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Brasil é só o 5º favorito ao hexa — e talvez seja melhor assim

Às vésperas da Copa 2026, o Brasil é só o quinto favorito ao título nas casas de aposta — uma vergonha para a pentacampeã, dizem por aí. Eu discordo: foi como azarão, depois de Eliminatórias caóticas, que a Seleção ganhou em 2002. Perder a coroa de favorito pode ser a melhor notícia do ciclo.

Neide Ferreira
Neide Ferreira
5 min de leitura
Brasil é só o 5º favorito ao hexa — e talvez seja melhor assim
Ilustração — O Maracanã recebe a despedida da Seleção antes da Copa 2026, com o Brasil fora do topo da lista de favoritos ao título

Vou começar pela parte que ninguém quer dizer em voz alta na semana da despedida: o Brasil chega à Copa 2026 como o quinto favorito ao título, atrás de meia dúzia de europeus, com a torcida ainda fingindo que o hexa é direito de nascença. Pois eu venho aqui propor o contrário. Tira a coroa de favorito da cabeça dessa Seleção. Joga fora. Foi exatamente sem ela, em 2002, que o Brasil ganhou a última Copa que ganhou.

Os números que humilham a pentacampeã

Quem mexe com aposta não tem sentimento, tem planilha. E a planilha é dura: o Brasil aparece por volta da quinta colocação na lista de campeões, com odds que passeiam entre 9,00 e 10,00, enquanto espanhóis, franceses e ingleses ocupam o pódio. A Opta dá ao pentacampeão algo perto de 6% de chance de levantar a taça. Seis por cento. Para o país do "futebol-arte", isso é o equivalente esportivo a um tapa na cara.

A conta tem explicação, e ela não é injusta. As Eliminatórias foram um sobe e desce de vergonha alheia, com troca de comando no meio do caminho e atuações que envergonhariam time de várzea. O elenco continua sendo o mais valioso do planeta — dá só uma olhada em como ficam os 26 de Ancelotti em números —, mas valor de mercado não cobra escanteio. As casas de aposta enxergaram instabilidade e cobraram o preço. Justo.

O problema não é o número. O problema é o brasileiro achar que ele é uma ofensa em vez de um diagnóstico.

2002 já ensinou: favorito não ganha Copa

Deixa eu refrescar a memória de quem prefere a nostalgia ao fato. A última vez que o Brasil foi campeão do mundo, em 2002, a Seleção tinha acabado de protagonizar a pior Eliminatória da sua história. Foram quatro técnicos no ciclo — Luxemburgo, Leão, um interino e o Felipão para apagar o incêndio —, seis derrotas e uma classificação arrancada no sufoco. Ninguém, mas ninguém, apostava naquele Brasil cambaleante. Resultado: 2 a 0 na Alemanha em Yokohama e a quinta estrela no peito.

Agora vamos ao outro lado da moeda, o lado que dói. Quando o Brasil chegou pendurando a faixa de favorito, o que aconteceu? 2006, com aquele "esquadrão de ouro" gordo de ego, parou nas quartas para a França. 2014 virou trauma nacional com o 7 a 1 dentro de casa. 2018 e 2022 repetiram a dose: quartas de final, mala feita, choradeira. Quatro Copas seguidas como um dos grandes favoritos, quatro frustrações. O padrão não é coincidência — é diagnóstico. O peso de ser o melhor do mundo no papel anestesiou o Brasil em quadra.

Eu já escrevi aqui que 54% dos brasileiros desistiram da Copa 2026 antes mesmo dela começar, e na época eu disse que entendia. Continuo entendendo. Mas desistir é diferente de libertar. Quero a torcida sem fé cega, não sem fé nenhuma.

O outro lado: azarão não é desculpa para relaxar

Agora seguro o meu próprio entusiasmo antes que alguém me acuse de passar pano. Ser quinto favorito não é um troféu. É a constatação de que existem buracos reais nesse time, e fingir que "azarão ganha Copa" é só virar a desculpa do contra.

O sistema defensivo ainda inspira mais reza do que confiança. A vaga de centroavante segue sendo o debate eterno que acompanha a Seleção há meses. E tem o elefante de muletas no vestiário: Neymar foi convocado mesmo machucado, com uma lesão de grau dois na panturrilha, e a comissão joga as fichas em recuperá-lo na fase de grupos. É aposta, e aposta com risco. Ser desacreditado pelas casas só vira vantagem se o time transformar a leveza em intensidade — e não em alívio para jogar de salto alto, como em 2006.

Carlo Ancelotti, primeiro estrangeiro a comandar o Brasil numa Copa, sabe disso melhor que ninguém. O italiano ganhou tudo na Europa justamente lendo o momento certo de cada elenco. Se ele souber vender pra esses jogadores a ideia de que ninguém os espera no topo, pode ter em mãos a arma psicológica que faltou nas últimas quatro tentativas.

A despedida no Maracanã que deveria libertar

É por isso que o amistoso desta noite, Brasil x Panamá no Maracanã, tem um valor que vai além dos 90 minutos. É a última imagem que a torcida leva do grupo antes do embarque para os Estados Unidos. E eu queria que essa imagem fosse de gente solta, não de gente carregando um caixão de expectativa nas costas.

Cante o hino, lote o estádio, emocione-se com a despedida. Mas guarde a cobrança de hexa-ou-fracasso na gaveta. Esse Brasil não vai ganhar a Copa porque é favorito — ele não é. Vai ganhar, se ganhar, exatamente porque parou de fingir que era. Em 2002, foi assim. Quinto favorito, faixa de azarão, planilha contra. E mesmo assim a estrela veio.

Prefiro mil vezes torcer por esse Brasil descrente do que pelo favorito convencido que tropeçou em 2006, 2014, 2018 e 2022. Já vi esse filme. Não acaba bem.

Perguntas frequentes

O Brasil é favorito à Copa do Mundo 2026?
Não como antigamente. As casas de aposta colocam o Brasil em torno da quinta posição entre os favoritos, com odds entre 9,00 e 10,00, atrás de seleções europeias.
Quando o Brasil estreia na Copa do Mundo 2026?
A estreia é em 13 de junho, contra o Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, pelo Grupo C, que ainda tem Haiti e Escócia.
Qual foi o último título mundial do Brasil?
O penta, em 2002, na Copa do Japão e Coreia do Sul, com vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha na final em Yokohama.
Por que o Brasil não é mais visto como grande favorito?
A campanha irregular nas Eliminatórias e a instabilidade técnica do ciclo derrubaram a Seleção no ranking das casas de aposta, que hoje veem potências europeias na frente.

Fonte: Lance, Olympics.com, CNN Brasil, Wikipédia | Informações adicionais por Beira do Campo

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Neide Ferreira
Neide Ferreira

Colunista

Neide Ferreira, 58 anos de paixão pelo futebol. Colunista que não tem medo de falar o que pensa. Voz da torcida, defensora do futebol raiz e inimiga da hipocrisia no esporte.