeias voltam a ter um torneio para disputar no Brasil, e a organização brasileira volta a trabalhar sobre um cenário previsível.
O que não se resolve é a pergunta que originou o projeto. A Fifa prometeu às federações pequenas um salto de receita que agora não tem como entregar, e a distância entre o que uma associação europeia arrecada e o que uma federação caribenha recebe segue exatamente onde estava. O dinheiro que o FFE traria não desapareceu do mercado — apenas continua sem porta de entrada.
Há também um custo político difícil de medir. Infantino apresentou uma reestruturação da maior competição esportiva do planeta e a perdeu em 48 horas, sem que uma única cédula fosse depositada. Encerrou o comunicado convocando as partes a se reunirem outra vez em espírito de interesse comum. É a linguagem de quem entendeu que o próximo movimento precisa começar pela sala, não pelo anúncio.
Não é a primeira vez que o mercado bate na porta do calendário: aconteceu com a Copa de 48 seleções e com o preço dinâmico dos ingressos em 2026. A diferença é que dessas duas o torcedor saiu derrotado. Desta vez, a conta parou antes de chegar.
Fonte: Gazeta Esportiva e Infobae.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Por que a Fifa desistiu de vender parte da Copa do Mundo?
- A entidade recuou depois que UEFA, Concacaf e AFC rejeitaram o projeto. Em comunicado de 31 de julho de 2026, a Fifa afirmou que a proposta gerou divisões e não avançará.
- O que era a FIFA Forward Enterprise?
- Era a subsidiária que reuniria os direitos comerciais dos torneios da Fifa — transmissão, patrocínio, bilheteria e licenciamento — para receber investimento privado minoritário, com a Fifa mantendo o controle majoritário.
- Quanto cada federação receberia com o projeto?
- O repasse por federação subiria de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões no ciclo 2027-2030, um aumento de 150%. Com o arquivamento, o valor atual permanece.
- Qual foi a posição da Conmebol?
- A Conmebol divulgou o manifesto 'Primeiro está o futebol' em 31 de julho, pediu esclarecimentos sobre alcance e governança do projeto e convocou reunião do Conselho, sem apoiar nem rejeitar formalmente.
Fonte: Gazeta Esportiva, Lance, Infobae, El Universo · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Correspondente Internacional
Morou 8 anos na Europa cobrindo as principais ligas. Fluente em inglês, espanhol e italiano. Acompanha de perto brasileiros no exterior e os bastidores do futebol europeu.


