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O caminho do Hexa: o que o Brasil precisa corrigir para ser campeão do mundo

A derrota para a França com um jogador a mais escancarou falhas que o Brasil precisa resolver antes de junho. De Vini Jr dependente a uma defesa frágil, Ancelotti tem três meses para montar o time que pode trazer o Hexa — mas o relógio está correndo

Thiago Borges
Thiago Borges
6 min de leitura
O caminho do Hexa: o que o Brasil precisa corrigir para ser campeão do mundo
Ilustração — O caminho do Hexa passa por correções táticas urgentes na seleção de Ancelotti

A Copa de 2026 começa em 11 de junho. Faltam menos de três meses. E o Brasil, quarto favorito nas casas de apostas, acaba de perder para a França por 2 a 1 — mesmo jogando com um homem a mais durante 35 minutos. Se a derrota em Boston serviu para alguma coisa, foi para escrachar as feridas que Ancelotti precisa curar antes de pisar em solo americano com ambição real de título.

Mas o Hexa é possível? Sim. O elenco é talentoso, o técnico é vencedor, e a Copa é um torneio de sete jogos onde quem se ajusta melhor no meio do caminho costuma levantar a taça. O problema é que ajustar pressupõe ter uma base — e essa base, hoje, não está clara.

O diagnóstico: três problemas centrais

1. Dependência excessiva de Vini Jr

Vini Jr é o melhor jogador brasileiro. Bicampeão da Champions, decisivo nos momentos mais difíceis pelo Real Madrid. Mas a seleção virou um time que precisa dele brilhando para funcionar — e quando ele não vai bem, como contra a França, o ataque inteiro desaparece.

Contra os franceses, Vini perdeu a maioria dos duelos, segurou demais a bola e não criou uma chance sequer de perigo real. Mbappé, seu companheiro de clube, o eclipsou completamente. O problema não é Vini — é que o time não tem plano B quando ele não rende.

Raphinha e Rodrygo precisam ser mais do que coadjuvantes. Endrick, aos 20 anos, pode ser a surpresa que muda o jogo saindo do banco. Mas alguém precisa assumir a responsabilidade criativa além do camisa 10.

2. Meio-campo sem alma

Quem cria? Quem acelera o jogo? Quem coloca a bola no espaço para o trio ofensivo explorar?

O meio-campo brasileiro oscilou entre o pragmatismo excessivo de Casemiro e a discrição de parceiros que não impõem ritmo. Faltou um jogador que conecte a defesa ao ataque com passes verticais e visão de jogo.

Ancelotti sabe disso. No Real Madrid, ele tinha Kroos e Modrić para essa função. Na seleção, a solução pode passar por Bruno Guimarães como peça central — alguém que carrega a bola, filtra, distribui e ainda chega na área. Mas ele precisa de mais liberdade tática do que tem recebido.

3. Defesa que toma gols evitáveis

Dois gols de cobertura no mesmo jogo. Dois. Não foram gols de jogada ensaiada, de escanteio ou de lance genial. Foram falhas de posicionamento e leitura que uma seleção que quer ser campeã do mundo simplesmente não pode cometer.

Marquinhos segue como o líder defensivo, mas precisa de um parceiro à altura. Gabriel Magalhães é a aposta, mas ainda oscila na seleção. E a posição de lateral-direito virou um ponto de interrogação com a possível ausência de Vanderson por lesão.

No gol, Ederson tomou duas coberturas. Alisson é titular, mas seus problemas físicos recorrentes no Liverpool são uma bomba-relógio. Quem joga se Alisson sentir?

O que Ancelotti pode — e deve — fazer

Carlo Ancelotti não é um técnico de revolução. É um técnico de ajustes. E isso pode ser exatamente o que o Brasil precisa.

