Novas regras de arbitragem: o Brasil vai jogar com dois livros
A CBF instalou 30 câmeras por estádio para estrear o impedimento semiautomático neste fim de semana, mas só adota o resto do pacote da FIFA em 15 de agosto. Enquanto isso, os mesmos clubes entram em campo pela Libertadores já com as regras novas. Neide explica por que isso é desorganização.
Neide Ferreira5 min de leitura
A CBF passou meses instalando trinta câmeras em cada estádio da Série A para que o impedimento semiautomático estreasse na rodada 20, que começou no sábado. Tecnologia de Copa do Mundo, implementação rápida, comunicado orgulhoso. E aí, no mesmo mês, a mesma CBF decidiu que as novas regras de arbitragem que a FIFA usou no Mundial só entram em vigor daqui a três semanas. Resultado: o clube brasileiro que jogar Libertadores e Brasileirão no mesmo intervalo de sete dias vai encontrar dois livros de regra diferentes. Isso não é cautela. É falta de combinação.
As novas regras de arbitragem chegam só na rodada 23
O calendário que a CBF desenhou é este: reunião no dia 10 de agosto, no Rio, com os 40 clubes das Séries A e B. Se sair aprovado — e a expectativa da própria entidade é que saia —, as mudanças passam a valer da 23ª rodada em diante, nos dias 15 e 16 de agosto.
O pacote não tem nada de exótico. São cinco segundos para cobrar lateral, cinco para o tiro de meta, dez segundos para o jogador substituído sair de campo e um minuto fora depois de receber atendimento médico. O VAR ganha duas atribuições novas: checar lance de escanteio e conferir a aplicação do segundo cartão amarelo. Nada aí exige um semestre de laboratório. São regras que o mundo inteiro viu funcionando na Copa, em jogo de mata-mata, com árbitro de dez nacionalidades diferentes.
A Conmebol olhou para o mesmo pacote e resolveu diferente: aplica já, ainda em julho, nos playoffs da Sul-Americana e nas oitavas da Libertadores. Com uma ressalva só — não adota a chamada Lei Vini Jr, que manda cartão vermelho para quem coloca a mão na boca para esconder o que fala durante uma discussão com adversário.
Dois livros de regra, os mesmos jogadores
É aqui que a conta não fecha. Os clubes brasileiros nas competições continentais são os mesmos que disputam a Série A. O mesmo goleiro, o mesmo lateral, o mesmo massagista que entra em campo. Na quarta-feira, cronômetro rodando no tiro de meta e um minuto de banco depois do atendimento. No domingo, tudo como era antes. Na quarta seguinte, de volta ao novo.
Quem paga essa conta não é o dirigente que marcou a reunião para agosto. É o goleiro que ficar com a bola na mão dois segundos a mais por reflexo e vier a sofrer a punição em decisão continental. É o técnico que precisa treinar duas rotinas de saída de bola. É o árbitro brasileiro, que já trabalha sob pressão diária e agora vai precisar lembrar em qual competição está apitando antes de decidir se conta ou não os segundos.
A ironia é que a parte cara e complexa a CBF entregou. O impedimento semiautomático envolveu vistoria técnica, engenharia e teste em vinte estádios, e a entidade se gaba, com razão, de ter feito uma das implantações mais rápidas do mundo. A parte barata — chamar os clubes numa sala e dizer "a partir de tal data, é assim" — é a que ficou para depois. Dá para instalar câmera 4K a 100 quadros por segundo em vinte praças esportivas, mas não dá para marcar uma reunião antes de agosto.
O outro lado, que existe
Vou ser justa: mudar regra no meio de campeonato sem aviso é pior. Se a CBF acordasse numa terça e mandasse aplicar tudo na rodada seguinte, teria árbitro interpretando de um jeito em Porto Alegre e de outro em Belém, clube reclamando de critério, e a mesma imprensa que hoje cobra pressa cobraria improviso. Alinhar diretriz com quarenta clubes e com todo o quadro de arbitragem antes de virar a chave é o procedimento correto. Não tenho crítica ao método.
Tenho crítica ao relógio. O Brasileirão parou por semanas durante a Copa do Mundo. Foi uma janela inteira de calendário livre, com os clubes reunidos discutindo janela de transferências e planejamento, com árbitros sem jogo para apitar e com as regras novas já rodando à vista de todo mundo no Mundial. Aquele era o momento da reunião. A pauta estava pronta desde que a FIFA publicou o pacote, e eu mesma já tinha aberto essa caixa aqui em junho, quando discuti o que salva e o que atrapalha nas regras novas. Não havia surpresa. Havia agenda.
O recado
A CBF não errou por adotar as regras devagar. Errou por não ter usado o único período em que o campeonato estava parado para fazer o trabalho de mesa. Agora vai fazer com o returno em andamento, com times brigando por título e por permanência, e com os brasileiros já em mata-mata continental sob outro regulamento.
Quando o primeiro lance polêmico aparecer — e vai aparecer, porque escanteio checado por VAR é convite para revisão de dois minutos —, a resposta pronta será que a regra é nova e todo mundo está se adaptando. Não está. A regra é de junho, o mundo inteiro já viu, e a Conmebol conseguiu aplicar sem drama. Enquanto o returno abre com sete jogos neste domingo, a Série A joga com um livro que o resto do continente já aposentou.
Que a reunião de 10 de agosto sirva pelo menos para uma coisa: sair de lá com data, critério escrito e o mesmo entendimento para os vinte clubes. Porque o que não dá é para o torcedor precisar consultar qual escudo está no peito do árbitro para saber quantos segundos o goleiro tem.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
- Quando as novas regras de arbitragem valem no Brasileirão?
- A CBF projeta aplicá-las a partir da 23ª rodada das Séries A e B, nos dias 15 e 16 de agosto, depois de uma reunião com os clubes marcada para 10 de agosto.
- Quais são as novas regras de arbitragem da FIFA?
- Cinco segundos para cobrar lateral, cinco para o tiro de meta, dez segundos para o substituído deixar o campo, um minuto fora após atendimento médico e VAR checando escanteio e segundo cartão amarelo.
- A Conmebol já usa as novas regras na Libertadores?
- Sim. A entidade sul-americana começou a aplicá-las ainda em julho, com uma exceção: não adota a Lei Vini Jr, que pune com vermelho quem tapa a boca com a mão durante discussão com adversário.
Fonte: CBF, LANCE!, Notícias ao Minuto · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


