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Segunda da Neide: a torcida virou as costas e o Diniz xingou. E a CBF?

No Barradão, a torcida do Vitória virou as costas durante o hino para protestar contra a arbitragem. Em Mirassol, Diniz chamou o juiz de mascarado depois de um vermelho que virou amarelo e decidiu o jogo. A 14ª rodada terminou com o Brasileirão refém do apito — e a CBF olhando pro lado.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Segunda da Neide: a torcida virou as costas e o Diniz xingou. E a CBF?
Ilustração — Árbitro central conduz partida do Brasileirão sob holofotes; semana foi marcada por protestos contra a arbitragem

Sábado, 21h do Barradão. O hino nacional toca, os jogadores se perfilam, e a Torcida Os Imbatíveis faz uma coreografia silenciosa: vira as costas para o gramado. Sem palavras. Sem cartazes. Só costas. Vinte e quatro horas depois, no interior paulista, Fernando Diniz desce do banco do Mirassol — quer dizer, do Corinthians — e chama o árbitro de "mascarado" porque o homem fingiu não ouvi-lo. Bem-vindos à 14ª rodada do Brasileirão de 2026, capítulo mais novo da única novela que a CBF não consegue cancelar: a do apito.

Quando o hino vira protesto, a CBF perdeu

Virar as costas para o hino nacional não é gesto pequeno. É grave, é simbólico, é o tipo de imagem que viraliza em segundos e cola na história do clube. A denúncia formal que o Vitória entregou contra a arbitragem do jogo com o Athletico-PR foi engavetada como sempre — então a torcida resolveu protocolar a queixa do jeito dela: na frente da câmera, antes de a bola rolar, com o estádio inteiro como testemunha. O árbitro Rafael Klein registrou tudo em súmula. Agora o STJD pode até punir o Vitória, mas o estrago para a imagem da arbitragem brasileira já está feito — e não foi a torcida quem assinou.

Não é só birra de torcedor magoado com derrota, viu. É o quarto jogo seguido em que o Vitória sai de campo reclamando — três deles registrados oficialmente em ata por dirigentes do clube. Quando uma torcida inteira topa virar as costas durante o hino, ela está dizendo o que os relatórios oficiais não conseguem traduzir: a credibilidade da arbitragem virou pó. E foi a CBF quem deixou cair.

Mirassol x Corinthians: o vermelho que virou amarelo (e gol)

No domingo, a novela ganhou episódio novo. Aos 12 minutos do primeiro tempo no Maião, o árbitro Matheus Delgado Candançan expulsa Edson Carioca por uma falta em Matheus Pereira. O VAR — comandado por Márcio Henrique de Gois, da mesma federação paulista — chama para revisão. Candançan vai à cabine, olha de novo, e o vermelho vira amarelo. Pode até ter sido a decisão certa. O problema é o que veio depois: aos 32, Edson Carioca cabeceia na pequena área e faz o segundo gol do Mirassol. Aquele que ia ser expulso decidiu o jogo. Quem viu a partida sabe o que isso significa para qualquer treinador no banco do adversário.

E entre o vermelho-virou-amarelo e o pênalti em Carlos Eduardo aos 21 — bola dentro depois de toque de Bidu —, Fernando Diniz simplesmente surtou. Tentou falar com o quarto árbitro, não foi atendido, e soltou um "mascarado" registrado por todos os microfones de campo. É o tipo de palavra que rende suspensão de duas a quatro partidas pelo STJD. Diniz sabia disso e falou assim mesmo. Ou ele perdeu a cabeça, ou ele decidiu que o preço de calar era maior. Considerando que o Corinthians voltou ao Z4 com 15 pontos e seis empates patéticos, eu aposto na segunda opção.

