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Beirado Campo
Opinião

Mercado da bola 2026: os grandes pararam, os pequenos agiram

A pausa da Copa era a chance de ouro para corrigir elencos. Mirassol trouxe seis, Cruzeiro abriu o cofre, Fluminense pegou Hulk e Thiago Silva. Flamengo, Corinthians, Botafogo e Santos voltam no dia 22 com exatamente o mesmo time que deixou o campo em junho.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
Mercado da bola 2026: os grandes pararam, os pequenos agiram
Ilustração — a pausa da Copa acabou e quatro dos maiores clubes do país voltam ao Brasileirão sem nenhum reforço anunciado

Quem tinha dinheiro não gastou e quem não tinha se virou. Esse é o resumo da pausa da Copa do Mundo no mercado brasileiro, e é por isso que eu não quero ouvir choro em agosto. O Brasileirão volta no dia 22, pela 19ª rodada, e quatro dos clubes de maior torcida e maior orçamento do país — Flamengo, Corinthians, Botafogo e Santos — chegam lá com exatamente o mesmo elenco que estava em campo antes do intervalo. Enquanto isso, o Mirassol, que briga contra o rebaixamento e tem uma fração da receita desses gigantes, trouxe seis jogadores.

Os números não deixam ninguém mentir

O balanço da pausa é constrangedor para quem se acha grande. Quinze clubes da Série A anunciaram reforços. O saldo geral da elite foi negativo: mais saídas do que chegadas, 51 contra 38. Ou seja, o Brasileirão volta com menos futebol do que tinha, e a conta não foi dividida igualmente.

O Cruzeiro foi quem mais abriu o cofre, cerca de R$ 90 milhões em Gabriel Rojas e Gabriel Pec. O Fluminense fez o movimento mais barulhento em termos de nome: pegou Hulk no Atlético-MG e Thiago Silva no Porto, dois jogadores que resolvem partida e vestiário ao mesmo tempo. O Bahia foi buscar Alejo Véliz no Tottenham. O Vitória fez meia dúzia de negócios. O Vasco foi o único a mexer no banco, trocando Renato Gaúcho pelo português Pedro Emanuel. Até o Grêmio contratou o único atleta que disputou a Copa de 2026 a assinar com clube brasileiro nesta janela, o cabo-verdiano Jovane Cabral.

Quatro times gigantes assistiram a tudo isso de camarote. A janela oficial abre em 20 de julho e vai até 11 de setembro, então tecnicamente ainda dá tempo. Mas quem começa a rodada 19 sem reforço e só assina em agosto perde jogo, perde ponto e perde a chance de o jogador chegar inteiro.

O Corinthians não escolheu ficar parado

Aqui é preciso separar as coisas, e eu faço questão de separar. Flamengo, Botafogo e Santos ficaram parados porque decidiram ficar parados. O Corinthians ficou parado porque a FIFA mandou.

O clube levou um novo transfer ban por dívidas acumuladas com outros clubes, entre elas valores devidos ao Philadelphia Union pela contratação de José Martínez, e está impedido de registrar atletas por tempo indeterminado. A diretoria negociava com o atacante Wesley, cria da casa hoje no Al-Nassr, e com o meia Arthur, e viu tudo travar. O que ainda pode fazer é renovar quem já está lá — e é exatamente por isso que o prazo de 31 de julho para resolver a situação de Memphis Depay virou uma questão de sobrevivência esportiva, não de vaidade.

Isso é castigo por má gestão financeira, não azar. E é um castigo que se repete: não é o primeiro transfer ban da casa. Um clube do tamanho do Corinthians ser proibido de contratar por não pagar o que deve é um atestado que nenhuma camisa pesada consegue esconder.

Do outro lado, tem gente que não podia errar

O Mirassol é o exemplo que devia envergonhar os grandes. Time com orçamento pequeno, ameaçado de rebaixamento, fez seis contratações e quatro saídas. Não porque tem dinheiro sobrando, mas porque entendeu uma coisa simples: quem está no fundo da tabela não tem o luxo de esperar. A pausa da Copa foi o único momento do calendário em que dava para reconstruir um elenco sem estar jogando a cada três dias, e eles usaram.

O Santos vive um caso à parte, com o futuro de Neymar ainda em aberto na reapresentação e uma dependência doentia de um jogador só. Contratar, ali, não era capricho: era diluir risco. Não fizeram.

O contra-argumento existe, e eu conheço

Vou ser justa. Tem gente inteligente defendendo a inércia, e o argumento não é ridículo.

Contratar mal é pior do que não contratar. Elenco cheio de jogador fora do projeto vira folha salarial impagável e vestiário rachado. O Flamengo, especificamente, fez uma pré-temporada em Portugal, empatou com o River Plate, venceu Lausanne e Benfica, levou o Troféu Algarve e tem trabalhado num perfil mais jovem de reforço, com nomes como o meia Zé Lucas, de 18 anos, do Sport. Quem defende a estratégia dirá que é melhor esperar o alvo certo do que gastar por gastar em julho, com preço inflacionado de janela aberta.

Aceito o raciocínio. Não aceito o resultado. Porque paciência de mercado só é virtude quando o elenco atual dá conta do recado, e o segundo turno do Brasileirão de 2026 não perdoa: são jogos decisivos, com desgaste acumulado de uma temporada partida ao meio, e qualquer lesão em posição carente vira crise em duas semanas. Esperar o alvo perfeito enquanto o rival contrata dois titulares não é sofisticação, é aposta.

O que eu acho de tudo isso

A pausa da Copa foi o presente mais generoso que o calendário brasileiro já deu a esses clubes: quase um mês para respirar, avaliar e corrigir. O Cruzeiro corrigiu. O Fluminense corrigiu. O Mirassol, que tem menos motivo para acreditar em si mesmo do que qualquer um deles, corrigiu com sobra.

Flamengo, Botafogo e Santos escolheram não corrigir e vão ter que provar em campo que a escolha era boa. O Corinthians nem escolha teve, e essa é a parte mais triste da história. Quando a 19ª rodada começar no dia 22 e a tabela voltar a doer, a torcida vai cobrar contratação. A resposta honesta vai ser que o tempo de contratar era agora, e passou.


Fonte: Lance! · CNN Brasil

Fonte: Lance!, Band, NN1, CNN Brasil · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.