Santos x Bahia: bola presa na água não é espetáculo
Ceni e Cuca defenderam a paralisação na Vila Belmiro. A capacidade de competir sob chuva merece respeito, mas não encerra a discussão sobre as condições de jogo. Coluna da Neide.
Neide Ferreira5 min de leitura
Santos x Bahia deixou uma pergunta maior que qualquer discussão de arquibancada: até quando a disposição dos jogadores deve servir de argumento para manter uma partida em um campo que já não permite a bola circular? Minha posição é simples. A coragem de continuar merece respeito; a condição de jogar precisa de uma avaliação própria. Misturar as duas coisas transforma resistência física em certificado de qualidade do espetáculo.
A discussão vem das entrevistas publicadas neste domingo, 25 de outubro, depois do encontro de sábado na Vila Belmiro. Não exige escolher um lado da torcida. Exige reconhecer que há uma diferença entre aceitar a chuva como parte do futebol e aceitar qualquer quantidade de água como parte do gramado.
Santos x Bahia teve uma concordância entre os técnicos
Na coletiva reproduzida pelo ge, Rogério Ceni afirmou que ele e Cuca pediram para parar a partida. Segundo o treinador do Bahia, os jogadores dos dois times queriam continuar. Ele também descreveu a dificuldade de trocar passes quando a bola ficava presa na água.
Do outro lado, a Gazeta Esportiva publicou a avaliação de Cuca. O técnico santista disse ser favorável à paralisação e explicou que precisou adaptar as escolhas da equipe às limitações do terreno. São avaliações dos treinadores, com os interesses de cada equipe, e devem ser lidas como tal.
Ainda assim, a concordância merece atenção. Não é necessário transformar nenhuma das entrevistas em laudo técnico para perceber que ambos apontaram o mesmo problema. Se a discussão ficar restrita a quem soube se adaptar melhor, a pergunta sobre as condições da partida desaparece justamente quando deveria começar.
Adaptar o time não resolve o campo
No relato oficial do Santos sobre o confronto, publicado em 24 de outubro, o clube também descreveu poças e a substituição das trocas de passes por bolas longas. O registro ajuda a separar a crítica de Ceni de uma reclamação isolada do visitante.
A leitura que faço é esta: um treinador pode encontrar soluções para o campo ruim sem que o campo se torne aceitável por causa disso. Mudar a maneira de atacar, buscar uma disputa aérea ou simplificar a saída são respostas competitivas. Não são prova de que o problema deixou de existir.
O torcedor pode admirar a entrega e, ao mesmo tempo, cobrar condições melhores. Não precisa assinar uma renúncia ao futebol bem jogado para reconhecer o esforço de quem ficou em campo. Aplaudir a resistência não obriga ninguém a aplaudir a poça.
A vontade dos atletas conta, mas não encerra a conversa
O argumento favorável à continuidade tem peso. Os jogadores conhecem o terreno que estão pisando; quem comprou ingresso organizou o dia para estar ali. Interromper uma partida também produz custos, incerteza e frustração. Não trato a paralisação como um botão mágico que elimina todos os problemas.
Também não seria razoável defender que qualquer chuva inviabiliza um jogo. Futebol acontece ao ar livre, e adaptar a execução às condições faz parte da competição. O ponto difícil é estabelecer quando essa adaptação deixa de ser um desafio normal e passa a substituir quase tudo o que as equipes pretendiam fazer.
É por isso que o desejo de continuar não pode ser a resposta inteira. Um atleta pode querer competir mesmo em situação desfavorável. Essa disposição é compreensível, mas não resolve sozinha a discussão sobre a qualidade do terreno. São perguntas diferentes, embora apareçam na mesma entrevista.
Cobrar explicação sem inventar um diagnóstico
O pré-jogo de Santos x Bahia apresentava um confronto que merecia ser discutido pela bola. Depois das declarações dos treinadores, a pauta passou a incluir o próprio campo. Para acompanhar os próximos compromissos, o leitor tem a agenda de futebol e a tabela do Brasileirão.
Cobrar uma explicação não exige adivinhar a causa do alagamento. Não há, nas fontes usadas nesta coluna, uma avaliação técnica independente que permita distribuir responsabilidades de engenharia ou fixar um prazo de recuperação. Minha cobrança é por clareza sobre a decisão de seguir e sobre as condições oferecidas.
Em julho, a coluna sobre gramados naturais e sintéticos já discutia a qualidade do piso como parte do produto entregue ao público. O episódio de sábado acrescenta outra questão: como lidar com a perda de condição durante o próprio evento.
O esforço merece aplauso; o limite merece explicação
A história do futebol está cheia de imagens fortes de lama, chuva e sacrifício. Elas rendem memória afetiva. Só que memória afetiva não deve decidir sozinha o padrão que queremos cobrar hoje.
Prefiro uma competição capaz de explicar seus limites a uma que dependa do heroísmo para tornar qualquer cenário aceitável. Se os dois treinadores defenderam parar e o campo virou assunto central das entrevistas, há uma discussão concreta a enfrentar. A bola presa na água não precisa virar tradição para ser levada a sério.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- O que Cuca disse sobre a chuva em Santos x Bahia?
- Na coletiva reproduzida pela Gazeta Esportiva em 25 de outubro, o treinador afirmou que era favorável a parar a partida e avaliou que o campo limitou o jogo do Santos.
- Rogério Ceni também queria parar Santos x Bahia?
- Sim. Segundo o relato da coletiva publicado pelo ge em 25 de outubro, o técnico do Bahia disse que ele e Cuca pediram a paralisação.
- Quando aconteceu Santos x Bahia na Vila Belmiro?
- O confronto foi disputado em 24 de outubro de 2026, pela 32ª rodada do Campeonato Brasileiro.
Fonte: ge, Gazeta Esportiva e Santos FC; consultados em 25 de outubro de 2026 · informações adicionais por Beira do Campo
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