Punido no Brasil, escalado na Copa: a lógica torta da arbitragem
A CBF puniu Ramon Abatti Abel. O STJD o suspendeu por 40 dias. A FIFA foi lá e o escalou para a Copa do Mundo de 2026. Neide não tem mais paciência para fingir que isso faz sentido.


A CBF puniu Ramon Abatti Abel. O STJD o suspendeu por 40 dias. Presidentes de clube protestaram. O torcedor foi às redes sociais pedir o fim da carreira do homem. Houve nota oficial. Houve vídeo. Houve análise de VAR ao vivo na televisão aberta.
E o resultado desse festival de indignação nacional? A FIFA foi lá e escalou Ramon Abatti Abel para apitar a Copa do Mundo de 2026.
Bravo.
Os fatos, antes que alguém diga que é fake
Em outubro de 2025, Abatti Abel apitou São Paulo 2 x 3 Palmeiras na 27ª rodada do Brasileirão. O time do Morumbi saía vencendo por 2 a 0. Depois vieram os lances: um pênalti que 40 milhões de brasileiros viram — e o árbitro e o VAR não viram. Gols nascidos de faltas não marcadas. Um jogo que virou e arrastou consigo a confiança de meio país na arbitragem nacional.
A CBF reconheceu publicamente a "falha coletiva". O STJD puniu Abatti com 40 dias de suspensão. Antes disso, em 2024, o mesmo árbitro já tinha levado uma puxada de orelha por erros em Palmeiras x Fortaleza — também em favor do time alviverde, a propósito.
Dois episódios graves. Duas punições. E o homem vai para a Copa do Mundo nos Estados Unidos.
Wilton Pereira Sampaio e Raphael Claus você até entende — têm experiência de Catar 2022, carreira consolidada, histórico internacional sólido. Mas Ramon Abatti Abel, que a própria entidade que o governa suspendeu há menos de um ano, também está na lista. A FIFA confirmou. Três árbitros brasileiros, recordes de representação, nove profissionais no total.
O contra-argumento honesto
Eu preciso ser justa aqui — mesmo que doa.
A FIFA tem critérios próprios para selecionar árbitros. Ela avalia desempenho em Eliminatórias, em competições da CONMEBOL, em jogos com supervisão direta de seus observadores. É plenamente possível que Abatti Abel arbitre diferente em um jogo das Eliminatórias do que no Brasileirão. Contextos distintos, pressões distintas, critérios de avaliação distintos.
Além disso, o sistema de arbitragem brasileiro é tão mal gerenciado, tão sujeito a pressão política e de torcida, que duas suspensões dentro dele não dizem necessariamente o que deveriam dizer sobre a qualidade do árbitro. Às vezes dizem mais sobre a incapacidade da CBF de gerir a crise do que sobre o erro em si.
Tudo isso é verdade. Mas não muda o problema central.
O sistema é a doença, não o árbitro
O problema não é Ramon Abatti Abel na Copa. O problema é que o Brasil não tem critério nenhum para avaliar árbitros — e isso ficou mais claro do que nunca nos últimos meses.
Quando o torcedor gritou contra Abatti em outubro de 2025, o que ele estava gritando, no fundo, era contra o sistema. Contra um VAR que funciona quando quer. Contra uma CBF que reconhece erros publicamente mas não muda estrutura nenhuma. Contra um árbitro que pode fazer um jogo desastroso em um clássico de alto impacto, virar bode expiatório nacional por 40 dias, e depois voltar ao apito como se nada tivesse acontecido.
O clássico Corinthians x Palmeiras do último dia 12 é o mais recente capítulo da mesma novela sem fim. Derby 0 a 0, dois expulsos do Corinthians, um pênalti que o Palmeiras jura que existia, confusão generalizada nos túneis — e a arbitragem mais uma vez no centro de tudo. Eu já escrevi sobre a bagunça desse Derby e o que o STJD fez com Abel Ferreira. O pattern não muda.
Antes disso, ainda antes do Brasileirão arrancar de vez, já tinha aparecido a polêmica da súmula de Abel Ferreira e os árbitros acuados no Brasileirão 2026. Porque é sempre assim: a bola rola, o árbitro erra, o técnico explode, a CBF emite nota, o STJD se manifesta e semana seguinte começa tudo do zero.
É um ciclo. É exaustivo. E ninguém quebra esse ciclo porque ninguém tem incentivo para fazê-lo.
Quem quer mudar, que vá aos EUA
Então me digam: se o sistema é esse, se a CBF trata árbitro como almofada — bate quando a pressão política exige, guarda quando precisa de conforto — por que alguém se surpreende quando a FIFA chega com critérios diferentes e seleciona quem ela quer?
A FIFA avalia arbitragem com continuidade. Tem observadores nos jogos. Tem escala de progressão. Não cancela árbitro por trending topic. É um sistema longe de perfeito — o VAR existe há anos e continua gerando polêmica no mundo inteiro — mas ao menos tem um critério que persiste além do escândalo da semana.
O Brasil quer árbitros melhores no Brasileirão? A resposta não está em gritar com Ramon Abatti Abel. Está em construir um sistema que avalie com método, forme com continuidade e não use árbitro como para-raios de pressão de dirigente. Isso a CBF não faz. Isso o STJD não é capaz de fazer com a estrutura que tem. E o torcedor, que é inteligente, vai continuar gritando com o árbitro — porque o árbitro é o único que não processa.
Enquanto isso, Abatti Abel se prepara para os Estados Unidos. E o Brasil segue discutindo VAR no churrasco de domingo.
Boa sorte pra ele. E vergonha pra nós.
Fonte: Terra, ESPN Brasil, Agência Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


