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Europa na Copa 2026: o favoritismo que as Américas calam

Espanha, França e Inglaterra lideram as cotações, mas em oito Copas disputadas nas Américas a Europa venceu só uma vez. Some calor extremo e a altitude do Azteca, e o favoritismo europeu de 2026 fica bem menos confortável do que as casas de apostas sugerem.

Marcos Vinícius Santos
Marcos Vinícius Santos
5 min de leitura
Europa na Copa 2026: o favoritismo que as Américas calam
Ilustração — o sol a pino dos estádios das Américas vira adversário invisível das seleções europeias na Copa 2026

Toda sexta esta coluna cruza o Atlântico para olhar o futebol do velho continente, e nesta semana o retrato é desconfortável. A Europa na Copa 2026 desembarca como xodó das casas de apostas — Espanha, França e Inglaterra ocupam o pódio dos favoritos —, mas chega a um território que historicamente lhe vira as costas. Desde 1930, sempre que o Mundial foi jogado nas Américas, o continente europeu levantou a taça uma única vez. Uma. E 2026 ainda escala contra o europeu dois adversários que não constam na tabela: o sol a pino e a altitude.

Europa na Copa 2026 começa com o favoritismo nas cotações

As contas das casas de apostas são generosas com o velho continente. A Espanha campeã da Eurocopa aparece como a seleção a ser batida, com a França logo atrás e a Inglaterra de Thomas Tuchel fechando o trio de cabeça. As duas primeiras são apontadas como as candidatas mais prováveis a brigar pela final de 19 de julho. No papel, é a hegemonia de sempre: os elencos mais caros, as ligas mais fortes, a engenharia tática mais refinada do planeta.

A coluna já desfilou esse cardápio nas últimas semanas — da Espanha que dispensou Real Madrid e Barcelona e seguiu favorita à França de Mbappé e Deschamps, passando pela Inglaterra que carrega 60 anos de jejum nas costas. Cada uma com seu enredo, todas com o mesmo selo de favoritismo. O problema é que favoritismo no papel e taça na mão são coisas que o mapa-múndi insiste em separar.

A maldição das Américas que ninguém na Europa gosta de lembrar

Aos números, que são teimosos. O Mundial já foi disputado oito vezes em solo americano: Uruguai (1930), Brasil (1950), Chile (1962), México (1970), Argentina (1978), México (1986), Estados Unidos (1994) e Brasil (2014). Em sete dessas edições, quem ergueu o troféu foi um sul-americano — Uruguai, Brasil e Argentina revezando-se no protagonismo em casa ou na vizinhança. A exceção tem nome, data e endereço: a Alemanha de 2014, no Maracanã, no único momento em que a Europa quebrou o feitiço justamente no quintal do Brasil.

É uma estatística que beira o folclore, mas carrega uma lógica concreta. Jogar nas Américas significa fuso, viagem longa, calor, gramado diferente e, acima de tudo, uma arquibancada que raramente está do lado europeu. A Alemanha que sonha em repetir a redenção de 2014 sabe melhor do que ninguém o tamanho da raridade que protagonizou.

Os adversários invisíveis: calor e a altitude do Azteca

E aqui mora o capítulo inédito de 2026. Um estudo do grupo World Weather Attribution estimou que cerca de um quarto dos 104 jogos do torneio pode acontecer acima dos limites de segurança recomendados pela FIFPRO. Não por acaso, a FIFA tornou obrigatórias duas pausas de hidratação por partida, perto dos minutos 22 e 67 — uma confissão institucional de que o termômetro virou personagem.

Os relatos da estreia já entregaram o roteiro: na abertura entre México e África do Sul, jogada ao meio-dia local, sobraram imagens de atletas se jogando na água para escapar do sol. E o detalhe que interessa a esta coluna: boa parte dos jogadores torrados pelo sol vinha de seleções europeias, gente acostumada ao frio. A própria França aparece entre as seleções que vão enfrentar os ambientes mais severos do torneio.

Some a isso a altitude. O Estádio Azteca, na Cidade do México, fica a cerca de 2.240 metros acima do nível do mar — ar rarefeito que castiga justamente quem o futebol europeu transformou em dogma: a pressão alta, as transições em velocidade, o pulmão obrigado a aguentar noventa minutos de intensidade. No segundo tempo, a conta chega.

O contra-argumento que a Europa tem na manga

Seria leviano cravar que o velho continente vai naufragar. A ciência do esporte de 2026 não é a de 1970: há aclimatação programada, hidratação milimétrica, departamentos médicos que tratam o clima como adversário tático. A posse de bola paciente da Espanha, aliás, pode ser uma vantagem disfarçada — quem faz a bola correr no calor se cansa menos do que quem corre atrás dela. E os elencos europeus têm profundidade para rodar o time e poupar pernas nas tardes mais cruéis.

Existe ainda o precedente de 2014, prova viva de que dá, sim, para vencer por aqui. Se a Alemanha conseguiu no calor brasileiro, não há lei física que impeça Espanha ou França de repetirem o feito. Favoritismo, afinal, não nasce do nada — nasce de elenco, método e história recente, e nisso o continente tem de sobra.

O palpite da Sexta Europeia

Mesmo assim, não aposto na Europa de olhos fechados — e essa é a posição desta coluna. O continente chega tecnicamente superior, com os três primeiros nomes da fila de favoritos, mas pisa num terreno que mistura história adversa, calor perigoso e a altitude do Azteca num mesmo coquetel. São variáveis que não aparecem na cotação da casa de apostas e que, em mata-mata decidido no detalhe, costumam cobrar caro.

Se for para escolher, sigo desconfiado: a taça tem tudo para manter o sotaque das Américas, seja com uma anfitriã surpreendente, seja com os gigantes sul-americanos. A Europa que se cuide — porque, do outro lado do Atlântico, o adversário mais perigoso pode não ser uma seleção, e sim o termômetro.

Perguntas frequentes

Quais são as seleções europeias favoritas na Copa 2026?
Nas cotações das casas de apostas, a Espanha lidera, seguida por França e Inglaterra, formando o trio europeu no topo dos favoritos ao título.
Alguma seleção europeia já venceu uma Copa do Mundo nas Américas?
Sim, mas apenas uma vez: a Alemanha, campeã em 2014 no Maracanã. Nas outras sete Copas disputadas no continente, o título ficou com a América do Sul.
Por que o calor preocupa as seleções na Copa de 2026?
Um estudo do World Weather Attribution apontou que cerca de um quarto dos 104 jogos pode ocorrer acima dos limites de segurança da FIFPRO, e a FIFA adotou pausas de hidratação obrigatórias.

Fonte: Lance, CNN Brasil, FOX Sports, World Weather Attribution | Informações adicionais por Beira do Campo

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Marcos Vinícius Santos
Marcos Vinícius Santos

Correspondente Internacional

Morou 8 anos na Europa cobrindo as principais ligas. Fluente em inglês, espanhol e italiano. Acompanha de perto brasileiros no exterior e os bastidores do futebol europeu.