Boicote da UEFA à Fifa põe a Copa de 2027 no Brasil em risco
As 55 federações europeias anunciaram que não disputam competição alguma da Fifa enquanto a entidade insistir em vender uma fatia de seus torneios a investidores privados. A primeira conta do impasse chega ao Brasil: a Copa Feminina de 2027, em oito cidades brasileiras.
Marcos Vinícius Santos5 min de leitura
Uma federação de futebol raramente escreve uma frase que não dê para desdizer depois. Na quinta-feira, a UEFA escreveu. O comunicado assinado pelas 55 associações europeias diz que nenhuma seleção do continente entra em campo por qualquer competição da Fifa enquanto a entidade insistir em vender pedaços de seus torneios a investidores privados. O boicote da UEFA não tem meio-termo, não tem prazo e não tem contraproposta: ou a Fifa engaveta o projeto, ou a Europa não joga.
A primeira fatura desse impasse não chega em Zurique nem em Nyon. Chega aqui.
O que a Europa recusou
O projeto se chama FIFA Forward Enterprise. A ideia é juntar numa única empresa os ativos comerciais das competições da Fifa — transmissão, patrocínio, bilheteria, licenciamento — e vender uma fatia minoritária dessa estrutura ao mercado. A conta que circula avalia o conjunto em torno de US$ 20 bilhões, algo perto de R$ 102 bilhões, com a venda de participações estimada em US$ 4,2 bilhões. A Fifa manteria a gestão política; o investidor entraria pelo caixa.
O argumento da entidade é o de sempre: dinheiro para a base. O repasse anual a cada federação filiada subiria dos atuais R$ 41 milhões para algo próximo de R$ 102 milhões até a Copa de 2030. Para uma federação da Oceania ou do Caribe, esse número não é retórica — é orçamento.
A UEFA respondeu no outro extremo do vocabulário. Além de rejeitar o mérito, atacou o método, classificando o processo como uma governança construída sobre intimidação, desenhada longe das associações que deveriam votá-la. A frase que ficou foi mais curta: nenhuma seleção da UEFA participará de competições da Fifa enquanto essas propostas estiverem vivas.
Não é a primeira vez que o mercado bate na porta do calendário. Foi assim com a Copa de 48 seleções e com o preço dinâmico dos ingressos em 2026. A diferença é que, desta vez, o produto à venda é a propriedade do próprio torneio.
O boicote da UEFA cai no colo do Brasil
A Copa do Mundo Feminina de 2027 será disputada de 24 de junho a 25 de julho, em oito cidades brasileiras. É a primeira vez que o torneio sai para a América do Sul, e o Brasil venceu uma disputa direta com a candidatura conjunta de Alemanha, Bélgica e Holanda para sediá-la. Agora corre o risco de recebê-la pela metade.
Quatro seleções europeias já estão classificadas — Alemanha, Dinamarca, Espanha e França —, com outras vagas diretas ainda em aberto. A Ásia tem seis garantidas: Austrália, China, Coreia do Sul, Filipinas, Japão e RPD Coreia. Some a Concacaf, e o desenho fica claro: todas as campeãs da história da competição saíram dessas três confederações. Um Mundial sem elas continuaria acontecendo, mas seria outro torneio — e um bem menor, técnica e comercialmente, para o país que assinou embaixo de sediá-lo.
A Concacaf, com suas 41 associações, se posicionou contra o plano em nome da governança tradicional. A AFC, com 47, foi mais seca ao dizer que a proposta não reúne o consenso necessário para avançar. Com a UEFA, são 143 das 211 filiadas da Fifa em campo contrário. A CAF segue em consultas internas, a Oceania marcou a decisão para agosto e a Federação Mexicana, notificada no dia 28, avisou que analisaria o texto por conta própria.
Conmebol, o voto que ainda falta
Sobrou uma cadeira vazia na mesa, e ela é sul-americana. A Conmebol atravessou a semana inteira sem comunicado, sem nota e sem entrevista, tratando o assunto apenas por canais institucionais. É a única das seis confederações que ainda não disse o que pensa.
O silêncio tem endereço. A relação entre Alejandro Domínguez e Gianni Infantino é das mais próximas da política do futebol, e a América do Sul colheu dividendos concretos dessa aliança — inclusive a própria escolha do Brasil como sede de 2027. Apoiar a Fifa agora significa carimbar um projeto que pode esvaziar o torneio que a região passou anos disputando para receber. Romper significa deixar Infantino sem maioria e sem margem.
Duas seleções sul-americanas já estão classificadas para 2027: Argentina e Colômbia. O Brasil entra como anfitrião. Nenhuma delas se beneficia de uma Copa reduzida.
O que vem agora
A crise não se resolve por vitória, e sim por recuo. Enquanto a proposta estiver em pé, o boicote está em pé — foi exatamente assim que a UEFA formulou a condição. O caminho mais provável é o de sempre nesse tipo de disputa: recuar em público, reescrever em silêncio e voltar com o mesmo projeto sob outro nome.
Para o Brasil, o cálculo é mais imediato. Faltam onze meses para a bola rolar em oito cidades, e a lista de convidados depende de uma briga que não é nossa. A CBF, até esta sexta-feira, também não havia falado.
Fontes: Band, Diário do Nordeste e Lance.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- O que é a FIFA Forward Enterprise?
- É a empresa que a Fifa quer criar para reunir os direitos comerciais de seus torneios, como transmissão, patrocínio e bilheteria. A entidade pretende vender uma participação minoritária a investidores privados e manter o controle.
- A UEFA vai mesmo boicotar a Copa do Mundo?
- A UEFA declarou que nenhuma de suas 55 seleções disputará competições da Fifa enquanto a proposta estiver de pé. O boicote é condicional: cai se a Fifa abandonar o projeto.
- Quando e onde será a Copa do Mundo Feminina de 2027?
- De 24 de junho a 25 de julho de 2027, em oito cidades brasileiras. É a primeira Copa Feminina disputada na América do Sul.
- Qual a posição da Conmebol sobre o plano da Fifa?
- Até 31 de julho de 2026, a Conmebol não havia divulgado posição pública. É a última das seis confederações a se manifestar sobre a proposta.
Fonte: Band, Lance, Diário do Nordeste, Correio da Manhã · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Correspondente Internacional
Morou 8 anos na Europa cobrindo as principais ligas. Fluente em inglês, espanhol e italiano. Acompanha de perto brasileiros no exterior e os bastidores do futebol europeu.


