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Beirado Campo
Opinião

CBF voltou com o Brasileirão antes da final da Copa. E deu ruim

A CBF reiniciou a Série A no dia 16, três dias antes de Espanha e Argentina decidirem a Copa. Resultado: rodada picotada, clubes desfalcados e um domingo de futebol brasileiro vazio justamente quando o mundo inteiro está olhando para o futebol.

Neide FerreiraNeide Ferreira5 min de leitura
CBF voltou com o Brasileirão antes da final da Copa. E deu ruim
Ilustração — o domingo de final de Copa encontra os estádios brasileiros vazios, sem jogos da rodada 19

A CBF olhou para o calendário, viu que o Brasil tinha caído nas oitavas e concluiu que a Copa do Mundo tinha acabado. Reiniciou o Brasileirão na quinta-feira, dia 16, com a final ainda a três dias de distância. Hoje, domingo, enquanto Espanha e Argentina decidem o título mundial às 16h no MetLife Stadium, não há um único jogo da Série A no Brasil. A pressa não serviu para nada — e ainda cobrou o preço de sempre.

Não é frescura de quem gosta de reclamar da CBF por esporte. É aritmética. A entidade parou o campeonato por 46 dias, esperou o Mundial inteiro, e aí, quando faltavam três dias para o fim, decidiu que não dava mais para esperar. Trocou 46 dias por 72 horas.

O que a pressa comprou

Nada que se aproveite. A rodada 19 virou um acordeão: dois jogos na quinta, dois na sexta, alguns no sábado, e o grosso empurrado para 22 e 23 de julho. Um domingo inteiro sem futebol brasileiro no meio de uma rodada que já estava andando. É o pior dos mundos — a competição voltou, mas voltou picotada, sem o ritual do domingo cheio, sem tabela que se leia de cima a baixo.

Quem acompanhou a volta da rodada 19 e seus números já viu o estrago: clubes jogando em dias soltos, com intervalos desiguais, alguns com quatro dias de descanso e outros com dois. Em campeonato de pontos corridos, isso não é detalhe. É vantagem competitiva distribuída no sorteio do calendário.

E o argumento de que "o Brasil foi eliminado, então tanto faz" é justamente onde mora o erro. O Brasil ser eliminado não elimina a Copa. Trinta e três jogadores da Série A foram ao Mundial — recorde absoluto desde que se conta isso. Treze dos vinte clubes cederam atletas, para sete seleções diferentes. Eliminar o Brasil não devolve esses jogadores no dia seguinte.

Os dois candidatos ao título pagaram a conta

Aqui a ironia fica cruel. Os dois clubes que mais cederam jogadores à Copa são exatamente os dois que brigam pelo título: nove convocados do Flamengo e sete do Palmeiras. O Palmeiras lidera com 41 pontos, o Flamengo tem 34 e um jogo a menos. São eles que decidem o Brasileirão — e são eles que voltaram mais esfarrapados.

O calendário não é neutro. Reiniciar a competição enquanto os elencos mais fortes ainda estão remendados não "acelera" o campeonato: distorce ele. Um clube de meio de tabela com zero convocados entrou na rodada 19 com o elenco completo e descansado. Isso é um presente que ninguém pediu e que ninguém devolve depois.

O contra-argumento existe — e não convence

Vou ser justa: existe uma defesa. O calendário brasileiro é sufocante, tem Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana e Série A empilhados, e cada dia de janela conta. A CBF diria que ganhar três dias em julho significa não ter que enfiar dois jogos numa quarta em novembro. É um argumento real.

Só que ele desmonta sozinho quando você olha para o que efetivamente aconteceu. A rodada não foi concluída em três dias — ela se arrasta até 23 de julho. Os três dias "ganhos" viraram uma rodada esticada por oito. Não houve economia de calendário; houve bagunça de calendário. E a janela de transferências que abre amanhã vai jogar mais uma camada de instabilidade em cima de elencos que ainda nem se reencontraram no vestiário.

Se a ideia era ganhar tempo, o jeito honesto era começar na segunda, dia 20, com a Copa encerrada, os jogadores voltando e uma rodada 19 inteira, redonda, jogada como rodada. Um dia a mais de espera. Um.

O que isso diz sobre a nossa relação com o futebol

Tem uma coisa mais funda aqui, e ela não é sobre logística. Num Dia Nacional do Futebol que calha de cair no mesmo domingo da final da Copa, o futebol brasileiro escolheu ficar de fora da festa. Não por acaso: por decisão administrativa.

O torcedor brasileiro não parou de assistir Copa porque o Brasil caiu. Ele vai ligar a TV hoje às 16h para ver quem leva os prêmios individuais, para ver se Messi ergue a taça de novo, para ver a Espanha tentar o segundo título. O interesse estava lá. A CBF é que decidiu competir com ele — e depois nem competiu, porque hoje não tem jogo nenhum.

Isso não é gestão de calendário. É reflexo. A entidade age como se o campeonato existisse num vácuo, sem torcedor, sem TV, sem concorrência de atenção, sem o simples fato de que futebol é entretenimento e entretenimento disputa horário. Um campeonato que volta e ninguém percebe não está ganhando dias. Está perdendo público.

O que fica

O Brasileirão vai seguir. A rodada 19 vai terminar no dia 23, os elencos vão se recompor, e em duas semanas ninguém vai lembrar que a volta foi atravessada. É assim que esse tipo de erro sobrevive: ele não explode, ele apenas corrói.

Mas fica o registro. A CBF tinha um calendário limpo, uma pausa já digerida de 46 dias e a chance de reabrir a Série A na segunda-feira com tudo no lugar — jogadores voltando, Copa encerrada, atenção do país inteiro disponível de novo. Escolheu correr três dias e chegou atrasada mesmo assim.

Se a pergunta é se valeu a pena, a resposta está no placar de hoje: 16h, MetLife Stadium, Espanha e Argentina. E o futebol brasileiro assistindo de casa, sem entrar em campo, exatamente como estaria se tivesse esperado.

Fonte: Exame, Diário do Nordeste, Lance! · informações adicionais por Beira do Campo

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Quem escreve

Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.