São Paulo: o indiciamento no conselho explica o 12º lugar
O presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo foi indiciado por falsidade ideológica em um caso que passa por SAF e reforma de estatuto. E ainda tem gente jurando que o problema do Tricolor é o meio-campo.
Neide Ferreira6 min de leitura
Deixa eu adiantar minha tese antes que alguém me venha com escalação: o problema do São Paulo em 2026 não é o meio-campo, não é o lateral-direito e não é o técnico da vez. É que o clube passou o ano inteiro brigando por um estatuto enquanto o time ia escorregando para o meio da tabela — e agora a conta chegou em forma de inquérito policial. O presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres de Abreu Júnior, foi indiciado por falsidade ideológica em um caso que envolve, de todas as coisas do mundo, um parecer sobre a possível transformação do Tricolor em SAF.
O relatório final da Polícia Civil, do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania, foi concluído nesta semana. A conclusão é que um documento atribuído ao Conselho Consultivo — o tal "conselho de cardeais" — não seguiu o rito regular de elaboração. Segundo a apuração, o texto foi redigido por um advogado externo a pedido de Olten e circulado para colher as assinaturas do presidente do Consultivo, José Eduardo Mesquita Pimenta, e do secretário, Ives Gandra da Silva Martins. Os dois assinaram, depois renunciaram e disseram que aquilo refletia apenas conversas isoladas, sem reunião formal nenhuma. Olten nega ter praticado falsidade, afirma que não obteve benefício pessoal ou político e diz que recebeu o indiciamento com tranquilidade. O caso agora vai ao Ministério Público, que decide se denuncia.
Indiciamento não é condenação — e mesmo assim é vergonhoso
Vamos combinar uma coisa antes que a torcida tricolor me acuse de linchamento: indiciar é conclusão de polícia, não sentença de juiz. Olten tem direito à defesa, o MP pode arquivar, e nada disso escreve culpa na testa de ninguém. Fixado isso, sobra o que realmente me interessa: independentemente do desfecho jurídico, o São Paulo chegou ao ponto de ter o chefe do seu poder legislativo interno investigado por causa de um papel de duas páginas. Não é um jogador flagrado em aposta, não é um dirigente pego num áudio — é o funcionamento básico da instituição sendo questionado por autoridade pública.
E o pano de fundo é ainda pior que o episódio. O parecer contestado tratava de mudar as regras de aprovação de uma eventual SAF e de separar o futebol do clube social, proposta que nasceu na gestão anterior, de Julio Casares, em dezembro de 2025 — na mesma semana em que veio a público o áudio sobre exploração irregular de camarotes que abriu a crise de governança. Ou seja: a reforma que deveria salvar o Tricolor do buraco financeiro foi gestada dentro de outra encrenca. Nasceu torta.
Enquanto isso, o time joga
Aqui está a parte que a política interna do Morumbis finge não enxergar. O São Paulo fechou o primeiro turno do Brasileirão 2026 em 12º lugar, com 25 pontos — sete vitórias, quatro empates, oito derrotas, 19 pontos atrás do Palmeiras. Perdeu por 2 a 1 para o Athletico-PR, que fez o melhor primeiro turno da era dos pontos corridos, e caiu para a faixa da tabela onde não se briga por nada: nem Libertadores, nem susto de rebaixamento, nem manchete. A pior região possível para um clube desse tamanho, porque é a região do esquecimento.
Some a isso o transfer ban aplicado pela FIFA por uma dívida de € 1,05 milhão com a Lazio, que travou o registro de reforço já contratado, e você tem o retrato completo: um clube que não consegue pagar parcela de transferência, não consegue aprovar o próprio estatuto sem inquérito e não consegue passar de 25 pontos em 19 rodadas. Três sintomas, uma doença só.
No domingo, às 18h30, esse São Paulo entra no Maracanã para enfrentar o Flamengo, vice-líder com 37 pontos, pela 20ª rodada. Boa sorte. Se o Tricolor perder, vai ter torcedor culpando o esquema tático — e errando o alvo por uns dois andares de altura na sede do clube.
O contra-argumento (e por que ele não se sustenta)
Sei o que vem: "Neide, dirigente e jogador são coisas separadas, política de clube sempre foi suja, o time joga do mesmo jeito". Metade disso é verdade. Política de clube brasileiro sempre foi suja, sim. Só que a suposição de que a bagunça de cima não desce para o gramado é justamente o que permite que ela continue.
Governança podre custa dinheiro, e dinheiro custa jogador. Clube com dívida vencida na FIFA não contrata; clube em guerra estatutária não aprova investimento; clube com conselho paralisado por inquérito não consegue nem discutir SAF a sério, que era exatamente o assunto do documento contestado. O Botafogo mostrou o preço de uma SAF mal conduzida; o São Paulo está mostrando o preço de nem chegar à discussão de forma limpa. São falhas diferentes com a mesma origem: gente que trata o clube como território de disputa pessoal.
E não adianta dizer que é episódio isolado. Em maio já era áudio de dirigente falando em crise financeira para justificar a permanência do técnico. Em dezembro, camarote. Agora, indiciamento. Três capítulos em oito meses não formam coincidência — formam método.
O que o torcedor tricolor deveria estar cobrando
Não é escalação. É prestação de contas. O sócio do São Paulo tem instrumento na mão — assembleia, voto, eleição de conselho — e passou anos delegando isso para um grupo que agora aparece no relatório da Polícia Civil. Enquanto a torcida discutir se o problema é o volante, o volante seguirá sendo contratado por quem não consegue nem redigir um parecer dentro do rito.
O São Paulo tem cinco Libertadores, três Mundiais e uma das maiores torcidas do país. Nada disso está em jogo agora. O que está em jogo é se o clube volta a ser dirigido como clube grande ou se aceita virar aquilo que a tabela já sugere: um time de 25 pontos, com dívida na FIFA e o conselho no noticiário policial. E, sinceramente, a essa altura eu não sei mais qual dos dois cargos de responsabilidade está mais vago — o de meia armador ou o de adulto na sala.
Fonte: Band, O Tempo, Lance!, Gazeta Esportiva · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


