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Opinião

Brasil x Japão: a Seleção tirou a sorte grande na Copa 2026

O Brasil terminou o Grupo C em primeiro, caiu no lado mais leve da chave e ainda pegou um Japão sem Mitoma, sem Endo e sem Kubo. A sorte sorriu para Ancelotti nos 16-avos da Copa 2026. Só que sorte, na Seleção, costuma virar armadilha — e desta vez não vai dar para culpar a tabela.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Brasil x Japão: a Seleção tirou a sorte grande na Copa 2026
Ilustração — a torcida brasileira projeta o duelo contra o Japão nos 16-avos da Copa 2026, em Houston

Vou começar pela parte que a torcida já está fingindo que não percebeu: o Brasil x Japão dos 16-avos da Copa 2026 é, no papel, o melhor presente que Carlo Ancelotti poderia ganhar. A Seleção fechou o Grupo C em primeiro, escapou do lado pesado da chave e foi sorteada contra um Japão que chega a Houston sem Kaoru Mitoma, sem Wataru Endo, sem Takumi Minamino e sem Takefusa Kubo. Quatro dos jogadores mais conhecidos do país asiático ficaram pelo caminho — uns cortados da lista, outro machucado na estreia. Se isso não é sorte grande, eu não sei o que é.

E é justamente por isso que estou desconfiada.

Brasil x Japão: o lado fácil que ninguém vai admitir que queria

Desde que o chaveamento começou a se desenhar, a torcida cruzava os dedos para fugir de Holanda e Espanha logo de cara. Pois bem: o desejo foi atendido. O Brasil terminou na ponta do seu grupo, com Marrocos em segundo, e ganhou o direito de encarar o vice do Grupo F. A Holanda passou em primeiro e foi parar do outro lado. Sobrou o Japão para a Seleção — segunda-feira, 29 de junho, às 14h de Brasília, no calor de Houston.

No discurso oficial, ninguém da CBF vai dizer que preferia o Japão. Vão repetir o manual: "respeitamos demais o adversário", "Copa não tem jogo fácil", "decisão a partir de agora". Tudo bonito, tudo previsível. Mas seja honesto comigo, leitor: você dormiu mais tranquilo sabendo que não era a Espanha. Eu também.

O problema é que dormir tranquilo, com essa Seleção, raramente terminou bem.

Um Japão capado, mas que já comeu gigante no café da manhã

Antes que alguém me acuse de subestimar o Japão, deixa eu lembrar uma data: 2022. Naquela Copa, os japoneses bateram Alemanha e Espanha na mesma fase de grupos e mandaram a Alemanha para casa. Não foi sorte, não foi zebra de um jogo só — foi projeto. O futebol japonês virou uma linha de montagem de jogadores de Bundesliga e Premier League, com intensidade física, marcação coletiva e transições que sufocam quem está acostumado a ter a bola com calma. Exatamente o perfil de jogo que costuma incomodar o Brasil.

Só que o Japão de 2026 chega remendado. Quem segura a bola agora é Daichi Kamada, do Crystal Palace; quem aparece pela direita é Ritsu Doan, do Eintracht; e a referência de área virou Ayase Ueda, o artilheiro do Feyenoord. Time bom? É. Time para tirar o sono de uma seleção que se diz candidata ao Hexa? Aí já é outra conversa. Como bem destacou o perfil tático do adversário no Olympics.com, os desfalques tiraram do Japão justamente o repertório de velocidade pelos lados que fazia a diferença.

Traduzindo: o Brasil pegou a versão mais frágil de um adversário historicamente perigoso. É como encontrar o cachorro bravo do vizinho, mas no dia em que ele está sem um dente.

A conta que sobra para Ancelotti

E é aqui que a sorte vira responsabilidade. Quando a chave é difícil, o tropeço tem álibi. Eliminado pela Espanha nos pênaltis? "Fazer o quê, era um dos favoritos." Mas perder, ou penar demais, contra um Japão desfalcado, com o lado leve da tabela escancarado à frente? Para isso não existe desculpa que segure.

Os números reforçam a cobrança. A Seleção aparece entre as favoritas ao título nas contas das casas de apostas e dos modelos estatísticos, como mostrou o nosso raio-x dos favoritos ao mata-mata. Tem o elenco mais valioso da chave, tem joias como Endrick e Rayan saindo do banco e tem um treinador campeão de tudo. O que ainda não mostrou foi um time. Contra a Escócia, ganhou por 3 a 0 e deu a impressão de controle; nos outros 90 minutos da fase de grupos, dependeu de Vinícius Júnior para resolver o que a estrutura coletiva não resolvia sozinha.

O mata-mata não perdoa essa dependência. Basta o camisa 7 ter uma tarde apagada — e o calor texano de junho ajuda a apagar qualquer um — para o Brasil descobrir, no pior momento, que não tem plano B. O Japão, mesmo capado, tem disciplina tática suficiente para transformar um jogo morno em pesadelo de pênaltis.

Sem chave difícil, sem Vini iluminado: e agora?

A beleza cruel deste 16-avos é que ele tira todas as muletas. Não dá para reclamar do sorteio. Não dá para apontar para um gigante europeu do outro lado da rede. A própria abertura do mata-mata, naquele África do Sul x Canadá em Los Angeles, mostra que o formato de 48 abriu a porta para estreantes e azarões sonharem — e ninguém quer ser a manchete da zebra da Copa.

O Brasil tirou a sorte grande. Ótimo. Agora que pare de comemorar o presente e mostre, dentro de campo, que merecia recebê-lo. Porque a partir de segunda-feira, em Houston, a única coisa que vai contar é o placar — e não a tabela que, pela primeira vez em muito tempo, jogou a favor da Seleção. Se for para tropeçar agora, melhor já ir devolvendo a conversa de Hexa para a gaveta.

Perguntas frequentes

Que horas é Brasil x Japão pela Copa 2026?
A partida é na segunda-feira, 29 de junho, às 14h (horário de Brasília), no NRG Stadium, em Houston.
Onde assistir Brasil x Japão ao vivo?
A Globo, o sportv e a CazéTV transmitem o jogo para todo o Brasil.
O Japão terá Mitoma e Kubo contra o Brasil?
Não. Mitoma, Wataru Endo e Minamino ficaram fora da lista final e Kubo se lesionou na estreia contra a Holanda; nenhum deles enfrenta o Brasil.
Por que o Brasil pegou o Japão nos 16-avos?
O Brasil terminou em primeiro no Grupo C e cruzou com o Japão, segundo colocado do Grupo F, atrás da Holanda.

Fonte: CNN Brasil, Olympics.com, Rádio Itatiaia, ge | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.