No Real Madrid, ele montou times que não eram os mais bonitos de se ver, mas eram letais nos contra-ataques e sólidos quando precisavam defender. A Champions League 2023/24 foi ganha assim — sofrendo, absorvendo pressão, e matando o jogo em dois ou três lances.

Para a Copa, a receita pode ser parecida:

  • 4-3-3 pragmático: com liberdade para Vini Jr e Raphinha nas pontas, mas com três volantes que protegem a defesa
  • Transições rápidas: em vez de tentar trocar passes na saída de bola contra seleções que marcam alto, apostar na velocidade do ataque
  • Solidez defensiva acima de tudo: é melhor ganhar de 1 a 0 com 35% de posse do que perder de 2 a 1 com 60%
  • Banco de reservas decisivo: Endrick, Luiz Henrique e Savinho como opções para mudar o jogo no segundo tempo

O caminho no mata-mata

O Grupo C — Marrocos, Haiti e Escócia — não deve ser problema. A classificação é praticamente certa, mesmo com a fase atual. O desafio começa nas oitavas.

FaseAdversários prováveisDificuldade
OitavasDinamarca, Peru ou SérviaMédia
QuartasEspanha ou PortugalAlta
SemifinalArgentina ou InglaterraAltíssima
FinalFrança ou AlemanhaAltíssima

O Brasil não chega a uma semifinal de Copa desde 2014. Não vence o torneio desde 2002. São 24 anos de jejum. A geração de Vini Jr, Rodrygo e Raphinha é talentosa o suficiente para quebrar essa sequência — mas talento sem organização tática é o que nos eliminou em 2018 (quartas contra a Bélgica) e em 2022 (quartas nos pênaltis contra a Croácia).

As peças-chave do Hexa

Se o Brasil for campeão em 2026, esses jogadores terão sido decisivos:

  • Vini Jr — precisa repetir na seleção o que faz no Real Madrid. Ponto final.
  • Raphinha — líder técnico da seleção nas Eliminatórias. Se mantiver o nível do Barcelona, é o motor do time.
  • Marquinhos — capitão, líder, o homem que organiza a defesa. Sua experiência em mata-mata é insubstituível.
  • Bruno Guimarães — a peça que falta no meio. Se Ancelotti lhe der liberdade, pode ser o Kroos brasileiro.
  • Endrick — o fator surpresa. Jovem, imprevisível, capaz de mudar um jogo em 20 minutos saindo do banco.
  • Alisson — se estiver saudável, é o melhor goleiro disponível. Mas o plano para sua ausência precisa existir.

Conclusão: o Hexa é possível, mas não é provável — ainda

O Brasil tem elenco para ser campeão do mundo. Isso não está em discussão. O que está em discussão é se Ancelotti vai conseguir transformar um grupo de jogadores talentosos em um time em menos de três meses.

A derrota para a França foi pedagógica. Mostrou que não basta ter Vini Jr, não basta ter superioridade numérica, não basta ter nome. Copa do Mundo se ganha com identidade tática, com solidez defensiva e com jogadores que entendem exatamente o que precisam fazer em cada momento do jogo.

Ancelotti já fez isso antes. Fez no Milan, no Real Madrid, no Everton em circunstâncias impossíveis. Mas nunca fez com uma seleção — e seleção é um animal diferente. Menos tempo de treino, menos controle sobre o elenco, mais pressão política.

O próximo teste é terça-feira, contra a Croácia em Orlando — justamente o algoz de 2022. Se o Brasil mostrar evolução, a esperança volta. Se repetir a atuação de Boston, o Hexa fica cada vez mais distante.

O relógio está correndo. E a Copa não espera.

Fonte: ESPN Brasil, CNN Brasil, FOX Sports, FIFA | Informações adicionais por Beira do Campo

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Thiago Borges
Thiago Borges

Analista de Dados

Cientista de dados e fanático por futebol. Usa estatísticas avançadas (xG, xA, PPDA) para desvendar o que os olhos não veem. Transforma números em histórias.