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CBF prometeu impedimento semiautomático e entregou desculpa

A CBF assinou contrato, convocou coletiva e prometeu SAOT na 1ª rodada do Brasileirão. Oito rodadas depois, 26 dos 27 estádios estão fora. Isso não é complexidade técnica — é incompetência com microfone.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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CBF prometeu impedimento semiautomático e entregou desculpa
Impedimento semiautomático no Brasileirão — Foto: Reprodução / MKT Esportivo

A CBF anunciou em grande estilo. Coletiva, comunicado oficial, hashtag e toda a parafernália que a entidade sabe usar quando quer parecer moderna: o Brasileirão 2026 teria impedimento semiautomático. A mesma tecnologia da Copa do Mundo de 2022. A mesma que a Premier League usa desde 2023. O Brasil, finalmente, entraria no século XXI da arbitragem.

O Brasileirão começou. Já são oito rodadas. E o impedimento semiautomático? Cadê?

Ausente. Empoeirado numa planilha de promessas que a CBF perdeu o endereço.

A promessa foi grande, pública e irresponsável

A entidade assinou contrato com a Genius Sports. Anunciou que todos os 27 estádios da Série A receberiam a infraestrutura necessária. Falou em "estreia na 1ª rodada" com a naturalidade de quem promete entrar por uma porta quando ainda não tem a chave.

O resultado real: dos 27 estádios, apenas o Maracanã está minimamente apto para receber o sistema. Um. Um único estádio. Os outros 26 não têm as câmeras de alta precisão, não têm o hardware dedicado, não têm a rede de dados com latência suficiente para que o SAOT funcione.

A previsão mais otimista agora — e tenham bom senso ao usar a palavra "otimista" aqui — é que o sistema chegue ao Brasileirão depois da Copa do Mundo de 2026. Ou seja, não estará disponível enquanto o campeonato ainda importa em termos de calendário, de competição, de lances polêmicos que estão acontecendo agora.

Nenhuma dessas informações era segredo quando a CBF fez o anúncio. Quem conhece o estado dos estádios brasileiros sabia da conta. Mas a CBF fez a promessa assim mesmo.

O padrão que ninguém mais suporta

Essa não é uma história isolada. É o capítulo mais recente de um livro que todo torcedor brasileiro já decorou de tanto ler.

Ontem, um árbitro simplesmente ignorou o VAR num lance que poderia mudar o jogo — e a CBF não deu resposta. Antes disso, Abel Ferreira foi às redes sociais com uma súmula que contradizia o que as câmeras mostraram. O padrão se repete com a pontualidade de um metrônomo: promessa grande, entrega pequena, silêncio depois.

A CBF até anunciou profissionalização dos árbitros — contratos de dedicação exclusiva a partir de março de 2026. Isso é avanço real, reconheço. Mas profissionalizar a carreira do árbitro não resolve o problema estrutural da arbitragem brasileira se a tecnologia que deveria apoiá-lo simplesmente não existe.

Você não pode pedir ao árbitro que tome a decisão certa sobre impedimento milimétrico sem dar a ele os instrumentos para isso. E a CBF prometeu esses instrumentos — e não entregou.

O contra-argumento que não cola

Alguém vai dizer: "Mas é tecnologia complexa. Leva tempo. Não é simples instalar câmeras de rastreamento em 27 estádios com infraestruturas tão diferentes."

Sim. É verdade. Implementar o SAOT em escala nacional é trabalhoso, caro e demorado. Não estou discutindo isso.

Estou discutindo que a CBF sabia disso quando fez a promessa. Você não anuncia estreia na 1ª rodada de um produto que vai demorar anos para estar pronto. Isso não é dificuldade técnica — é ou má-fé ou desorganização total. Escolha a que preferir; nenhuma das duas é aceitável para uma entidade que administra o futebol de um país de 200 milhões de pessoas.

Se o prazo era irrealista, não deveriam ter anunciado. Se era realista e não foi cumprido, alguém precisa responder por isso. Em ambos os casos, o torcedor foi enganado.

O Brasileirão vai terminar igual ao que começou

Não espero resposta da CBF. Nunca esperou. A entidade tem um talento único para o esquecimento estratégico: anuncia com pompa, falha sem ruído e segue em frente como se nada tivesse acontecido.

O Brasileirão 2026 vai terminar com árbitros tomando decisões à olho nu sobre impedimentos de centímetros. Com câmera lenta que ninguém sabe calibrar direito. Com VAR que às vezes é chamado, às vezes é ignorado, com critério que muda dependendo do jogo.

E na janela do intervalo, alguém da CBF vai aparecer numa coletiva com um sorriso e anunciar que, no ano que vem, vai ter impedimento semiautomático de verdade. Tecnologia de ponta. Nova era para o futebol brasileiro.

Você vai acreditar?

Eu não.


Neide Ferreira é colunista do Beira do Campo. A "Quinta Polêmica" vai ao ar toda quinta-feira.

Fonte: MKT Esportivo, ESPN Brasil, O Tempo | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.