O melhor do futebol brasileiro, todos os dias
Beira do Campo
BEIRADO CAMPO
Opinião

Neide: Ancelotti cedeu ao circo e levou Neymar à Copa

Carlo Ancelotti passou nove meses repetindo que Neymar precisava estar 100%. Na segunda-feira, decidiu que 686 minutos no Brasileirão eram o bastante. Quem desistiu da própria régua foi o técnico, não o jogador.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
6 min de leitura
Neide: Ancelotti cedeu ao circo e levou Neymar à Copa
Neymar volta à Seleção Brasileira após dois anos e sete meses — Foto: Reprodução / Wikipedia

Carlo Ancelotti passou nove meses pregando uma régua só. Convocação atrás de convocação, o italiano repetiu o roteiro: Neymar não estava 100%, Neymar precisava jogar, Neymar tinha que provar. Em março, na última lista antes do Mundial, o técnico chegou a dizer, com cara de paisagem, que faltava pouco para o camisa 10 do Santos. Faltava, e segue faltando — só que agora a régua mudou. Na segunda-feira, no Museu do Amanhã, Ancelotti virou as costas para a própria régua, baixou a cabeça e levou Neymar para a Copa do Mundo de 2026. Quem fez o pôquer dessa vez foi o treinador.

E não me venham com aquela conversa de que Neymar mereceu, jogou bonito ou ressuscitou nas últimas semanas. Eu acompanho a planilha. Em 2026, considerando todas as competições do Santos, o camisa 10 fez seis gols e três assistências em treze partidas — entre amistoso de pré-temporada, Paulistão eliminado cedo e Brasileirão. Só na Série A, são quatro gols, duas assistências e cinco amarelos em 686 minutos de jogo. Isso dá menos de oito partidas completas. É com essa amostra que o Brasil vai apostar na Copa? É com essa planilha que se justifica abrir mão de um jogador como o Lucas Paquetá, que está em campo todo final de semana na Premier League?

Ancelotti sabia o que estava fazendo. E fez assim mesmo

A grande tragédia desta convocação não é a presença de Neymar. É o próprio Ancelotti se transformando naquilo que ele jurou que nunca seria. Ele veio da Europa com fama de pulso firme, de quem mandou Cristiano embora do Real Madrid, de quem não cedia a nenhum marqueteiro da CBF. A propaganda institucional dizia: "Carlo é diferente, Carlo é técnico, Carlo manda no vestiário". Mentira completa. Carlo é tão sensível ao circo quanto qualquer outro estrangeiro que pisa em Brasília.

Mauro Cezar Pereira, que não é exatamente um militante anti-Neymar, sintetizou no Cartão Verde a sensação que ficou: "decepcionante ver um técnico de primeira prateleira se submeter ao circo". O nome técnico disso é capitulação. Ancelotti tinha duas vagas livres na lista — uma se tornou de Endrick (justíssima), a outra virou a de Neymar, em detrimento de um zagueiro reserva ou de um meia que poderia render minutos de verdade. A CBF ganhou seu pôster, a Nike ganhou seu álbum, a torcida ganhou seu "oba-oba" e o Brasil, pelo segundo Mundial seguido, vai jogar com o time desenhado em torno de um problema, não de uma solução.

"Atacante centralizado" é a senha para esconder a verdade

Perguntado sobre o uso tático do camisa 10, Ancelotti soltou a pérola da semana: Neymar jogará "como um atacante mais centralizado". Traduzindo do italiano emboldorado para o português direto da Neide: ele não tem mais perna para ser ponta, não corre o lateral todo, não desce para marcar — então o técnico vai escondê-lo no meio do gramado, perto da área, esperando faísca. É a função do número 10 clássico, de antes da pressão alta, do contra-ataque vertical e dos atacantes que sprintam 12 quilômetros por jogo. É a função de 1998.