O padrão que a CBF finge não ver

A defesa de carteirinha do apito é sempre a mesma: "todo mundo erra, é jogo difícil, ninguém conseguiria fazer melhor". Combinado. O problema é o padrão. Em três meses de Brasileirão, já contabilizamos protesto formal de pelo menos quatro clubes diferentes, uma reunião extraordinária da CBF que não respondeu por que o árbitro do Fla-Tim ignorou o VAR, suspensão de Abel Ferreira por oito jogos por declaração contra árbitro, e agora uma torcida inteira virando costas no hino.

Isso não é estatística do azar. Isso é projeto de gestão que prefere o conforto da omissão à dor da reforma. Enquanto a Comissão de Arbitragem continuar funcionando como repartição pública de carimbos, com escalas opacas, sem prestação de contas pública sobre erros e sem mecanismo claro de punição interna, vamos seguir nesse circo. O VAR foi vendido como solução e virou parte do problema: cinco minutos parados no campo, decisão capengada, e, no fim, ninguém entende mais o que é falta, o que é pênalti e o que é cartão. Existe algo pior que árbitro errar sozinho? Árbitro errando com tecnologia para confirmar.

O que ninguém vai dizer

Vou dizer eu, então. O Corinthians perdeu para o Mirassol por jogar mal — não por causa do árbitro. O time do Diniz está com a defesa furada, o meio campo perdido e a torcida gritando "fora" antes de o juiz tocar no apito. O pênalti foi pênalti, sim. O cabeçalho de Edson Carioca foi gol legal, sim. Atribuir a derrota à arbitragem é a desculpa preferida do brasileiro que não quer encarar o espelho.

Mas — e aqui está o ponto — também é verdade que Diniz não inventou o "mascarado" do nada. A torcida do Vitória não virou as costas porque acordou inspirada. O Abel não tomou oito jogos de suspensão para dar entrevista bonita. Tem alguma coisa errada no apito brasileiro, e essa coisa não vai sumir porque a CBF prefere mandar nota oficial bem-escrita do que mexer no problema.

A roleta vai girar de novo na quarta

Quarta tem rodada do meio de semana. Vai ter erro novo, polêmica nova, súmula nova, denúncia nova. Vai ter Wagner Reway saindo para "esclarecer" no programa do Galvão e vai ter Marco Aurélio Cunha fingindo que está tudo sob controle. Vai ter clube apagando tweet, jogador comentando "kkkk" em post de rival, e treinador chamando árbitro de qualquer coisa que rime com "mascarado".

E na próxima segunda eu volto aqui para escrever a mesma coluna com nomes diferentes. Porque o Brasileirão pode até ser o melhor produto do esporte brasileiro, mas a CBF segue tratando o apito como detalhe administrativo. Enquanto isso, a torcida do Vitória descobriu uma forma nova de protestar — e tenho a impressão de que outras vão copiar. Vamos ver quanto tempo leva até o hino ficar sem ninguém olhando.

Perguntas frequentes

Por que a torcida do Vitória virou as costas durante o hino nacional?
Foi um protesto contra os erros recentes de arbitragem nas partidas do Vitória diante de Flamengo e Athletico-PR. O ato aconteceu antes de Vitória 4x1 Coritiba, no Barradão, em 02 de maio.
O que Fernando Diniz falou sobre o árbitro de Mirassol x Corinthians?
Diniz chamou o árbitro Matheus Delgado Candançan de 'mascarado' durante o jogo no Maião, em 03 de maio, após reclamar de não conseguir falar com o juiz.
Como ficou Mirassol x Corinthians?
Mirassol venceu por 2 a 1, com gols de Carlos Eduardo (pênalti) e Edson Carioca; Dieguinho descontou no segundo tempo. O resultado mandou o Corinthians de volta ao Z4 do Brasileirão.
O protesto da torcida do Vitória pode gerar punição?
Sim. O árbitro Rafael Klein registrou o ato em súmula e o caso pode ser analisado pelo STJD, com risco real de punição financeira ou interdição parcial do estádio.

Fonte: Lance, ge.globo, Bahia Notícias, CNN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.