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Opinião

Ingressos da Copa 2026: a FIFA leiloou o sonho do torcedor

A FIFA adotou preço dinâmico, deixou bilhete de jogo grande passar de US$ 4 mil e ainda apareceu cadeira vazia em Copa do Mundo. Neide Ferreira diz o que pensa do torneio que tratou o torcedor como planilha de investimento.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Ingressos da Copa 2026: a FIFA leiloou o sonho do torcedor
Ilustração — cadeiras vazias em estádio de Copa do Mundo viraram símbolo da política de preço dinâmico da FIFA em 2026

Tem coisa que não devia existir num jogo de Copa do Mundo, e cadeira vazia é uma delas. Pois os ingressos da Copa 2026 conseguiram a façanha: transformaram o maior espetáculo do futebol num leilão, e o estrago apareceu na arquibancada antes mesmo de aparecer no placar. A FIFA decidiu que torcedor é planilha, deixou o preço flutuar feito corrida de aplicativo em horário de pico e, no fim da conta, sobrou banco de luxo e faltou gente de carne e osso. Faça-me o favor.

Os ingressos da Copa 2026 viraram ativo de especulação

Vamos aos números, porque eu não vivo de achismo. A FIFA estreou na Copa um modelo de preço dinâmico — o mesmo que você xinga quando vai comprar passagem aérea na véspera de feriado. Funciona assim: a entidade controla quando solta os bilhetes e por quanto, e o valor sobe conforme a procura aperta. Resultado prático? Bilhete para os jogos de maior apelo passou de US$ 4 mil, com faixas que iam de uns US$ 400 a US$ 5 mil. Em real, minha gente, isso é mais de R$ 20 mil para sentar e ver 90 minutos de bola.

O próprio Gianni Infantino subiu no palco para defender a ideia, como quem acha bonito vender ar-condicionado no inferno. E o mercado respondeu do jeito que dava: às vésperas da bola rolar, só 29 das 104 partidas do torneio estavam esgotadas. Quando se cobra preço de joia por ingresso de fase de grupos, não dá para fingir surpresa quando o povo decide ficar em casa.

A cadeira vazia que a FIFA jura que não existe

A conta chegou rápido. Logo na estreia do Canadá como anfitrião, no BMO Field de Toronto, contra a Bósnia, sobrou lugar: foram pouco mais de 43 mil presentes num estádio de 44.315 — mais de mil cadeiras encalhadas, com bilhete de categoria 1 e 2 custando entre US$ 1.645 e US$ 2.240. Do outro lado do continente, no Estádio Akron, em Guadalajara, Coreia do Sul x República Tcheca também teve centenas de assentos vazios estampados na transmissão. Não é detalhe: é a foto do problema.

E qual foi a resposta da FIFA? Uma daquelas de encher a paciência. A entidade veio dizer que o público oficial conta "ingressos escaneados", e não a ocupação que aparece nos olhos de quem assiste. Traduzindo do fifês: pouco importa se a cadeira está vazia, o que vale é se o bilhete foi vendido. É o tipo de matemática que conforta o caixa e insulta quem ligou a TV para ver um estádio pulsando. Para um torneio que se vende como a grande festa de Estados Unidos, México e Canadá, a moldura de assento vazio é um soco no próprio marketing.

"Mas está tudo lotado": o contra-argumento que não cola

Sou justa, então deixo o réu se defender. A FIFA cravou que a fase de grupos rodou com algo perto de 99,4% de ocupação oficial, e há quem diga que o preço dinâmico é só o jeito americano de vender ingresso — afinal, é assim que se enche ginásio de NBA e show de estádio por lá. Tem também o argumento de que a revenda seguiu firme, com bilhete subindo de preço no mercado paralelo, sinal de que demanda existe e sobra. Em resumo: do ponto de vista da arrecadação, a jogada deu certo, e a Copa vai bater recorde de faturamento.

Reconheço o ponto. Mas ele prova exatamente o que me incomoda. Encher o cofre não é o mesmo que encher a arquibancada com as pessoas certas. Quando o ingresso vira ativo de especulação, quem senta na cadeira não é necessariamente o torcedor — é quem pôde pagar, ou quem comprou para revender. E aí a festa muda de dono. O futebol que emociona não é o do camarote climatizado; é o do sujeito que juntou dinheiro o ano inteiro e hoje, com esse preço, fica de fora.

A Copa do investidor

No fim, é isso: a FIFA transformou a Copa do torcedor na Copa do investidor. Trocou a fila do estádio pela planilha do algoritmo e, de quebra, ainda esvaziou cadeira em pleno Mundial — uma cena que parecia impossível e que agora compete com os grandes confrontos do mata-mata pela manchete pelos motivos errados. Não dá para celebrar lotação de 99% num release enquanto a câmera flagra buraco na arquibancada de jogos como o da Coreia do Sul.

Futebol não é Bolsa de Valores, e arquibancada não é carteira de ações. O dia em que torcer virar privilégio de quem tem US$ 4 mil sobrando, a gente terá perdido a parte que fazia a Copa valer a pena. A FIFA que anote: caixa cheio com estádio frio é vitória de balanço, não de futebol. E essa, para mim, a entidade está perdendo de goleada.

Perguntas frequentes

Por que os ingressos da Copa 2026 ficaram tão caros?
A FIFA adotou preço dinâmico: o valor sobe conforme a procura e a entidade controla quando os bilhetes são liberados, mantendo os preços altos até perto do jogo.
Qual foi o preço dos ingressos mais caros da Copa 2026?
Para os jogos de maior apelo, os bilhetes passaram de US$ 4 mil, com faixas que iam de cerca de US$ 400 a US$ 5 mil.
Houve cadeiras vazias na Copa do Mundo 2026?
Sim. Em Canadá x Bósnia, em Toronto, sobraram mais de mil lugares, e Coreia do Sul x República Tcheca, em Guadalajara, teve centenas de assentos vazios.
Quantos jogos da Copa 2026 estavam esgotados no início?
Apenas 29 das 104 partidas do torneio tinham ingressos esgotados antes de a bola rolar.

Fonte: Sports Illustrated, SVG Europe, Moneyweb | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.