Sorteio da Champions confirma que peso ainda decide
O novo desenho da Champions promete repartir os caminhos, mas o sorteio desta quinta mostrou outra coisa: os grandes continuam chegando ao torneio com atalhos, elencos e margem para sobreviver ao caos.
Marcos Vinícius Santos5 min de leitura
O sorteio da Champions League desta quinta-feira confirmou uma verdade que a reforma tentou maquiar: mudar o formato não tornou a Europa menos hierárquica. A fase de liga distribui oito adversários, quatro jogos em casa e quatro fora, mas não distribui igualmente a margem de erro. Real Madrid, Barcelona e Atlético começam de novo no centro do palco porque têm elenco, história e dinheiro para sobreviver a uma sequência ruim que derrubaria quase qualquer outro.
O sorteio desenhou para o Real Madrid encontros de peso com Arsenal, Inter e Roma. O Barcelona terá Manchester City, PSG e Aston Villa entre os testes mais duros; o Atlético ficou com Bayern de Munique, Liverpool e Manchester United. Os confrontos são atraentes, e ninguém está pedindo que a Champions vire um campeonato sem gigantes. O problema começa quando a UEFA chama de equilíbrio um sistema que amplia o calendário, a receita e o valor de mercado dos mesmos clubes que já chegam mais protegidos.
A nova Champions não acabou com a desigualdade
O desenho é conhecido: 36 equipes em uma tabela única, oito partidas por clube e classificação suficiente para manter 24 times vivos depois da fase inicial. Os oito primeiros vão direto às oitavas; do nono ao 24º, há uma repescagem. É um modelo mais movimentado que os antigos grupos de quatro e, como explicamos no guia da Champions League 2026/27, oferece mais cruzamentos grandes logo de saída.
Mas jogo grande não é sinônimo de competição mais justa. Quando um dos favoritos cruza com dois pesos-pesados, a conversa costuma tratar a dificuldade como prova de grandeza. Para quem não possui duas opções de alto nível em cada posição, o mesmo calendário é uma armadilha: viagem, lesão, suspensão e uma semana ruim deixam de ser acidentes e passam a definir a temporada.
Os potes continuam organizados pelo coeficiente, isto é, pela memória institucional de resultados europeus. A UEFA confirmou Paris, Bayern, Real Madrid, Liverpool, Inter, Manchester City, Arsenal, Barcelona e Atlético no pote 1. Não há culpa em ser grande, claro. Há um vício em construir uma competição que remunera o passado e depois apresentar o resultado como se fosse uma corrida com a mesma linha de largada para todos.
O sorteio pesa antes de a bola rolar
O Barcelona saiu com City, PSG e Aston Villa como seus rivais mais fortes, segundo a cobertura do El País. É um caminho pesado, mas o clube catalão pode administrar rotação, transformar uma derrota em tropeço e buscar recuperação contra adversários de menor orçamento. O Real, com Arsenal, Inter e Roma, tem a mesma blindagem. O Atlético, diante de Bayern, Liverpool e United, sente mais o peso, mas ainda pertence ao grupo que consegue contratar para consertar problemas em janeiro.
Essa é a diferença que uma tabela única não resolve. A dificuldade não mora só nos nomes sorteados; mora na capacidade de absorver o que vem depois deles. Os grandes acumulam banco, receita comercial, atletas acostumados a noites europeias e uma narrativa que suporta derrota. Clubes de perfil médio precisam acertar escalação, janela, viagem e momento emocional quase toda vez. A bola é a mesma. O colchão, não.
É por isso que chamar qualquer sequência de “grupo da morte” já perdeu parte do sentido. No formato atual, o gigante não precisa vencer tudo para seguir respirando. A própria extensão da fase de liga cria atalhos para a recuperação. Pode ser bom para o espetáculo; não é necessariamente bom para a surpresa.
O calendário também escolhe seus sobreviventes
Há uma ironia especialmente incômoda nesta edição. A fase de liga começa em 8 de setembro, depois de uma pré-temporada comprimida pela Copa do Mundo. A UEFA informa que os horários e as datas detalhadas dos jogos saem até sábado, 29 de agosto. Quando saírem, a análise honesta não pode parar nos duelos de manchete: será preciso olhar distâncias, descanso e encaixes com os campeonatos nacionais.
Foi exatamente essa falta de respiro que criticamos em nosso alerta sobre o calendário europeu. O sorteio não cria o desgaste sozinho, mas o organiza. Quem tem elenco profundo transforma a maratona em gestão; quem não tem, em loteria. E a elite continua muito confortável em vender a loteria desde que tenha comprado os melhores bilhetes.
O fascínio permanece, a promessa precisa mudar
Nada disso tira o encanto de ver City e PSG no caminho do Barcelona ou Arsenal e Inter diante do Real. A Champions continua sendo a competição que produz as noites mais barulhentas do futebol de clubes. A reforma acertou ao colocar esses encontros mais cedo e reduzir a sonolência de alguns grupos antigos.
Só não convém confundir movimento com democratização. A nova Champions é mais larga, mais cara e mais cheia de jogos; ainda assim, continua desenhada para que os grandes tenham mais de uma vida. O sorteio desta quinta não decidiu um campeão, evidentemente. Mas deixou claro quem poderá errar, respirar e recomeçar quando setembro cobrar a primeira conta.
Até a próxima sexta.
Fonte: UEFA, El País e AS · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Correspondente Internacional
Morou 8 anos na Europa cobrindo as principais ligas. Fluente em inglês, espanhol e italiano. Acompanha de perto brasileiros no exterior e os bastidores do futebol europeu.


