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Beirado Campo
Opinião

Gramado sintético: o Brasileirão volta hoje no plástico

O Brasileirão recomeça nesta quinta no Nilton Santos, em cima de grama artificial, e a temporada caminha para quase o dobro de jogos no sintético em relação a qualquer ano anterior. A discussão de abril morreu sem decisão. Coluna da Neide.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Gramado sintético: o Brasileirão volta hoje no plástico
Gramado sintético em estádio do Brasileirão, tema que voltou à pauta na retomada da Série A — Foto: Reprodução / ESPN

O Brasileirão volta hoje à noite, 19h30, e a primeira bola da retomada vai rolar em cima de gramado sintético. Botafogo e Santos abrem a 19ª rodada no Nilton Santos, no plástico, com jogadores que passaram 51 dias sem jogo oficial. E eu vou dizer o que ninguém quer dizer em voz alta: o problema não é a grama artificial. O problema é que discutimos isso por três meses, gritamos, assinamos nota, xingamos presidente — e ninguém decidiu absolutamente nada. A CBF escreveu um artigo no regulamento, lavou as mãos e mandou a bola rolar.

O recorde que ninguém combinou

Os números da temporada são o retrato do vexame. Seis clubes da Série A mandam jogos em grama artificial em 2026: Palmeiras no Allianz Parque, Botafogo no Nilton Santos, Atlético-MG na Arena MRV, Athletico-PR na Arena da Baixada, Chapecoense na Arena Condá e o Vasco, que aluga o Nilton Santos enquanto São Januário está em obras. Seis de vinte. Trinta por cento do campeonato.

A conta que sai disso é de aproximadamente 110 jogos no sintético até dezembro. Entre 2023 e 2025, esse número nunca encostou em 60. Ou seja: o Brasileirão quase dobrou a presença do piso artificial sem que existisse um debate técnico honesto, um estudo médico brasileiro, uma consulta séria a quem corre em cima dele. Aconteceu porque Athletico-PR e Chapecoense subiram da Série B e porque o Vasco precisou de um endereço. Foi sorteio, não foi projeto.

O regulamento da CBF resolveu a questão no artigo 24: os clubes estão autorizados a usar piso sintético desde que sigam os requisitos do RGC. Ponto final. Uma linha de texto para encerrar a maior briga política do futebol brasileiro no primeiro semestre. É a CBF fazendo o que a CBF faz melhor — transformar decisão em formulário.

A briga que virou fumaça

Quem acompanha esta coluna lembra da guerra de abril, quando o presidente do Flamengo chamou os clubes do sintético de "show business" e Leila respondeu com planilha na mão. Cinco presidentes assinaram nota conjunta. Rendeu manchete por uma semana. Eu escrevi sobre a guerra do gramado sintético e confesso: achei que dali sairia alguma coisa. Saiu nada.

Porque aquilo nunca foi sobre joelho de jogador. Era sobre dinheiro, e dinheiro se resolve no voto — e no voto, quem tem arena multiuso ganha. Sintético aguenta show da Beyoncé na sexta e clássico no domingo. Sintético não vira lamaçal em novembro. Sintético não custa uma fortuna de manutenção para clube que não tem caixa. Esses argumentos são reais, e é por isso que Neymar, Thiago Silva, Coutinho e Gabigol podem reclamar de dor no joelho até ficarem roucos: eles não sentam na mesa onde a decisão é tomada.

Onde eu concordo com o inimigo

Agora vem a parte em que eu desagrado o meu próprio lado. O sintético não é o demônio que a torcida pinta.

O gramado do Nilton Santos tem certificado FIFA Quality Pro, o selo mais alto que existe para piso artificial. Não é aquele carpete de society com cheiro de borracha queimada. E tem um detalhe incômodo para os puristas: grama natural malcuidada machuca mais do que sintético bem instalado. Quem já viu o estado de certos gramados de Série A em outubro sabe do que eu estou falando. Defender "grama natural" em abstrato, enquanto metade dos estádios entrega batata frita, é hipocrisia com sotaque nostálgico.

O que eu não aceito é a desonestidade do processo. Se o sintético é seguro, prove com estudo feito aqui, com atleta brasileiro, com carga de jogo brasileira — a nossa, de 70 partidas por ano, não a de liga europeia que joga uma vez por semana e para no inverno. Se não é seguro, proíba. O que não dá é para autorizar 110 jogos no escuro e descobrir a resposta pelo número de cirurgias em 2027.

O jogo de hoje é o teste

E hoje a coisa fica ainda mais desconfortável. Botafogo, 12º com 22 pontos, recebe o Santos, 15º com 21, dois times espremidos na parte suja da tabela, voltando de 51 dias de parada, em cima do plástico, com o corpo desacostumado. Se aparecer lesão muscular nos primeiros vinte minutos, metade do Brasil vai culpar o gramado e a outra metade vai culpar a pausa da Copa. Ninguém vai saber. E é exatamente esse o ponto: ninguém vai saber, porque ninguém mediu nada.

O Brasileirão volta com o Palmeiras disparado na liderança e com 20 clubes fingindo que essa conversa acabou. Não acabou. Foi adiada para o primeiro joelho que estourar em rede nacional — aí a nota conjunta volta, com os mesmos cinco presidentes e a mesma indignação reciclada.

Eu vou assistir ao jogo. Vou torcer para dar 3 a 2, com gol nos acréscimos e ninguém saindo de maca. Mas se a CBF acha que resolveu o assunto com uma linha no artigo 24, tem uma novidade: o assunto é que não terminou com vocês.

Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

01
Quantos times jogam em gramado sintético no Brasileirão 2026?
Seis clubes mandam jogos em grama artificial: Palmeiras, Botafogo, Atlético-MG, Athletico-PR, Chapecoense e Vasco, que usa o Nilton Santos durante a reforma de São Januário. É 30% da Série A.
02
Quantos jogos serão disputados em gramado sintético em 2026?
A estimativa é de cerca de 110 partidas ao longo da competição. Entre 2023 e 2025, o número nunca passou de 60 por temporada.
03
O gramado sintético é permitido pela CBF?
Sim. O artigo 24 do regulamento do Brasileirão autoriza estádios com piso de grama sintética, desde que cumpram os requisitos do RGC.

Fonte: ESPN, Band, CNN Brasil, Lance · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.