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O Botafogo tá no classificado: a fatura da ganância de Textor

A SAF do Botafogo foi colocada à venda no Financial Times por credores britânicos. Como um dos maiores campeões da América chegou a este vexame?

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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O Botafogo tá no classificado: a fatura da ganância de Textor
SAF do Botafogo colocada à venda pelos credores da Eagle Football — Foto: Reprodução / ESPN Brasil

Pegou o jornal na sexta-feira de manhã e leu: "Botafogo, um dos clubes mais históricos do Brasil, à venda". Não foi o Lance!, não foi a Gazeta Esportiva, não foi o torcedor raivoso no X. Foi o Financial Times. Em anúncio publicado pela Cork Gully LLP — consultoria britânica nomeada pelos credores da Eagle Football para administrar os ativos de John Textor —, o Botafogo virou classificado de jornal inglês.

É, caro leitor. Não tem como suavizar. O tricampeão da América de 2024, campeão do Brasileirão, foi colocado à venda num aviso entre os comunicados de falência londrinos, ao lado do Olympique Lyonnais e do RWDM de Bruxelas. Se a história não fosse tão trágica, seria comédia.

Como se vende um campeão da Libertadores

O mecanismo que levou a essa humilhação tem nome técnico: "garantia flutuante qualificada". Em linguagem humana: a Ares Management, fundo americano que emprestou US$ 450 milhões a Textor em 2022 para que ele comprasse o Lyon, tinha no contrato uma cláusula que permite tomar o controle dos ativos da Eagle sem ir a tribunal quando o devedor não paga. E Textor não pagou.

Com juros PIK — aqueles que não exigem desembolso mensal, mas se acumulam sobre o principal — a dívida original de US$ 547 milhões virou US$ 1,2 bilhão em menos de quatro anos. Vinte por cento ao ano de juros compostos transforma qualquer número em monstro. Em 27 de março de 2026, a Ares ativou a garantia e nomeou a Cork Gully como administradora da Eagle Bidco. Duas semanas depois, o Botafogo estava no classificado do Financial Times.

A gente já analisou os números da queda do clube antes da eliminação na Libertadores. O que veio depois foi pior do que qualquer tabelinha.

Os números que dão náusea

O laudo da consultoria Meden, divulgado em abril, joga luz no rombo: R$ 2,7 bilhões de dívida total, com R$ 1,6 bilhão de vencimento no curto prazo. O patrimônio líquido da SAF é negativo em R$ 427,2 milhões. Se venderem tudo hoje, não cobrem nem o que devem.

Para piorar: investigações apontam que cerca de R$ 745 milhões em receitas do Botafogo — prêmios da Libertadores, receitas comerciais de 2024 — foram transferidos ao Lyon para tapar os buracos do clube francês. O Botafogo entrou com ação judicial na França pedindo a devolução de €125 milhões. O Lyon chamou a cobrança de "populista". Isso mesmo: o dinheiro que o Botafogo ganhou campeão da América foi pagar dívida de francês.

E tem mais: o clube acumulou um ban de transferências da FIFA por não honrar os US$ 43,1 milhões do passe de Igor Jesus. Textor colocou US$ 22,5 milhões do próprio bolso para resolver o imbróglio — mas a origem desse dinheiro é questionada pelos credores.

Seis grupos interessados na compra, segundo o clube associativo: quatro estrangeiros, dois brasileiros. BTG Pactual com mandato para buscar compradores. Propostas circulando entre R$ 350 milhões e R$ 700 milhões.

A defesa de Textor não convence ninguém

O americano diz que foi vítima de uma "ação predatória da Ares" e que os defaults foram "de natureza técnica, provocados pelo próprio credor". Também alega que o modelo de caixa único entre os clubes era de conhecimento de todos e que ele "ressuscitou o Botafogo da falência".

Vou traduzir: Textor jogou bilhões de reais de outros no baralho e agora reclama que o carteador roubou.

A Ares não é clube de beneficência. É um fundo de crédito privado com mais de US$ 400 bilhões sob gestão. Quando você pega dinheiro a 20% ao ano com garantia flutuante sobre todos os seus ativos, não existe versão alternativa em que o credor "age de má-fé" ao executar a garantia quando o devedor não paga. Isso se chama cláusula contratual. É o que está escrito no papel que Textor assinou com as próprias mãos.

O Botafogo Associativo, que ficou em silêncio por tempo demais, finalmente falou — e falou duro: "O cenário hoje observado está aquém das expectativas" e "a situação é significativamente mais complexa e grave do que inicialmente apresentada". Tem Assembleia Geral Extraordinária marcada para 20 de abril no Nilton Santos. Agora vamos ver se palavras viram ação.

O que o Botafogo precisa de verdade

Comprar a SAF com R$ 2,7 bilhões de dívida e PL negativo não é negócio simples. O comprador que aparecer vai querer abatimento gigantesco no preço ou condições específicas para absorver o passivo. E vai ter de negociar não só com o Botafogo Associativo, mas com a Ares, com a Cork Gully, com os credores da Iconic Sports, com a GDA Luma Capital e ainda enfrentar o Textor — que mantém controle operacional da SAF por liminar da Justiça do Rio.

É possível ter saída? Sim. É simples? Longe disso.

O Botafogo virou campeão da Libertadores com um modelo construído sobre dívida empilhada em cima de dívida, com dinheiro que nunca foi do clube, gerenciado a partir de Londres por um homem que entendia mais de manchete do que de fluxo de caixa. A conta chegou. Veio com endereço em inglês e publicada no jornal mais respeitado do mundo dos negócios.

O maior erro que a torcida pode cometer agora é querer que o próximo dono seja parecido com o anterior: carismático, barulhento e cheio de promessas. O Botafogo precisa de gestor sério, de balanço limpo e de quem entende que clube de futebol não é portfolio de fundo de hedge.

Senão, daqui a quatro anos, vai ter outro anúncio no Financial Times. E aí nem eu vou ter mais palavra de conforto.

Fonte: O Globo (Lauro Jardim), ESPN Brasil, FogãoNET, Gazeta Botafogo | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.