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Opinião

Calor na Copa 2026: a FIFA escolheu a TV, nao o atleta

A FIFA encheu a boca para falar de inclusao com 48 selecoes, mas escalou jogos no horario mais quente do dia para encaixar a audiencia europeia. Um quarto das partidas corre risco de calor perigoso, e tres minutinhos de agua nao resolvem. A coluna da Neide.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Calor na Copa 2026: a FIFA escolheu a TV, nao o atleta
Ilustracao — sol a pino sobre o gramado de um estadio aberto, o retrato do calor que marca a Copa 2026 nos Estados Unidos

O calor na Copa 2026 virou o assunto que a FIFA mais tenta empurrar para debaixo do tapete, e nao vai conseguir. Enquanto Gianni Infantino sorri para as cameras vendendo a Copa "mais inclusiva da historia", com 48 selecoes, tem jogador derretendo em campo ao meio-dia porque alguem la em Zurique decidiu que o relogio da Europa pesa mais que o termometro dos Estados Unidos. Isso nao e azar de calendario. E projeto.

O calor na Copa 2026 nao e azar, e escolha

Os numeros nao deixam a FIFA fugir. Uma analise do World Weather Attribution apontou que cerca de um quarto dos 104 jogos do torneio tem chance de ser disputado em condicoes que ultrapassam o limite de seguranca recomendado pela FIFPRO, o sindicato global dos atletas. Quatorze das dezesseis sedes registram niveis de calor que podem ser perigosos para jogadores, arbitros e ate torcedores. E quantas dessas arenas tem ar-condicionado de verdade? Tres. Apenas tres.

O detalhe que me tira do serio: boa parte das partidas foi marcada justamente para o meio-dia ou comeco da tarde, o pico do calor, contrariando o que os proprios especialistas pediram. Por que? Porque meio-dia em Dallas e horario nobre na Europa. Quem ja viu a final de 1994 em Pasadena, jogada sob quase 38C com mais de 90 mil pessoas no sol, sabe que a FIFA conhece o problema ha mais de trinta anos. Conhece e repete.

Tres minutinhos de agua nao salvam ninguem

A resposta oficial para essa fritura toda foram as pausas para resfriamento: tres minutos em cada tempo, por volta dos minutos 22 e 67, validas para todos os jogos. Bonito no papel. So que vinte e um cientistas escreveram, em maio, uma carta dizendo o obvio: tres minutos sao curtos demais para ter qualquer efeito real, e o intervalo deveria ser pelo menos o dobro.

Na pratica, o que se viu foi o pior dos dois mundos. Os tecnicos reclamaram que as paradas quebravam totalmente o ritmo, com a partida parecendo recomecar do zero depois de cada espera, enquanto a temperatura seguia castigando do mesmo jeito. E quando o ceu resolveu desabar, como em Franca contra Iraque, paralisado por uma tempestade em Filadelfia no dia 22 de junho, ficou claro que o "protocolo" e mais uma muleta de relacoes publicas do que uma politica seria de protecao.

A TV europeia manda, o jogador aguenta

Aqui mora o cinismo. A FIFPRO recomenda acionar pausas a partir de 26C de WBGT e adiar o jogo a 28C. Sabe qual e o limite da FIFA para sequer considerar um adiamento? Trinta e dois graus. A entidade simplesmente desenhou a propria regua bem mais alta que a dos medicos, para nao precisar mexer na grade que vende para os patrocinadores e para as emissoras.

E nao adianta achar que isso e problema dos outros. O Brasil fez seus tres jogos do Grupo C em estadios abertos e fechou a fase de grupos justamente em Miami, batendo a Escocia por 3 a 0 no calor da Florida para terminar na lideranca. Deu certo dentro de campo, e a campanha que credenciou nomes como Endrick e Rayan anima qualquer torcedor. Mas que ninguem se engane: pedir para um atleta correr noventa minutos sob sol de rachar nao e teste de carater, e roleta com a saude alheia. No mata-mata, com prorrogacao e a tensao da briga pelas vagas decidida nos detalhes, o risco so aumenta.

Sim, mexer na grade custa dinheiro

Vou ser justa, porque odeio quem so reclama. Remarcar jogo em uma Copa espalhada por tres paises, dezesseis cidades e varios fusos e um pesadelo logistico. Bilhete vendido, voo de torcedor, escala de transmissao, tudo trava quando se muda um horario. A FIFA tem, sim, um problema real de operacao nas maos, e fingir que e facil seria desonesto.

So que existe uma diferenca entre dificil e inegociavel. Concentrar os jogos de mais risco no fim da tarde e na noite, usar de verdade as arenas com cobertura para os horarios quentes e dobrar o tempo das pausas, como os cientistas pediram, sao medidas que custam dinheiro e dor de cabeca, nao vidas. A conta da logistica a FIFA paga sorrindo. A conta de um colapso em rede nacional, essa ela nao quer nem imaginar.

O trofeu nao vale uma internacao

No fim, e uma questao de prioridade, e a FIFA ja mostrou a dela. Escolheu o fuso da Europa, escolheu o pacote dos patrocinadores, escolheu o espetaculo ao meio-dia. O que ela ainda nao escolheu, de verdade, foi o jogador, esse que sangra a camisa para encher o cofre da entidade e recebe tres golinhos de agua como agradecimento.

Eu adoro essa Copa, adoro ver o Brasil avancar e sonho com o hexa como qualquer um. Mas trofeu nenhum, nem o nosso, vale uma internacao por insolacao numa tarde de Dallas. Se a FIFA tem coragem de chamar este torneio de historico, que comece fazendo a unica coisa que ainda nao teve estomago para encarar: colocar a saude de quem joga acima do horario de quem assiste.

Perguntas frequentes

Quantas paradas para resfriamento tem cada jogo da Copa 2026?
A FIFA tornou obrigatorias duas pausas de tres minutos por partida, por volta dos minutos 22 e 67, em todos os jogos do torneio.
Qual a temperatura que a FIFPRO considera perigosa para jogar?
A FIFPRO recomenda pausas a partir de 26C de WBGT e adiamento a 28C; o limite da FIFA para considerar adiar e bem maior, 32C.
Quantos estadios da Copa 2026 tem ar-condicionado?
Apenas tres das dezesseis sedes contam com cobertura e refrigeracao; a maioria dos jogos acontece em estadios abertos.

Fonte: NPR, Earth.org, Terra, Olympics.com, FIFPRO | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.