São Paulo precisa tratar Z-4 como urgência, não discurso
A derrota para a lanterna Chapecoense deixou o São Paulo a três pontos da zona de rebaixamento. O discurso duro precisa finalmente virar resposta prática em campo.
Neide Ferreira4 min de leitura
O São Paulo precisa tratar o Z-4 como urgência, não como hipótese distante. A derrota por 1 a 0 para a Chapecoense, lanterna do Brasileirão, deixou o time com 27 pontos, apenas três acima da zona de rebaixamento ao fim de quase toda a 24ª rodada. Não é uma conta de internet nem uma provocação de rival: é a tabela cobrando a parte que o Tricolor ainda não entregou em campo.
Dorival Júnior chamou a atuação de inadmissível e vergonhosa. A bronca tem tamanho, mas já não basta. Quando um treinador diz que faltam palavras, está reconhecendo que o repertório das entrevistas chegou ao limite. O São Paulo precisa de uma mudança que apareça na escalação, na intensidade e, sobretudo, no placar. A derrota para a Chapecoense não foi um tropeço isolado: foi o décimo jogo seguido sem vitória no campeonato.
O São Paulo não tem margem para romantizar a crise
O problema não é o clube admitir que vive uma fase ruim. O problema é continuar tratando uma sequência de quatro empates e seis derrotas como se o peso da camisa fosse resolver o próximo domingo sozinho. A derrota em Chapecó aconteceu justamente contra uma equipe que começou a rodada na última posição; era a partida para transformar o alerta em reação, e o São Paulo fez o contrário.
O ge.globo registrou a cobrança pública de Dorival: o técnico falou em buscar algo diferente porque o trabalho atual não tem sido suficiente. A frase merece ser levada ao pé da letra. Futebol não premia diagnóstico correto quando a solução nunca chega.
Há um agravante incômodo: a falta de estabilidade. Antes do jogo em Chapecó, Dorival já tinha passado dez partidas sem repetir uma escalação, entre saídas e lesões. É uma explicação real, não uma desculpa eterna. Um time em reconstrução pode oscilar; um time que não vence dez rodadas passa a precisar de escolhas claras, mesmo que imperfeitas. A busca por uma formação ideal não pode virar licença para não construir uma identidade mínima.
A distância para o Z-4 é curta demais
O São Paulo ocupa a 13ª posição. O Mirassol, que abre a zona de rebaixamento, tem 24 pontos. A Folha apontou nesta segunda-feira que o clube entrou de vez na disputa contra a queda. Dá para discordar do tom, não dos números.
O calendário pode até oferecer a distração da Sul-Americana, mas o Brasileiro é o lugar onde a crise ganha corpo toda semana. A classificação continental aliviou o ambiente por alguns dias; perder para a Chapecoense mostrou que alívio não é cura. A competição de mata-mata permite um jogo de superação. Os pontos corridos expõem cada repetição de erro.
E não adianta olhar só para baixo com falsa tranquilidade. Santos, Grêmio, Internacional, Mirassol, Vasco e Remo também atravessam uma faixa apertada da tabela. O Gre-Nal das quartas da Copa do Brasil já nasce sob a pressão de equipes que precisam separar ambição de sobrevivência. O São Paulo também está nessa conversa, goste ou não.
Cobrança precisa alcançar todos, inclusive Dorival
Seria fácil despejar toda a conta no elenco. A apatia em Chapecó foi grave, e jogadores experientes precisam responder por ela. Mas treinador não é narrador de desastre; é parte da solução. A opção de poupar Marcos Antônio e manter Calleri, que acabou deixando o jogo com problema no tornozelo, virou um retrato ruim de uma tarde em que a gestão também falhou.
Dorival tem direito de cobrar. Também tem a obrigação de definir uma rota. Quem serão os jogadores que sustentam o time quando a partida pede concentração? Como o São Paulo vai criar mais contra adversários fechados? Que ajuste reduz a vulnerabilidade em bola parada? Não são perguntas para a próxima entrevista coletiva. São tarefas para o próximo treino.
O UOL lembrou que apenas a Chapecoense venceu entre os clubes mais pressionados na rodada. Isso torna a oportunidade desperdiçada ainda mais cara: numa rodada de tropeços, o São Paulo poderia ter aberto distância. Preferiu encolhê-la.
Não há glamour em fazer conta contra o rebaixamento, mas há irresponsabilidade em fingir que ela não existe. O São Paulo ainda tem tempo para sair dessa faixa da tabela. Só não tem mais espaço para confundir indignação com mudança.
Fonte: ge.globo · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


