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Critério duplo para Neymar: honestidade ou hipocrisia, Ancelotti?

Ancelotti mandou Neymar embora por falta de condição física, mas admitiu que vai usar 'critério diferente' pra Copa. Chama pelo nome, técnico: isso é exceção, sim.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
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Critério duplo para Neymar: honestidade ou hipocrisia, Ancelotti?
Ancelotti anuncia convocação da Seleção para Data FIFA de março — Foto: Reprodução / ESPN Brasil

Neymar ficou fora. Ancelotti foi direto: "Não está 100% fisicamente. Preciso de jogadores a 100%." Discurso bonito, coerente, técnico. Só que aí o mesmo Ancelotti abriu a boca e disse que pode adotar um "critério diferente" para a convocação final da Copa. E tudo aquilo desmoronou.

Critério diferente. Alguém me explica o que é isso em linguagem humana, porque eu entendi como "Neymar pode vir mesmo sem estar a 100%." Se eu errei a interpretação, o técnico tem a obrigação de esclarecer. Mas se eu acertei — e acertei — então o Brasil merece uma conversa honesta, não essa dança de eufemismos.

A convocação anunciada hoje traz nomes interessantes, Rayan, Endrick de volta, jovens com energia e fome. Mas ninguém vai falar deles amanhã. Todo mundo vai falar de Neymar. E parte da culpa disso é do próprio Ancelotti, que poderia ter calado a boca sobre o tal critério diferente e não calou.

O que Ancelotti disse — e o que ficou nas entrelinhas

A lógica oficial é simples: Neymar não está em condição física de treinar no nível exigido para amistosos de Data FIFA. Fim. Respeitável. Até aqui, sem problema.

O problema é o complemento. Ancelotti admitiu que a avaliação técnica de Neymar é positiva — "com bola ele está muito bem." E então veio o veneno: a porta para a Copa permanece aberta, com um critério que pode ser ajustado.

Traduzindo para o português real: "Se ele melhorar um pouquinho, eu levo." Quantos jogadores que treinam 100% da temporada não vão receber esse mesmo benefício da dúvida? Nenhum.

Isso não é julgamento moral. É uma observação de desigualdade de tratamento que Ancelotti deveria ao menos admitir abertamente, em vez de usar termos vagos que deixam tudo no ar.

Os números justificam um tratamento especial?

Vamos à matemática bruta. Neymar acumula mais de 20 meses com problemas físicos graves. A última vez que ele foi relevante em uma Copa do Mundo foi no Qatar em 2022 — e o Brasil caiu nas quartas contra a Croácia nos pênaltis, com Neymar batendo o quarto e o último.

O Brasil que vai entrar em campo em julho não precisa de um ícone. Precisa de jogadores que aguentem 90 minutos por sete jogos consecutivos, com pressão máxima, num torneio em casa com 220 milhões de torcedores na nuca.

Vinicius Jr. está entre os melhores do mundo. Endrick, com 20 anos, voltou à lista. Savinho brilha no City. Há jovens com capacidade técnica real para fazer a Copa acontecer sem depender de um atleta que talvez nem chegue pronto a julho.

Os números da Seleção para a Copa mostram que o Brasil já tem ofensiva de alto nível mesmo sem Neymar. O que falta é encaixe, e isso só vai acontecer com jogadores disponíveis e saudáveis.

O contra-argumento que a torcida vai me jogar na cara

Sim, eu sei. Quando Neymar está bem, ele é diferente de tudo que o futebol tem a oferecer. Ele distorce o jogo. Ele arrasta marcação dupla e abre espaço para os outros. Ele resolve sozinho quando tudo está perdido.

Esse argumento existe. É legítimo. E é exatamente por isso que o debate sobre levá-lo a 80% em vez de não levá-lo a 100% tem mérito real.

Mas o ponto não é se Neymar vai ou não vai. O ponto é transparência. Se Ancelotti já decidiu que vai convocar Neymar para a Copa independentemente do percentual físico, que diga isso. A torcida aguenta a verdade. O que não aguentamos é discurso de critério técnico rigoroso de manhã e "critério diferente" de tarde.

O Brasil que a Copa pede

A Copa do Mundo em casa, em julho de 2026, é a maior pressão que uma geração de jogadores brasileiros já vai enfrentar. Não cabe ambiguidade no critério de seleção. Não cabe linguagem escorregadia sobre quem merece uma exceção.

Se Neymar chegar a 100% — ótimo, ponto final, leva. Se não chegar, Ancelotti precisa ter a coragem de deixá-lo em casa, mesmo com o barulho. Porque levar um jogador lesionado para a Copa em casa, na esperança de que tudo dê certo, é a receita mais conhecida para transformar esperança em tragédia.

Critério duplo tem nome: chama-se exceção. Não é necessariamente errado. Mas dizer que não é o que é — isso sim é errado.

Pode me chamar de dura. Mas foi Ancelotti quem começou.

Fonte: ESPN Brasil | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.