Fase de grupos da Copa 2026 virou conta de padeiro
A fase de grupos da Copa 2026 termina no sábado e Neide Ferreira já tem o veredito: o novo formato de 48 seleções transformou a primeira fase num exercício de calculadora. Só 16 times caem — exatamente as mesmas 16 da era de 32 seleções. Drama virou saldo de gols.


A fase de grupos da Copa 2026 se encerra neste sábado, dia 27, e eu já posso adiantar o veredito: ela perdeu a graça. Não porque os jogos foram ruins — teve coisa boa, teve gol de placa, teve zebra. Perdeu a graça porque o novo formato de 48 seleções transformou a primeira fase num exercício de calculadora. Com 32 times avançando para os 16 avos de final, sobrou frio na barriga para pouca gente. A maioria das seleções entrou em campo na terceira rodada sabendo que, para cair, precisaria de um desastre matemático. Isso não é mata-mata da emoção. Isso é conta de padeiro.
A conta que não fecha a favor da emoção
Vamos aos números, porque eles não mentem. São 48 seleções, divididas em 12 grupos de quatro. Passam os dois primeiros de cada chave — 24 times — mais os oito melhores terceiros colocados. Soma 32. Ou seja: de 48 convidados, só 16 vão para casa depois da primeira fase.
Agora me acompanha no pulo do gato. Na Copa de 32 seleções, aquela que a gente conheceu de 1998 a 2022, também eram exatamente 16 eliminados na fase de grupos. Dezesseis entravam, dezesseis saíam, meio a meio. A FIFA aumentou o torneio em 50%, encheu o calendário com 104 jogos em 39 dias, e continua mandando para o aeroporto a mesma quantidade de gente de sempre. A diferença é que antes a peneira eliminava metade do mundo. Agora elimina um terço. O resto avança quase de bicicleta.
Se você quer entender os detalhes da engenharia, eu já expliquei como funciona o formato de 48 seleções aqui no portal. Mas para o efeito desta coluna basta isto: a primeira fase deixou de ser eliminatória de verdade e virou triagem.
A fase de grupos da Copa 2026 premia quem não arrisca
Eu avisei na estreia, quando quatro jogos terminaram empatados e eu escrevi sobre o festival de empates que travou a Copa: o sistema dos oito melhores terceiros recompensa quem se tranca atrás. E na reta final ficou pior. Como os terceiros são desempatados por pontos e, em seguida, por saldo de gols, a última rodada deixou de ser sobre vencer e passou a ser sobre não tomar goleada.
Time que já garantiu a vaga poupa titular. Time que ainda sonha com a repescagem dos terceiros joga olhando para a tabela do grupo vizinho, calculando saldo de gols alheio. A tabela oficial da FIFA virou leitura obrigatória não pela beleza do futebol, mas pela aritmética da sobrevivência. Quando o torcedor precisa de uma planilha para saber se o time dele se classificou, alguma coisa morreu no caminho. E o que morreu foi o drama do tudo ou nada que fazia a fase de grupos valer a madrugada em claro.
O Brasil, aliás, é o retrato disso. Lidera o Grupo C com folga e decide a ponta contra a Escócia praticamente sem risco de eliminação — exatamente o cenário morno que critiquei quando disse que liderar o grupo ainda não era convencer.
O outro lado: o sonho de Cabo Verde existe
Sou opinativa, não sou injusta. Tem um contra-argumento forte, e eu mesma já o defendi nesta casa. Quando escrevi sobre a ganância da FIFA e o sonho das estreantes, bati o pé: ver Cabo Verde, com meio milhão de habitantes, pisando numa Copa do Mundo vale mais do que qualquer planilha de receita. A expansão abriu a porta para países que jamais sonhariam com isso, espalhou a festa por mais continentes e deu a meninada de nações pequenas um motivo para acordar cedo. Isso é lindo e eu não vou fingir que não é.
O problema é que inclusão e emoção não andaram juntas. Dava para incluir mais gente sem esvaziar o risco da primeira fase. Grupos de três, repescagem mais enxuta, menos vagas para terceiros — havia caminho. A FIFA escolheu o mais gordo, o que rende mais jogo, mais ingresso e menos eliminação. Generosidade com o calendário, avareza com a tensão.
Meu veredito
A fase de grupos da Copa 2026 entregou inclusão e tirou suspense, e eu fico com a parte amarga dessa troca. Festa de estreante eu aplaudo de pé; primeira fase sem frio na barriga eu cobro. O verdadeiro torneio começa só no dia 28, nos 16 avos, quando enfim alguém perde e vai embora de imediato. Até lá, a gente assiste a uma Copa que parece um aquecimento de três semanas.
Quero estar errada. Quero que os 16 avos sejam um espetáculo e que ninguém lembre desta reclamação. Mas, da próxima vez que a FIFA quiser aumentar a festa, que aumente também o castigo. Copa do Mundo sem medo de cair não é Copa do Mundo. É amistoso de luxo com hino antes.
Perguntas frequentes
- Quantas seleções avançam na fase de grupos da Copa 2026?
- Avançam 32 seleções: os dois primeiros de cada um dos 12 grupos e os oito melhores terceiros colocados.
- Quando termina a fase de grupos da Copa do Mundo 2026?
- A primeira fase vai de 11 a 27 de junho de 2026. Os 16 avos de final começam em 28 de junho.
- Quantas seleções são eliminadas na primeira fase da Copa 2026?
- Apenas 16 das 48 seleções caem na fase de grupos, o mesmo número eliminado nas Copas com 32 times.
- Como são escolhidos os oito melhores terceiros colocados?
- Os terceiros são ranqueados por pontos, depois saldo de gols e, por fim, gols marcados. Os oito melhores seguem vivos.
Fonte: FIFA, CNN Brasil, ESPN | Informações adicionais por Beira do Campo

Colunista
Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.


