Corinthians tem 51 dias para não desperdiçar a pausa da Copa
A Copa parou o Brasileirão por 51 dias e entregou ao Corinthians a coisa mais rara do futebol: tempo. Neide Ferreira avisa que o Timão tem tudo para transformar essa pausa num trampolim — ou para queimar o presente resolvendo boleto atrasado.


Vou começar pelo que ninguém no Parque São Jorge quer ouvir: o Corinthians nunca mais vai ter uma chance como essa e está a caminho de tratá-la como boleto vencido. A Copa do Mundo parou o Brasileirão por 51 dias — a pausa mais longa da história recente da competição — e, de graça, colocou na mão de Fernando Diniz aquilo que técnico nenhum tem no meio de uma temporada: tempo para treinar, corrigir e montar um time de verdade. E o que o clube faz com esse presente? Passa metade dele negociando dívida.
O presente que caiu no colo do Corinthians
Não é exagero chamar de presente. O calendário brasileiro é uma máquina de moer, jogo a cada três dias, e um treinador quase nunca consegue mais do que um treino tático entre uma partida e outra. Agora Diniz tem quase dois meses. Dois meses para trabalhar a bola parada, para ajustar a saída de jogo, para dar volume físico a um elenco que passou o primeiro turno correndo atrás do próprio fôlego.
E o Corinthians chega a esse intervalo em condição decente — o que, convenhamos, já é novidade. O time saiu do sufoco do Z4 sob o comando de Diniz e parou na 18ª rodada em posição de meio de tabela, depois de bater o Grêmio por 3 a 1 fora de casa. Não é o G-4, mas também não é o velório que a torcida assistiu no início do ano. É uma base para construir. A pergunta é se alguém no clube está interessado em construir.
O buraco continua sendo o ataque
Porque tem uma coisa que 51 dias de treino não resolvem sozinhos: gol. O Corinthians terminou o primeiro turno com um dos ataques mais pobres do Brasileirão, e isso não é detalhe de planilha — é o motivo pelo qual o time empata jogo que deveria ganhar e ganha jogo que deveria golear. Um elenco montado na base do empréstimo e do jogador livre, por pura necessidade financeira, entregou o que dava para entregar: solidez de vez em quando, criatividade quase nunca.
Some a isso os reforços que chegaram sem custo de transferência — Gabriel Paulista para segurar a defesa, Jesse Lingard como aposta de vitrine, Matheus Pereira e companhia para dar profundidade — e você tem um plantel que respeitou o bolso do clube, mas não moveu o ponteiro do ataque. A pausa devia ser usada justamente para isso: fazer o time criar. Em vez disso, o assunto número um do Parque São Jorge é outro.
A novela Memphis não pode sequestrar o intervalo
Memphis Depay tem contrato até 31 de julho, e o Corinthians quer renová-lo até meados de 2028. Ótimo. O holandês diz que quer ficar, já foi conversar até com a Gaviões, e o clima é de otimismo, segundo o noticiário do mercado. O problema é o de sempre: dinheiro. O clube ainda deve algo em torno de R$ 42 milhões ao jogador, e a renovação — mesmo com patrocinadores viabilizando os números — depende de acertar essa conta antes que ele volte das férias e ouça alguém de fora.
Aqui está minha implicância: o Corinthians teve meses para resolver isso e escolheu empurrar a decisão para dentro da pausa. Agora, em vez de gastar julho pensando em como fazer Memphis, Diniz e o ataque funcionarem juntos, o clube gasta julho pensando em como pagar Memphis. São coisas diferentes. Uma é planejamento esportivo. A outra é gestão de inadimplência com chuteira. E adivinha qual das duas costuma vencer no Parque São Jorge?
O contra-argumento existe. E é fraquinho
Sei o que vão me dizer. "Neide, o clube está em reconstrução financeira, saiu de transfer ban, não dá para gastar." Concordo com o diagnóstico e discordo da conclusão. Ninguém está pedindo que o Corinthians estoure a folha. Estou dizendo que a parte esportiva da pausa não custa dinheiro nenhum. Treinar bola parada é de graça. Definir o time titular é de graça. Decidir se Memphis é peça central ou peça de saída — e agir de acordo — é uma questão de coragem, não de caixa.
O amistoso contra o Cascavel, dia 12, na Neo Química Arena, é o primeiro teste de vitrine desse trabalho. E o Brasileirão volta para valer no dia 23, contra o Remo, fechando o primeiro turno — parte da maratona que espera todos os clubes no returno. São poucas semanas para transformar intenção em time. O relógio, esse, não espera renovação de contrato.
O que eu queria ver
Queria ver o Corinthians sair dessa pausa com três coisas resolvidas: o futuro de Memphis definido — para um lado ou para o outro, mas definido —, um esquema tático que faça o time chutar a gol mais de uma vez por jogo, e a cara de quem entendeu que meio de tabela em julho vira briga por Libertadores ou por Z4 em outubro, dependendo do que se faz agora.
Cinquenta e um dias são um luxo que raramente aparece. O Timão pode usá-los para nascer de novo no segundo turno ou para chegar em setembro com as mesmas perguntas de maio e uma desculpa nova. A diferença entre os dois caminhos não está no cofre. Está na decisão de encarar a pausa como campo de treino, e não como sala de reunião. Corinthiano que é corinthiano sabe qual das duas o clube costuma escolher — e é exatamente por isso que dessa vez precisava ser diferente.
Fonte: Goal Brasil, CNN Brasil, Meu Timão, Corinthians (site oficial) | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