O problema é que o futebol de 2026 não é mais o de 1998. Marrocos, primeiro adversário do Brasil em 13 de junho, fez semifinal de Copa pressionando como bicho. A Escócia, terceira do grupo, joga com seis volantes em campo. E o time canarinho, se quiser passar das oitavas, vai precisar de jogadores que entreguem 90 minutos de pressão. Igor Thiago, convocado depois de virar artilheiro brasileiro na Europa, entrega isso. Rayan, do Bournemouth, entrega isso. Endrick, mesmo morando no banco do Lyon, entrega isso quando entra. Neymar, com a folha corrida de lesões dos últimos três anos, não tem como entregar.

A história já mostrou onde isso termina

Mauro Cezar comparou esta convocação ao desastre do Brasil em Weggis, na Copa de 2006. Faz sentido a comparação? Mais do que faz. Em 2006, Parreira levou os Quatro Fantásticos (Ronaldo, Ronaldinho, Adriano e Kaká), montou um time em torno de individualidades cansadas e perdeu para a França nas quartas, na partida em que Zidane passeou no meio-campo. Era uma seleção fora de forma, sem identidade tática, escolhida pelo nome no álbum. Não me digam que isso aqui não está parecido. Não me digam que a aposta no improvável não é exatamente a mesma.

A diferença é que, em 2006, Parreira pelo menos tinha um Ronaldo Fenômeno fazendo gol de meia volta no Gana. Aqui, o melhor do Neymar na temporada foi o gol no Vasco em fevereiro. De lá pra cá, foi joelho engessado, lance de pôquer durante derrota na Toca da Raposa, brincadeira machista com árbitra, rasteira em colega de 17 anos no CT e mais cartões do que participações em gol nas últimas quatro partidas como titular. É essa a referência técnica que o Brasil leva para os Estados Unidos? É esse o cara em quem Vinícius Júnior, Raphinha e Matheus Cunha vão ter que confiar na hora do mata-mata?

A CBF venceu. De novo

No fim das contas, esta convocação não é sobre Neymar. É sobre quem manda na Seleção. E ficou claro, na segunda-feira, que quem manda continua sendo a Avenida Luís Carlos Berrini — com seus patrocinadores, seus contratos publicitários e seu eterno medo de soltar a mão do astro que vende camisa. Ancelotti, com seus 24 milhões de euros de salário anual, podia ter dito não. Tinha capital político, prestígio europeu e uma régua técnica clara. Preferiu seguir o roteiro da casa.

Tomara que eu esteja errada. Tomara que Neymar acorde em julho, jogue como em 2014 antes da coluna trincada e leve o Brasil ao hexa. Mas se a Copa terminar de novo nas quartas, com a Seleção fora antes de um Mundial sediado a três fusos da América do Sul, ninguém venha dizer que faltou aviso. Ele veio. Veio várias vezes. Inclusive aqui, há quinze dias. E o italiano da prateleira de cima continuou olhando para o outro lado.

Quem cedeu foi ele. Quem paga somos nós.

Perguntas frequentes

Neymar foi convocado para a Copa do Mundo 2026?
Sim. Ancelotti incluiu Neymar entre os 26 convocados anunciados em 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio. É o retorno do camisa 10 à Seleção após dois anos e sete meses.
Em que posição Neymar vai jogar na Copa?
Ancelotti disse que pretende usar Neymar como atacante mais centralizado, e não mais como ponta. O técnico não confirmou se ele começa como titular ou opção do banco.
Quais são os números de Neymar pelo Santos em 2026?
Em 2026, Neymar soma seis gols e três assistências em 13 partidas considerando todas as competições. Só no Brasileirão, foram quatro gols, duas assistências e cinco cartões amarelos em 686 minutos.
Quando o Brasil estreia na Copa do Mundo 2026?
A estreia é em 13 de junho, às 19h (Brasília), contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O Brasil está no Grupo C, ao lado de Haiti e Escócia.

Fonte: CNN Brasil, Lance, Olympics.com | Informações adicionais por Beira do Campo

#selecao-brasileira#copa-do-mundo-2026#neymar#ancelotti#opiniao
Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.