Kerolin no Barça: o recado que o Brasil não pode ignorar
A transferência recorde de Kerolin para o Barcelona é uma conquista enorme. O problema é o Brasil ainda precisar de um selo europeu para enxergar o tamanho de uma de suas melhores jogadoras.
Neide Ferreira5 min de leitura
Kerolin no Barça não é só uma boa notícia para a Seleção Brasileira. É também um bilhete amassado deixado na mesa do futebol brasileiro: acorda, meu filho. A atacante assinou até 2030 depois de uma transferência de 1,2 milhão de euros fixos, mais variáveis, do Manchester City para o Barcelona. É o maior investimento da história do time feminino catalão, segundo o El País.
E aqui nós ainda estamos descobrindo que ela merece manchete.
Não me venham com o papo de que toda brasileira que vai para a Europa recebe atenção. Recebe uma nota, um post bonito, talvez uma foto de apresentação. Atenção de verdade é acompanhar o que a jogadora faz antes de o clube rico abrir a carteira. É transmitir, debater, cobrar estrutura e conhecer a atleta antes de ela vestir uma camisa azul-grená. Kerolin não nasceu na recepção do Barcelona.
Kerolin no Barça é um preço, não uma descoberta
O valor ajuda a dimensionar a operação, mas não inventa a jogadora. Kerolin já era internacional brasileira, campeã inglesa com o City e uma atacante de velocidade, drible e agressividade no um contra um. A própria CBF relembrou em junho o caminho que ela percorreu desde a estreia pela Seleção, em 2018, até se firmar no cenário internacional.
O Barcelona não pagou uma fortuna por uma promessa recém-saída de uma vitrine. Pagou por uma jogadora pronta, com repertório e ambição. Na apresentação, Kerolin disse que via no clube a chance de ficar mais perto de ser a melhor do mundo. Que ótimo. Jogadora brasileira não tem de pedir desculpa por querer o topo; tem de ser cobrada para chegar lá.
Mas há uma diferença incômoda entre celebrar a transferência e terceirizar o nosso olhar. Quando o futebol feminino brasileiro só vira assunto porque Barcelona, Manchester City ou uma Copa do Mundo carimbam a importância de uma atleta, o problema não é falta de talento. É preguiça editorial e econômica de quem trata a modalidade como rodapé até a Europa dar o aval.
O Brasil ainda assiste de longe demais
O nosso campeonato tem clubes organizados, torcidas gigantes e jogadoras que merecem ser conhecidas fora da semana de seleção. Mesmo assim, a cobertura segue no modo evento: aparece numa final, se emociona numa convocação e evapora no mês seguinte. Quem acompanhou Corinthians x Ferroviária pelo Brasileiro Feminino sabe que há jogo, rivalidade e personagens suficientes para muito mais que uma programação ocasional.
Não estou pedindo caridade de audiência. Futebol feminino não precisa de elogio condescendente, aquele que começa em “apesar de”. Precisa de agenda, horário de transmissão, análise que não fale com o público como se estivesse explicando uma novidade exótica e dinheiro que não suma depois da campanha publicitária de março.
Também precisa que clubes parem de tratar a equipe feminina como apêndice simpático da marca. Centro de treinamento, departamento médico, comunicação e planejamento não são brindes. São o básico para que mais atletas tenham desenvolvimento sem depender de uma mudança de continente para finalmente trabalhar na melhor estrutura possível.
O contra-argumento tem cara de desculpa
“Mas o mercado europeu paga mais.” Claro que paga. E continuará pagando enquanto investe mais, vende mais produto e protege melhor as suas competições. Isso explica a ida de Kerolin; não absolve a acomodação daqui.
Há quem prefira transformar a saída em derrota nacional. Bobagem. Uma brasileira brilhando no Barcelona amplia a presença do país num dos palcos mais observados do futebol e fortalece a própria Seleção. O erro seria usar essa transferência para decretar que só existe carreira séria longe do Brasil. Não existe contradição entre comemorar a ascensão de Kerolin e exigir que o futebol local seja um lugar onde outras Kerolins possam crescer com visibilidade e respeito.
Veja o que acontece quando há atenção antes do apito inicial: a cobertura de Botafogo x Fluminense feminino coloca horário e transmissão na mão de quem quer assistir. Parece pouco? É assim que se forma hábito. Primeiro o torcedor encontra o jogo; depois cria vínculo; então passa a cobrar qualidade. Não há milagre nessa conta, só trabalho repetido.
A comemoração só vale se virar cobrança
Kerolin chega ao Barcelona com contrato longo e uma cifra histórica. É uma vitória dela, das pessoas que a formaram e da Seleção que a projetou. Agora a parte menos fotogênica fica conosco: parar de esperar que a vitrine estrangeira nos diga quem merece atenção.
Hoje a manchete é a camisa do Barça. Amanhã, espero, seja um campeonato brasileiro tratado como produto principal, uma jovem recebendo condições para evoluir e uma torcida sabendo o nome das craques antes de vê-las embarcar. Kerolin não é uma descoberta europeia. É uma confirmação brasileira. Demorou, mas chegou com recibo.
Fonte: El País · informações adicionais por Beira do Campo
Quem escreve

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


