Formato da Copa 2026: os 48 calaram os saudosistas
Reclamei dos ingressos e reclamaria de novo. Mas seria desonestidade não admitir: o formato de 48 seleções que tanta gente jurou que ia matar a Copa entregou a fase de grupos mais divertida em anos. Cabo Verde encara a Inglaterra e o Equador derrubou a Alemanha.


Eu reclamei dos ingressos, reclamei do preço dinâmico, reclamei da ganância da FIFA — e reclamaria tudo de novo amanhã. Mas seria pura desonestidade da minha parte, com a fase de grupos se encerrando, não olhar para o que aconteceu em campo e admitir: o formato da Copa 2026, esse Mundial inchado de 48 seleções que metade dos cronistas europeus jurou de pé junto que ia matar o futebol, entregou a primeira fase mais divertida que eu vejo há muitos anos. E entregou justamente por causa daquilo que os saudosistas mais odeiam nele.
A turma do "no meu tempo é que era bom" passou meses prevendo um torneio diluído, cheio de goleada sem graça e seleção de enfeite. Pois o roteiro saiu pelo avesso. Quem entrou pela porta que a FIFA alargou não veio para tirar foto — veio para incomodar, e está incomodando os grandes de um jeito que faz tempo que a Copa não via.
O formato da Copa 2026 não diluiu nada — concentrou drama
Vamos aos números, que não têm opinião. A edição de 2026 bateu o recorde de gols da história em fases de grupos, com mais de 139 bolas na rede antes mesmo de a primeira fase fechar, numa média que beira três por jogo. Diluição, me diz quem? Isso é o oposto de um torneio morno.
E o drama veio embalado em zebra. O Equador foi ao gramado precisando de resultado, encarou a poderosa Alemanha e venceu de virada por 2 a 1, com Gonzalo Plata decidindo no segundo tempo. Os equatorianos avançaram como um dos melhores terceiros colocados e voltam a um mata-mata de Copa depois de vinte anos. A Turquia, do outro lado da moeda, deu 62 chutes e não fez um gol sequer antes de cair. Isso é Copa do Mundo de verdade — a que premia coragem e pune arrogância, não a que entrega o tapete vermelho sempre para os mesmos.
Cabo Verde contra a Inglaterra é poesia, não acidente
Se eu pudesse emoldurar um confronto desta Copa e pendurar na parede, seria esse: Cabo Verde vai enfrentar a Inglaterra no mata-mata. Leia de novo. Uma das menores seleções da história das Copas, que segurou um empate sem gols contra a Espanha e carimbou a vaga, agora senta na mesma mesa que o futebol que se acha dono da bola.
E não foi a única. Curaçao, a menor nação a já disputar um Mundial, caiu num grupo com Alemanha, Equador e Costa do Marfim, arrancou um ponto e saiu de cabeça erguida — o ponto dela vale mais do que a quarta estrela de muita gente grande. Nenhum desses enredos existiria no formato antigo de 32. Cabo Verde estaria em casa, assistindo pela televisão, e a Inglaterra jogaria contra mais um nome de sempre. A porta que abriu deixou o ar entrar.
Os defeitos existem — e não me convencem
Não vou bancar a ingênua. O formato tem defeito, sim. Tem jogo a mais num calendário que já estava obeso. Tem grupo morno e terceira rodada que virou amistoso porque os classificados já estavam definidos. E tem a aberração filosófica de uma seleção se classificar perdendo — o Equador avançou logo depois de tomar uma virada, e eu também acho isso esquisito de explicar para uma criança.
Reconheço tudo. Só que coloco na balança e o veredito não muda. O preço de oito vagas a mais foram alguns jogos sonolentos numa quarta-feira qualquer. O prêmio foi Cabo Verde, Curaçao e Equador sentando à mesa principal e olhando os gigantes nos olhos. Trocar essa festa de volta pelo clubinho fechado de sempre, só para poupar a sensibilidade de quem tem nostalgia de 1998, seria o pior dos negócios. Aliás, a mesma FIFA que me tirou o couro no preço do ingresso acertou na hora de escancarar a competição — e custa admitir, mas crédito é crédito.
Que a Copa continue dos pequenos também
A partir de segunda-feira, dia 29, o mata-mata começa para valer e a tendência é que a hierarquia se imponha — favorito costuma sobrar em jogo único. Talvez Cabo Verde apanhe da Inglaterra, talvez o Equador caia na primeira esquina. Tudo bem. O recado já foi dado, e ele é maior do que qualquer placar isolado.
Por três semanas, a Copa do Mundo deixou de ser propriedade exclusiva de meia dúzia de seleções ricas e virou o que sempre prometeu ser nos discursos e quase nunca foi na prática: do mundo inteiro. Se o preço disso é aguentar os saudosistas de luto pelo torneio "puro" que eles inventaram na cabeça, eu pago com prazer. A bola é redonda para todo mundo — e estava na hora de alguém abrir a roda.
Perguntas frequentes
- Quando começa o mata-mata da Copa do Mundo 2026?
- A fase de 16 avos de final (o novo mata-mata de 32 times) vai de 28 de junho a 4 de julho, com o Brasil entrando em campo na segunda-feira, 29.
- Como o Equador se classificou mesmo perdendo para a Alemanha?
- O Equador perdeu por 2 a 1, mas terminou entre os oito melhores terceiros colocados, critério que garante vaga no novo formato de 48 seleções.
- Quem Cabo Verde enfrenta no mata-mata da Copa 2026?
- Cabo Verde avançou da fase de grupos e enfrenta a Inglaterra na primeira rodada do mata-mata, sua estreia em fases eliminatórias de Copa.
- Quantas seleções se classificam para o mata-mata da Copa 2026?
- Passam 32: os dois primeiros de cada um dos 12 grupos mais os oito melhores terceiros colocados, que disputam a nova fase de 16 avos.
Fonte: FIFA, ESPN, Olympics.com, Sky Sports | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


