Brasileirão em seis telas: o torcedor paga a conta
A rodada 27 põe seis jogos no sábado, em horários e plataformas diferentes. Neide Ferreira vê uma agenda atraente, mas uma experiência que exige mais assinaturas do que paciência.
Neide Ferreira5 min de leitura
As transmissões do Brasileirão na rodada 27 transformaram este sábado em uma gincana de controles remotos, aplicativos e senhas. São seis jogos da Série A entre 16h e 21h. Futebol não falta; o que falta é a delicadeza de permitir que o sujeito acompanhe o campeonato sem precisar montar uma central de atendimento na sala.
A CBF detalhou as rodadas 27 a 30 com datas, locais, horários e transmissões. A tabela oficial organiza a rodada. Quem a desorganiza para o torcedor é o caminho até a tela: há partida no Premiere, outra no Prime Video, uma combinação de Premiere e SporTV e, no caso de Chapecoense x Internacional, opções em Premiere, Record e CazéTV.
Não estou reclamando de haver jogos. Isso seria uma indignidade. Eu reclamo do absurdo de o campeonato mais importante do país fazer o fã perguntar antes do apito inicial: “onde, afinal, eu tenho de estar logado?”.
Transmissões do Brasileirão viraram mapa de assinaturas
O sábado começa às 16h com Atlético-MG x Fluminense e Grêmio x Vasco, ambos no Premiere. Às 17h, Chapecoense x Internacional aparece no Premiere, na Record e na CazéTV. O Palmeiras x São Paulo, às 18h30, também está no Premiere; o próprio portal já explicou a restrição de público no Gol Norte do clássico, uma preocupação extra para quem vai à arena.
Depois, a maratona continua: Botafogo x Bragantino, às 20h30, no Prime Video; Santos x Cruzeiro, às 21h, no SporTV e no Premiere. A lista do ge para a 27ª rodada e a agenda publicada pela Itatiaia coincidem nesses seis confrontos e horários.
Perceba a pequena obra de engenharia doméstica. Quem quer ver a rodada inteira precisa saber que Atlético e Fluminense brigam por três pontos também no mesmo horário de Grêmio e Vasco; precisa escolher entre os dois, ou usar duas telas. Depois precisa trocar de plataforma para Botafogo x Bragantino. E se quiser acompanhar a última partida da noite, volta ao pacote esportivo. O torcedor não assiste a uma rodada; ele administra uma carteira de serviços.
Concorrência só vale quando facilita a vida
“Mas Neide, concorrência é boa.” É, minha filha. Pode trazer investimento, melhorar a transmissão e acabar com a velha sensação de que uma única emissora tinha a chave do portão. Record e CazéTV na partida da Arena Condá são um exemplo interessante: mais de uma porta de entrada amplia a chance de o jogo chegar a quem não assina todas as plataformas.
O problema não é ter mais de um parceiro. O problema é cada parceiro virar um pedágio isolado. Competição entre empresas deveria dar ao público mais escolhas reais, não a obrigação de decorar qual partida mora em qual aplicativo. Se a programação fosse pensada do lado de cá do sofá, o guia da rodada seria simples: horário, jogo e opção acessível. Hoje ele parece o manual de instrução de um roteador.
Também não basta responder que ninguém é obrigado a ver tudo. Claro que não. Ninguém é obrigado a acompanhar a briga do Fluminense no G-4, o aperto de Grêmio e Vasco na parte de baixo, o clássico paulista e a noite de Santos x Cruzeiro. Mas é exatamente essa rede de histórias simultâneas que faz o Campeonato Brasileiro ser campeonato, e não uma coleção de produtos avulsos.
A rodada 27 merece uma vitrine, não um labirinto
Há assunto de sobra no campo. Antes do sábado, a classificação oficial da CBF colocava Flamengo e Palmeiras separados por um ponto no topo, enquanto Grêmio, Vasco, Internacional e Chapecoense entravam em jogos importantes para suas campanhas. É por isso que uma rodada cheia merece ser fácil de encontrar: cada resultado muda o humor de uma cidade e pode empurrar outra equipe para cima ou para baixo.
Para não se perder nos horários, a página interna de jogos da semana reúne a agenda do portal, e a tabela do Brasileirão ajuda a separar a expectativa do que de fato mudou depois de cada apito final. Informação bem organizada não substitui uma transmissão disponível, mas já evita que o torcedor descubra aos 21h20 que o jogo que queria ver estava em outra assinatura.
Minha proposta não tem mistério nem precisa de reunião com cafezinho e PowerPoint. Em toda rodada com divisão de direitos, a liga e os detentores deveriam oferecer um guia único, visível e atualizado, com canais, plataformas e alternativas abertas quando existirem. Mais ainda: as partidas de interesse amplo precisam ter portas menos estreitas. Não é caridade; é construção de público.
O futebol brasileiro vive dizendo que quer ser produto global. Ótimo. Só não esqueçam que produto bom não trata quem ama o campeonato como caça ao tesouro. A bola rola em seis estádios neste sábado. Que ela não obrigue o torcedor a correr por seis balcões antes de chegar à arquibancada — mesmo que a arquibancada seja a do sofá.
Fonte: CBF, ge e Itatiaia · informações adicionais por Beira do Campo
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