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Chega de desculpa: a crise do Flamengo é de quem manda, não de quem joga

Filipe Luís vive seu pior momento no comando do Flamengo. Mas a culpa da Recopa perdida não é só dele — é de quem montou um elenco desequilibrado e caro demais.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Chega de desculpa: a crise do Flamengo é de quem manda, não de quem joga
Ilustração editorial — A crise rubro-negra vai além do técnico: é estrutural e exige mudanças na diretoria

Coluna de Neide Ferreira | Publicada às segundas e quintas

Alguém precisa falar a verdade: o Flamengo não perdeu a Recopa por causa de um erro de arbitragem, nem por detalhe. Perdeu porque entrou em campo sem saber o que queria ser. E isso, meus amigos, é problema de quem manda, não de quem joga.

Filipe Luís está sendo vaiado. Sofre cobrança interna. Vê seu trabalho questionado após perder duas finais em menos de dois meses. Mas vamos combinar: ele não montou esse elenco. Ele não gastou mais de 200 milhões de reais em contratações. Ele não decidiu trazer Paquetá para jogar como volante quando o mundo inteiro sabe que ele render mais próximo do ataque.

O desenho que não funciona

Desde que assumiu em outubro de 2024, Filipe Luís tenta imprimir uma identidade. O time tem a cara dele, diz ele. No bom e no ruim. Só que tem vezes que essa cara parece mais expressão de quem não sabe se vira à esquerda ou à direita.

Contra o Lanús, na decisão da Recopa, o Flamengo tomou três gols de um time que, com todo respeito, não é exatamente o Real Madrid de 2017. O primeiro gol saiu de uma falha individual? Saída. Mas o segundo e o terceiro saíram de um time que simplesmente não sabia se pressionava alto ou recuava. De um time que, tendo Arrascaeta e Paquetá no mesmo elenco, parecia jogar com dois meias e nenhum ponta de lança.

A informação que chega dos bastidores é de desgaste interno. Jogadores contestam escolhas. O discurso do técnico soa desalinhado com a realidade do vestiário. Quando um treinador começa a perder o grupo, o prazo de validade está perto do vencimento. Mas será que trocar o técnico resolve?

O problema está lá em cima

O Flamengo de 2026 é um time caro. Muito caro. Tem o maior orçamento do futebol brasileiro, contratou o jogador mais caro da história do país e mesmo assim parece um quebra-cabeça com peças de conjuntos diferentes. Você olha para o elenco e vê talento espalhado. Mas vê encaixe? Vê função clara para cada um?

Paquetá foi contratado para ser protagonista. Chegou como meia-atacante, artilheiro, cara que decide. Está sendo escalado como volante. O próprio jogador deixou claro que prefere atuar mais avançado. O técnico diz que quer aproveitar as chegadas dele na área. Então por que colocá-lo para marcar?

Isso não é questão de fase. É questão de projeto. De quem monta o elenco não conversar com quem vai usar o elenco. De contratar por nome e não por necessidade tática.

A torcida tem razão de cobrar

Vou ser direta: a torcida do Flamengo tem todo direito de vaiar. Não é mimimi, não é torcedor chato. É gente que paga ingresso caro, que acompanha o time em toda decisão, que viu o clube perder duas finais importantes em menos de sessenta dias.

A torcida não vaiou porque o time perdeu. Vaiou porque o time pareceu perdido. Porque viu um Lanús mais organizado, mais compacto, mais certeiro. Porque viu um time de 200 milhões de reais sendo superado em vontade e em ideia por um time que custa uma fração disso.

E aqui entra a questão: até quando a diretoria vai segurar Filipe Luís por conta da história dele no clube? Porque ser ídolo como jogador não dá crédito infinito como treinador. O futebol não funciona assim.

O que vem por aí

O calendário não dá trégua. O Flamengo tem o Paulistão, tem a Libertadores, tem o Brasileirão. E tem um elenco que, no papel, deveria brigar por tudo. Mas que, na prática, parece longe de ser um time.

Filipe Luís precisa de tempo? Precisa. Mas precisa mais ainda de um elenco que faça sentido. De um diretor de futebol que entenda que contratar estrelas não basta — é preciso montar um time. De uma diretoria que olhe para o campo e não só para o marketing.

A crise do Flamengo não é só do técnico. É de um modelo que acha que dinheiro resolve tudo. Que contratação bombástica esconde problema estrutural. Que aposta em nomes em vez de apostar em ideia.

Chega de desculpa. O Flamengo precisa de mudança. E essa mudança começa lá em cima.


Fontes consultadas: ge.globo, O Globo, UOL Esporte, Placar

Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo. As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a posição editorial do portal.

Fonte: ge.globo / O Globo / UOL | Informações adicionais por Beira do Campo

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Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.